O lançamento do «Caderno de Memórias Coloniais» nos blogues

Algumas das pessoas presentes no lançamento do Caderno de Memórias Coloniais em Lisboa, na livraria Pó dos Livros, deixaram nos seus blogues as impressões da sessão. Começamos por Afonso Ferreira, no blogue Um Homem na Cidade:

Para além de bem escrito – Isabela escreve de uma forma crua, inteligente, irónica, com um humor subtil que raramente encontro – o livro desvenda o que era a vida na colónia e como foi vivido o processo de descolonização.

Ao vivo desapontou quem estava à espera de uma pessoa polémica ou com grandes “teorias”. Isabela fala com convicção mas aparenta uma serenidade no discurso e uma segurança face à polémica. Simplesmente diz não reconhecer as opiniões dadas por anónimos nos blogs e fala dos Cadernos como uma visão pessoal que tentou cingir às memórias que guardou – partiu de Moçambique quando tinha doze anos.

Para além de ser um registo fundamental, é de salientar a enorme coragem para publicar o livro, sendo o mesmo em parte baseado na figura paterna e as suas observações sobre o racismo latente na altura serem um assunto ainda hoje tabu.

Dos Cadernos resta dizer que sabe a pouco, lê-se de uma assentada, apetece mais palavras depois da última página. É imperativo um novo livro rapidamente.

Sofia Loureiro dos Santos, em post intitulado «Das memórias incómodas», no seu blogue Defender o Quadrado, afirma, por seu turno:

É um livro de amor pela personagem paterna, herói e devastadora desilusão por não ser herói mas apenas pessoa. É um livro de desabafo e terapêutico, como o são os livros escritos com o despojamento, a crueza e a rudeza deste. É um livro muito bem escrito que nos transporta para dentro e para fora da autora, em fragmentos que se entrelaçam sem aparente intencionalidade. É um livro que me parece não pretender fazer história nem doutrina revelando, no entanto, uma parte da verdade que poucos têm coragem de abordar, por todos os motivos que referi e por muitos outros que desconheço.
 
Independentemente daquilo que, como sociedade, integrámos e assimilámos do que era o Portugal anterior à revolução e o Portugal que fomos e que somos desde a revolução, vale a pena ler o livro de Isabela Figueiredo por ele próprio, como objecto literário, porque nos enfrenta e nos faz pensar, provoca e comove, porque nos acrescenta.

No blogue Herdeiro de Aécio, A. Teixeira, também presente na sessão, dá a sua versão:

Opiniões variadas e de qualidade variada. Por momentos, o livro e a autora, o pretexto para a reunião, pareceram desaparecer sob o peso do carácter polémico do tema abordado: a descolonização e os aspectos com ela relacionados. Mas a apresentação – que durou cerca de 2 horas! – lá acabou por ter um happy end, com a autora a conseguir (tornar a) falar do seu livro…

Vale ainda a pena ler, do mesmo autor, o post «O passado em forma idílica», em que A. Teixeira analisa algumas manifestações mais recentes da «nostalgia colonial».

Por fim, JPN, no blogue Respirar o mesmo ar, em post com o título «As memórias coloniais da Isabela», descreve a sessão, concluindo:

Era já noite, ao adormecer, quando peguei no livro para o ler. Não faço critica nem vou disfarçar isso perante o livro de uma amiga. Fico-me pelos fenómenos, pelos factos: o livro lê-se bem, lê-se demasiado bem. Já ia na página quarenta e tal quando de repente, ainda sem sono, percebi as desoras da leitura. A micro narrativa de um blogue, uma espécie de conto curto, talvez ajude a isso. Outro fenómeno: quando acordei dei-me conta de que tinha viajado para a minha própria infância. Primeiro colando-se à do imaginário do livro, as brincadeiras no quartel de Mafra com as lanças confiscadas aos turras, depois outros caminhos. É uma sensação boa, acordar com a infância espalhada no travesseiro.

Refira-se ainda um excelente post de uma pessoa não presente no lançamento, Rui Bebiano. No seu A Terceira Noite (e também no Arrastão), Bebiano publicou um texto intitulado Do outro lado do tempo, de que extraímos este excerto:

Caderno de Memórias Coloniais não é um texto fácil para quem integre essa dimensão mais ou menos idílica e a technicolor do passado de muitos dos portugueses brancos que habitaram as antigas colónias, tornando menos agradáveis as imagens quase utópicas, de postal ilustrado, que abundam por aí. Além disso, resulta de um acto de coragem da autora, evidenciando, entre a ficção e não-ficção, um trabalho de exposição pessoal e familiar do passado (e também do presente que se lhe cola) que não deixará de ser pago com juros. Isabela Figueiredo faz notar, na conversa-entrevista que integra o próprio volume, que já houve quem lhe dissesse «que temos de ultrapassar o passado, que não vale a pena tocar em assuntos tão sensíveis», mas contrapõe ao argumento que, se temos realmente de ultrapassar esse passado, se os portugueses do outro lado do mar precisam mesmo de ultrapassar esse passado, «só o podemos fazer depois de o enfrentar». Nem que fosse apenas por este acto de enfrentamento, este livro incómodo mereceria sempre a nossa atenção. Os portugueses que povoaram o império colonial, ou «o nosso ultramar», não podem ver o seu passado apagado, esquecido, ou então pintado com as cores apenas agradáveis que a descolonização teria manchado. Ele conteve também experiências amargas, difíceis, perturbantes, por vezes únicas.

Uma resposta

  1. Obrigada pelo destaque ao blog. Abraços

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