Foi nesta quinta-feira: na capa do Público, uma chamada para a entrevista que Isabela Figueiredo deu a Alexandra Prado Coelho e que saiu na edição desse dia do jornal, no Ipsilon. Na selecção dos melhores livros de 2009, o Caderno de Memórias Coloniais surgia na posição 14 (em 20), escolhido por Gustavo Rubim, nos seguintes termos:
Sente-se o abalo que este «Caderno» causa no marasmo literário nacional em passagens como esta: «Foder. O meu pai gostava de foder. Eu nunca vi, mas via-se». Relato cru do racismo português em Moçambique no fim do Império, memória do amor de uma filha pelo corpo do pai, história de traição a uma ‘verdade’ que morreu com a morte do colonialismo. Um texto parcial, violento, escrito como se escrevem cadernos: com o fantasma da verdade sempre ao lado. Isabela Figueiredo afirma-se escritora, num país onde só proliferam ‘autores’, esses manequins de vender autógrafos.
Na resenha ao livro, com o título «Uma estátua de culpa», Eduardo Pitta, que lhe dá 4 estrelas, di-lo «uma obra imprescindível para compreender o sentido (ou sem sentido) da nossa presença em África». E conclui: «Há muito pouca gente a escrever como ela».
Quanto à entrevista a Alexandra Prado Coelho, «peça de resistência» dessa edição do Ipsilon, saiu com o título «O colonialismo era o meu pai» e é impossível resumi-la, tal a força que dela emana: a força de quem continua, por outros meios, a escrever o Caderno de Memórias Coloniais. Iremos linká-la para o nosso blogue assim que estiver disponível no Ipsilon. Por agora, apenas um excerto:
O meu pai foi um mediador entre mim e a realidade. Eu conhecia a realidade através dele e do mundo que ele trazia até mim. Portanto só posso culpar o meu pai. O colonialismo é o meu pai, a discriminação é o meu pai, porque foi ele que eu vi fazer isso.
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Gostei muito da entrevista e fiquei com imensa vontade de ler o livro. Parabéns para todos que participaram do projeto!
Conheci Isabela pouco tempo depois dela chegar de África.
Também eu tinha regressado da Guiné nem há um ano.
Mais tarde conheci o pai, do qual tive uma péssima impressão pela forma que falava.
Mais tarde percebi que ele que era um homem teatral, excessivo e acabei por gostar dele , embora as suas ideias em relação às colónias e colonialismo me causassem profundo desconforto, acabei por apreciar a sua companhia.
Não foram muitas as vezes é verdade.
Isabela faz um revisitação das suas relações com o pai, em que para além do amor que lhe tinha, também lhe via os defeitos.
Fazem parte do nosso passado colectivo as suas memórias, por muito que custe a muita gente.
O melhor elogio que posso fazer a algo que mexa com o intelecto é ;divertido e estimulante,nestes dois itens “caderno de memorias coloniais” cumpriu inteiramente o objectivo.
Sem agressividade gratuita(exceptuando o “figado de porco”)tem uma escrita murdaz e introspectiva que relata memorias e sentimentos de forma despudorada e crua. Vivencias de infancia e adoslescencia,quando os sentidos se revelam mais autenticos.
Várias vezes durante a leitura me chegou a memoria Antonio Lobo Antunes.
Agradeço ao LEO,me ter dado a conhecer este livro que vou divulgar pelo prazer que me deu.