Isabel Cristina Rodrigues: entrevista (III)

Qual é o livro de Vergílio Ferreira que prefere? E porquê?

Isso foi variando ao longo do tempo. Como já expliquei, começou por ser o Para Sempre, mas depois de tanto o ler e sem que saiba exactamente porquê gastou-se-me um pouco, para usar um termo caro ao próprio Vergílio Ferreira. Hoje em dia considero o Na Tua Face uma obra-prima completa: a verdade é que é um romance, mas é também um ensaio sobre a fotografia e a pintura e é tudo isso sem que o seja explicitamente. É um romance de uma verdade e de uma precisão inabaláveis e de uma beleza intemporal também. E depois porque contém a mais bela cena de amor de toda a sua ficção – aquela em que o pintor Daniel, depois de visitar a exposição de fotografias que a filha Luz realizou sobre o cadáver do irmão, inventa para a mulher, já cega na altura, uma exposição diferente daquela que ele próprio acabou de ver, para evitar que Ângela «visse» as imagens do filho morto. São (também) momentos assim que fazem um grande escritor.

Uma vez que é professora universitária, pode dizer-nos qual é a reacção dos jovens universitários à obre de Vergílio Ferreira?

Normalmente torcem um bocado o nariz quando percebem que vão ter que ler um escritor consensualmente difícil, mas depois, salvo um ou outro caso, acabam por gostar e alguns deles por gostar muito. É mais uma reacção ao esforço que sabem ser necessário do que ao escritor em si e não reagem de modo diferente a Saramago ou a Lobo Antunes, por exemplo.

Vai continuar a escrever sobre Vergílio Ferreira ou entretanto mudou a orientação do seu trabalho académico?

Deixar de escrever sobre Vergílio Ferreira é difícil, uma vez que há ainda muita coisa a fazer. Gostava um dia de fazer um dicionário sobra a obra do escritor, em colaboração com a Prof. Rosa Goulart, que é uma das maiores exegetas da obra do autor. Temos ambas esse vago projecto, mas outro mais urgente se antepôs a esse, uma vez que estamos a preparar a edição crítica do Onde tudo foi morrendo e esta tarefa, obedecendo à calendarização de toda uma equipa (a que estuda o espólio do escritor, doado à Biblioteca Nacional) acaba por ter prioridade sobre as outras. Mas tirando isto, penso de facto variar o trajecto do meu estudo. Gostaria de escrever um livro sobre a influência de Pessoa na narrativa portuguesa moderna e contemporânea, não na poesia, porque isso de um modo ou de outro já tem sido feito, mas na narrativa. Acho que há aí coisas interessantes a descobrir. Depois há um outro projecto, talvez mais difícil mas também mais aliciante, sobre a revitalização da alba medieval na poesia portuguesa contemporânea, em colaboração com o Prof. Paulo Alexandre Pereira, meu colega. E pelo menos em relação a este último projecto, Vergílio Ferreira não podia estar mais longe…

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