Rui Bebiano: «Outubro»

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Rui Bebiano é actualmente professor de história contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Sociais. Foi pioneiro na revalorização do estudo da história política do período Barroco, com o seu livro D. João V. Poder e Espectáculo (Estante, 1987), tendo-se dedicado ainda ao estudo da teorização da guerra entre os séculos XVI e XVIII. Colaborador regular de diversas publicações periódicas, é também autor do blogue A Terceira Noite, onde o recém-editado Outubro foi inicialmente publicado. Foi aliás um dos primeiros exploradores das possibilidades comunicativas do ciberespaço, criando publicações como NON! – Cultura e Intervenção (1996-2003), além dos blogues Sous les pavés, la plage! ,  A Estrada e Passado/ Presente.

Outubro, cuja versão final reescreve com alguma extensão o texto originalmente publicado no blogue, procura contribuir para a superação de algumas das perspectivas acríticas da Revolução de Outubro e da sua pesada mitologia. O autor reporta-se, por isso, a factos mas integra também, recolocando-as sem qualquer dogmatismo, memórias e crenças que continuam a moldar algumas das preocupações contemporâneas. E isso porque afinal, para umas quantas pessoas – talvez não muitas, mas umas quantas que se não conformam com o mundo tal qual ele é –, haverá sempre um Palácio de Inverno a tomar.

Deixamos aqui o impressivo início do livro:

Quando dizemos «Outubro», soltamos evocações. Apesar de longínquo, o estrépito da fuzilaria imaginária disparada em São Petersburgo sobre o Palácio de Inverno – que Annenkov e depois Eisenstein encenaram, tornando-a «real» –, chega-nos ainda aos ouvidos, distribuindo posições de combate e rearmando certezas. Mas porque regressar aqui a acontecimentos que, fora do universo protegido dos prosélitos mais irredutíveis da revolução proletária, nos chegam sobretudo como um rumor épico que a ficção, o documentário e os compêndios de vez em quando libertam? Talvez valha a pena fazê-lo porque eles se referem a um tempo e a um lugar onde foi possível acreditar na materialização de uma das mais antigas intenções humanas: o advento de uma época afortunada, no qual a luta entre o bem e o mal tenha sido resolvida com a vitória irrevogável do primeiro. Instante de uma «luta final» rumo a uma era nova, o Outubro ideal do qual aqui se fala condensou, e a sua dimensão simbólica ainda hoje representa, uma parte daquilo que de melhor a humanidade tem sido capaz de conceber como destino.

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