
[Concluimos aqui a edição de excertos de uma entrevista de Iván de la Nuéz, autor de Fantasia Vermelha]
Ouvi-te uma vez dizer que o momento em que sentiste não teres lugar em Cuba, nem tu nem boa parte da tua geração, constitui a verdadeira tragédia do projecto revolucionário.
Mantenho essa posição. A ruptura com a geração intelectual nascida por volta de 1960 é a crise mais profunda que viveu o projecto socialista cubano. Todas as demais rupturas, anteriores ou posteriores, se realizaram com justificações mais ou menos bem forjadas. As dos anos 60 justificaram-se pelo facto de que se tratava da velha burguesia, adeptos do antigo regime, gente com resquícios capitalistas. A do Mariel*, por tratar-se da ‘escória’, algo como a excrescência da sociedade socialista. As das gerações mais recentes porque são filhos do dólar e das ‘perversões’ e perigos que traz o turismo. Nós, contudo, nem tínhamos nascido sob o regime de Batista, nem tínhamos conhecido o dólar e tínhamo-nos educado de cabo a rabo sob a ideia do futuro perfeito. De modo que só lhes restou esgrimir contra nós o argumento de um desvio clínico. Somos uns monstros sem contorno nem circunstância, subitamente desviados, casos individuais contagiados por uma gripe imprevista ou atacados por uma pontual epidemia de oportunismo.
Outra diferença é que, enquanto em épocas anteriores a ruptura se produziu a partir de um desafecto em relação ao regime, no nosso caso foi o Governo quem praticamente rompeu connosco. Seguramente, pelo facto de que tínhamos actuado com uma permissividade política e estética que outros não tiveram; daí que, mais do que uma proibição do que não se podia fazer, produziu-se uma censura tácita sobre o que já se tinha feito desde a segunda metade dos anos 80.
Era a época da perestroika, da chamada rectificação e da incerteza quanto ao sistema comunista. Hoje não há praticamente uma alta personagem da elite cultural, diplomática ou política cubana que não tenha um filho, ou mais, fora de Cuba. Li, da parte de alguns, muitos horrores sobre nós, mas até hoje não conheço a menor autocrítica, inclusivamente dentro dos preceitos revolucionários, que reconheça que eles falharam nalguma coisa.
No que me respeita, por volta de 1989 senti-me cada vez mais asfixiado. A partir desse ano tornou-se evidente que os propósitos do movimento artístico em que eu acreditava, de que participava, e sobre que escrevia, não encontrariam saída dentro de Cuba. Ou recuava, ou emigrava ou enfrentava medidas legais e políticas muito sérias (as três coisas ocorreram, aliás). De imediato, o que num ensaiozito tinha qualificado como «cultura dissonante» – Arte Calle, Proyecto Castillo de la Fuerza, Paideia; a nova arquitectura; Hacer; Teatro del Obstáculo; o trabalho dos artistas plásticos a partir de Volumen I; Ballet Teatro de la Habana; Estética Práctica, de Arturo Cuenca; o teatro de Carlos Díaz, etc. – passou a ser entendido, por uma zona muito importante do aparelho ideológico, como «cultura dissidente». A ponto de, durante um congresso da UPEC, o todo-poderoso ideólogo de então ter dito, mais ou menos, esta frase: «Há uma oposição muito localizada com a qual talvez possamos discutir, há exilados moderados com os quais podemos abrir canais de diálogo; mas há uma geração muito informada que pensa que há que escutá-la porque são os filhos da Revolução. Com esses… ni cojones!» Eis porque, com 27 anos, optei por ficar, na minha primeira viagem a um país capitalista, e converter-me em «desertor», segundo a nomenclatura migratória cubana. Foi no México, em 1991, aonde chegámos, de supetão, com toda a alegria e anuência oficial, diga-se, uma centena de criadores.
*Mariel: cidade cubana cujo porto é o mais próximo dos EUA. Em 1980, na sequência de grave crise económica, e com a conivência do governo castrista, 125 000 cubanos fugiram, em embarcações de segurança duvidosa, para os EUA, tendo alguns morrido na travessia.
Arquivado em: Autores, Entrevistas, Lançamentos


