Trevas e luz

 

Eduardo Jorge Madureira Lopes publicou, no Diário do Minho, a 11/05/08, o artigo que transcrevemos em seguida, sobre o vol. II do Diário de uma mulher católica a caminho da descrença, de Laura Ferreira dos Santos. Agradecemos ao autor a gentil autorização para esta reprodução do texto:

 

É por aí que a luz entra

As entrevistas têm regras simples e um formato conhecido: o jornalista pergunta, o interlocutor responde. A prática, demasiadas vezes, é diferente: o jornalista pergunta e responde, o interlocutor assiste, tentando, aqui e ali, esboçar uma intervenção para assentir ou discordar. Invulgar mesmo, entre nós, é o jornalista desaparecer da entrevista para dar espaço a quem deve escutar. Era exactamente isso o que se podia encontrar, na segunda-feira, nas páginas do Público. O jornalista António Marujo ouviu Laura Ferreira dos Santos, professora da Universidade do Minho, a propósito da recente publicação de Diário de uma mulher católica a caminho da descrença (Coimbra: Angelus Novus, 2008) e colocou apenas a voz da entrevistada nas páginas seis e sete do caderno P2.

O resultado do procedimento do jornalista é, aliás, muito interessante. Assemelha-se, se assim se pode dizer, a uma cábula onde se registaram os aspectos mais importantes da “matéria” da conversa. Dos sublinhados, resultou um texto que percorre alguns dos temas que, no diário, mereceram a atenção da autora.

Laura Ferreira dos Santos apresenta o lugar a partir do qual pretende estabelecer o seu ponto de vista: “Há uma canção de Leonard Cohen, que diz mais ou menos: ‘Toca os sinos que ainda podes tocar, / larga a tua oferta perfeita, / em todas as coisas há uma fissura / e é por aí que a luz entra’. Desde que a ouvi, andei sempre à procura dessa luz, não só em circunstâncias de sofrimento, mas também em ocasiões mais favoráveis”.

O diário, que se inicia no dia 17 de Novembro de 2000, fala desse poema no dia 21 de Dezembro. Mas a obra, de facto, mostra bastante mais do que a procura dessa luz. Ela dá ainda conta do trabalho, mais ou menos bem sucedido, de rasgar em acontecimentos dolorosos uma abertura capaz de permitir a entrada da luz. Às vezes, as fissuras ferem: “A morte daquelas e daqueles com quem tínhamos relações mais próximas rasga-nos por dentro, em fendas que não sabemos como suturar”, escreve a autora a 11 de Maio de 2002.

No dia seguinte, há já um eco do verso de Leonard Cohen, percebendo-se por onde é que a luz pode entrar. Ao Público, confessa Laura Ferreira dos Santos: “Não é a morte que me assusta. Acredito que há uma vida para além desta. Nunca me esqueci de um texto dos Irmãos Karamazov, quando um deles pergunta: ‘Achas mesmo que um dia nos vamos ver todos outra vez?’ E o irmão diz simplesmente: ‘Sim’. Quando li isto, veio-me uma lágrima aos olhos. Não é a morte em si que me preocupa. É antes o filme de terror que pode ser, para uma pessoa, a sua despedida desta vida. E não me parece nada que Cristo pretendesse que essa passagem tivesse de ser tão difícil, que as pessoas tenham de sair desta vida numa tão grande agonia”.

Dando conta das suas convicções, afirma Laura Ferreira dos Santos ao Público: “Sinto-me mais próxima de Cristo porque os evangelhos sempre tiveram uma grande importância para mim”. E acrescenta: “Vejo, até certo ponto, que não posso ir plenamente a Cristo se não vou pela Igreja. A convicção na existência de Deus reforçou-se, mas serei uma católica nas margens. Algumas pessoas poderão considerar-me pouco ortodoxa. Digo sempre que estou à procura de uma ortodoxia maior. Quando discordo de algumas posições do Vaticano, por exemplo em relação à morte assistida, é em busca de uma ortodoxia maior. Essa ortodoxia que dizem que me falta, considero-a uma ortodoxia menor. À imagem do que Santo Agostinho dizia, sobre a procura de um Deus maior”.

O diário desta mulher católica, não apresentando o caminho da descrença que o título refere, regista censuras, inquietações e perplexidades quanto a diversos modos como se vive o catolicismo. É isso o que se encontra, por exemplo, no texto datado de 5 de Maio de 2002: “Acabei há poucos dias de reler os Actos dos Apóstolos. Impressionou-me ver como, não obstante já não viverem com o Mestre, a sua confiança nele permanece intocada e, no fundo, quase não se nota que vivam na sua ausência. Que contraste com o modo habitual de os cristãos procederem: o Mestre morreu há muito, não estamos propriamente à espera do fim dos tempos, e entretanto vamo-nos entretendo a ganhar dinheiro, a fazer carreira, a consumir nos hipermercados e a ver concursos imbecilizantes de televisão”. A atafulhar de cangalhada os espaços por onde a luz poderia entrar, uma luz que se desejava que fosse azul.

 

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