Discurso directo: Manuel Resende (III)

 

“Se quereis evitar a revolução, fazei-a”: eis como termina a entrevista que Manuel Resende nos concedeu à data da edição de O Mundo Clamoroso, ainda. Mas se a entrevista acaba, os versos de Resende continuam, mesmo se no regime da toupeira: mais à frente, não se sabe bem onde nem quando, alguém pegará neste e nos outros livros do autor e sentirá aquilo que só a grande poesia pode fazer sentir. Resende preferiria chamar a esse encontro tão improvável, mas tão decisivo, «revolução» – ou talvez, quem sabe, estivesse na disposição de o trocar por ela. Seja feita a sua vontade.

 
AN. O seu livro inclui em desdobrável o poema «Arde Cura» que vem com a indicação «hiper poema». Podia explicar do que se trata? E como é que este «Arde Cura» se relaciona com O Mundo Clamoroso, ainda?

MR. Este “Arde Cura” é originalmente um poema em hipertexto (linguagem html) que fui construindo quando andava ocupado a fazer um sítio web sobre poesia (hoje defunto, por cansaço). É uma colagem de notícias de rádio, de emails, de reflexões pessoais, de versos soltos que se me propunham à circulação e que cerzi através de links em html. Tratava-se de uma tentativa de utilizar a linguagem html como instrumento de criação. Depois, fui compreendendo que a internet não trouxe nada de conceptualmente novo, apenas a aceleração electrónica da intertextualidade que é, também, toda a relação social. E pensei que, com os meios da tipografia, poderia fazer um hipertexto ainda mais hipertexto: enquanto o hipertexto html impõe o caminho ao leitor, através dos links (e aí está um pouco da fraude intelectual da internet quando se apresenta como libertária), a pura e simples justaposição dos diferentes elementos numa só folha de papel permite ao olhar reconstruir todas as combinações possíveis de todos os fragmentos (fugindo à mera leitura linear em que habitualmente se enquadra um poema, embora, claro, em qualquer poema os links virtuais estejam sempre lá), com a vantagem de se poder rasgar a coisa e deitar os pedaços fora.

Bem, e voltando atrás, àquele “apenas a aceleração electrónica da intertextualidade”, este exercício permite, creio, reflectir sobre outro aspecto. A referida aceleração trouxe de facto uma mudança qualitativa. Fornece, a quem a utiliza, uma quantidade de informações que não consegue controlar, porque a velocidade do nosso cérebro não é elástica: somos assaltados por uma vertigem de presentes desconexos. A redução do hipertexto a tipografia substitui a sucessão de imagens pela presença de textos que podem ser reconsultados, apela a um vagar que não existe no ecrã do computador. Acho que dá que meditar.

Relaciona-se com o resto do livro como todos os outros fragmentos: justapõe-se. Não há um plano, a não ser o que foi surgindo por si. Mas veja-se também a resposta à pergunta que se segue.

 

AN. Comente os seguintes versos de «Arde Cura», sff: «raios partam a vida e quem lá mande / a tal toupeira cega remexe a terra sem parar, / e nós indo por esses campos tão lavrados / como havemos de reconhecer os caminhos? /mas havemos de queimar a merda dos vossos bancos! / o vandalismo é arte e o melhor poema há-de ser / escrito em carros da polícia e prédios da cidade / se em carros da polícia e prédios da cidade / houver espaço para os nossos slogans».

MR. Nada mais claro. Fernando Pessoa em Seattle, com um livro de Marx no bolso. “We’ll burn your fucking banks”, slogan surgido em Seattle. “A arte é vandalismo”, slogan de Chuck0, anarquista americano. Se esses versos têm (terão?) algum interesse, será o de dizerem e negarem ao mesmo tempo (confio em que o leitor consiga encontrar pelo menos duas contradições neles), pois o sentido está, não simplesmente no que é dito, mas sobretudo no dizer.

Assim como o hiperpoema é, também, um comentário sobre o hipertexto (a Internet), visto que foi arrancado do seu habitat inicial, também o conjunto destes versos é um comentário sobre cada um deles. O livro todo mais não é do que esse jogo, que diz o que não diz e, se virem bem, diz que o faz e o que faz.

Ao mesmo tempo, pondo em confronto a necessidade da revolução com o seu carácter problemático, creio que me situo no momento físico mais instante da época. O melhor conselho que posso dar aos surfistas é este: “se quereis evitar a revolução, fazei-a”.

 

aviador

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