«Caravana» ou da inesgotável invenção

 

No mesmo dia em que a tournée de Caravana chegou a Braga – mais propriamente à livraria Centésima Página, com apresentação de Luís Mourão -, António Guerreiro recenseava no Expresso, suplemento Actual, a obra de estreia de Rui Manuel Amaral, atribuindo-lhe 3 estrelas (sobre esta classificação, veja-se com atenção a «Nota» final do recenseador). Uma vez que o texto é suficientemente eloquente, limitamo-nos a remeter para a sua leitura. Mas não podemos deixar de dizer que nos agrada constatar que Rui Manuel Amaral se vai confirmando como a última revelação da ficção portuguesa. Transcrevemos com a vénia devida ao autor e ao semanário:

 

Dir-se-á deste livro, com toda a justiça, que inventa um género ou, pelo menos, apura numa forma original características provenientes de experiências literárias excêntricas. Logo na abertura, uma espécie de epígrafe – à palavra «Literatura», em jeito de título, segue a inscrição: «Uma macieira que dá laranjas». Eis a porta para o mundo do absurdo, para uma literatura que se precipita no abismo dos jogos de espelhos – uma hiperliteratura do nada que apenas se justifica a si própria, como um objecto tautológico e diabólico, subtraído a todos os vínculos com a ordem lógica do Mundo. Esta literatura como «anomalia» e como construção artificial é uma elaborada construção do pensamento. Um dos dispositivos mais comuns é a literalização da metáfora, como neste «microconto» onde um homem morre na sequência de uma transfusão de sangue:

«No relatório de averiguações, os peritos concluíram que se tratou de um lamentável erro humano. O assistente, que era um profissional muito hábil e além disso muito experiente, por qualquer enigma ou mistério da natureza, picara o homem na veia poética (…) resumindo, o médico ficou incapacitado para o trabalho e o morto desatou a escrever poemas no paraíso».

A encenação dos paradoxos do sentido, o jogo do sentido e do não-sentido, a afirmação de dois sentidos simultaneamente – há nestes textos uma invenção delirante, por via de operações lógicas e dialécticas, que criam um mundo alternativo e põem a estratégia do jogo a comandar a operação literária.

Nota – ao iniciar-me no exercício de atribuição de estrelas, um aviso: tentarei sempre ter presente o horizonte em que cada livro se situa e avaliá-lo em função de referências com as quais é comparável. Este livro, por exemplo, situo-o no horizonte de Alice no País das Maravilhas, em certos aspectos da «lógica do sentido», e de Centúria, de Giorgio Manganelli, nos aspectos formais do género. Se o comparasse com as inocuidades da ficção dominante, não chegariam as cinco estrelas.

António Guerreiro, Expresso / Actual, 17/05/08

 

aviador

Uma Resposta

  1. Li, gostei e recomendo… :)

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