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O nosso Sloterdijk

Maio 12, 2008 por Aviador

 

A Angelus Novus sempre foi uma editora com uma atenção especial ao ensaio, atenção que não tenciona abandonar, embora se prepare para alargar o âmbito temático dos ensaios que publica. Regras para o Parque Humano, de Peter Sloterdijk, está na linha dessa preocupação com a edição de livros que dêem a ver a singularidade do género ensaístico, sobretudo quando ele alcança a densidade e riqueza do texto em causa - que na edição da Angelus Novus é enriquecido por um prefácio de Luís Quintais em que se debate a contribuição de Sloterdijk para o debate sobre as implicações éticas e filosóficas das biotecnologias. 

António Guerreiro acaba de publicar no caderno Actual, do Expresso, uma recensão dos títulos recentes de Sloterdijk em Portugal, dedicando especial atenção a Regras para o Parque Humano. Transcrevemos o excerto em causa, com a devida vénia:

 

A Grande Narrativa da Globalização 

Já lhe chamaram ‘ogre da filosofia’, um epíteto adequado ao autor de um grandioso empreendimento que, convocando a filosofia, a história, a antropologia, a ciência, a literatura, a teoria literária, as ciências da cultura, acaba por corresponder também a uma nova compreensão do papel da filosofia. Depois de Oswald Spengler, ninguém construiu uma narrativa filosófica tão completa, a fim de erguer uma teoria do tempo presente. Esta comparação com Spengler tem ainda um outro motivo - o pensamento morfológico -, mas fica-se por aí. 

De Peter Sloterdijk acabam de sair quatro livros em tradução portuguesa: Regras para o Parque Humano (na Angelus Novus, que ressuscitou recentemente graças a um programa editorial de grande qualidade, com um lúcido e bem informado prefácio de Luís Quintais), Palácio de Cristal. Para uma Teoria Filosófica da Globalização, O Estranhamento do Mundo e Se a Europa Acordar (estes três publicados pela Relógio d’Água).  (…) 

Regras para o Parque Humano está na origem de um confronto violento entre Sloterdijk e Habermas (e Habermas é, neste caso, não apenas o nome do filósofo mas uma vasta e poderosa constelação da qual ele é o centro). O chamado ‘caso Sloterdijk’, que fustigou a Alemanha como uma tempestade e atravessou fronteiras, começou com uma conferência que o filósofo pronunciou em 1999. Aumentada, essa conferência deu origem a um pequeno livro, editado nesse ano. Regras para o Parque Humano é uma resposta à «carta sobre o humanismo», que Heidegger escreveu em 1946. Fazendo uam crítica ao humanismo e ao seu modelo subjectivista enquanto religião política de tipo fundamentalista, Sloterdijk mostrava como era necessário superar a velha distinção metafísica entre o elemento maquínico e o humano, na medida em que o homem é o resultado de uma antropotécnica que procede por selecção, criação (no sentido em que falamos de criação de animais; a palavra alemã é ‘Züchtung’) e domesticação. O escândalo provocado por Sloterdijk teve dois motivos: por um lado, ele revelava o elemento mecânico no núcleo central do sujeito, pondo fim ao discurso pastoral do humanismo, às suas visões edificantes; por outro, fazia uso de um vocabulário (entre todas as palavras da sua antropotécnica, ‘Selektion’ e ‘Züchtung’ foram as que tiveram um efeito maior) que os seus inimigos e opositores quiseram identificar com o discurso do eugenismo nazi. E assim se passou a uma operação de linchagem que levou Sloterdijk a responder com uma violência que não é habitual nos debates intelectuais e, finalmente, a escrever um artigo intitulado ‘A Teoria Crítica Morreu’. Regras para o Parque Humano tornou-se assim o texto de ruptura do consenso alemão do pós-guerra. (…) 

 

António Guerreiro, Actual, Expresso, 10/05/08

 

aviador

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