Discurso Directo: Miguel Cardina (I)

 

Miguel Cardina acaba de publicar, na Angelus Novus, o livro A Tradição da Contestação. Resistência Estudantil em Coimbra no Marcelismo. Falámos com o autor, a pouco mais de um dia da apresentação pública do livro. Deixamos aqui uma primeira parte dessa conversa.

 

AN: O título do seu livro, que se coloca explicitamente sob a égide de revisões contemporâneas da ideia de tradição como as activadas por Eric Hobsbawm, quer dizer exactamente o quê?

MC: Remete para duas ideias complementares. A primeira procura desmistificar um certo discurso sobre a «tradição académica», que ainda hoje persiste em Coimbra, e que entende a praxe como uma espécie de património ancestral, mais ou menos perene e incontestado, o que não é inteiramente verdade. Houve uma contestação da tradição que ocorreu durante toda a década de sessenta e que resultou na recusa de rituais, práticas e simbologias tidas como arcaicas. E esse não foi um processo inédito: de maneira distinta, nos finais do século XIX e inícios do século XX, estudantes identificados com o ideário republicano tinham-no já feito, o que levou, aliás, ao desaparecimento da praxe entre 1910 e 1919. Curiosamente, hoje é esse pedaço da história que anda desaparecido…

A segunda ideia relaciona-se com esta e diz respeito ao objecto central do livro: o estudo do processo de politização da juventude estudantil entre meados da década de cinquenta e o 25 de Abril. É a este percurso – variado e com algumas descontinuidades – que eu chamo de tradição da contestação. Ele é feito de profundas mudanças ao nível da contestação política mas também no campo das sociabilidades académicas. Algumas dessas mudanças são ainda hoje visíveis nas Repúblicas ou no próprio entendimento da Academia como «espaço de reivindicação».

 

AN: Ainda é possível dizer coisas novas sobre as «crises estudantis em Coimbra no antigo regime»?

MC: Julgo que sim. Parece-me que esta obra, bem como os diferentes trabalhos efectuados por Rui Bebiano – desde O Poder da Imaginação, até à recuperação de memórias dos activistas (com Maria Manuela Cruzeiro) ou o recente livro de articulação com o presente (com Elísio Estanque) – demonstram o interesse em se analisar os movimentos estudantis sob um prisma não simplesmente político, mas também social, moral e cultural.

De qualquer modo, o meio estudantil coimbrão é aquele que se encontra melhor estudado. Sobre o Porto, por exemplo, existe uma nebulosa quase total. Mas mesmo sobre Coimbra, faria falta um trabalho sobre o meio estudantil no contexto da 2ª guerra mundial ou sobre os posicionamentos sócio-políticos do corpo docente. Existe um livro de Luís Reis Torgal sobre o assunto, mas que se concentra no período entre 1926 e 1961. Seria interessante uma abordagem que fosse dessa data até ao 25 de Abril de 1974. E que colocasse em diálogo a composição, as práticas e as convicções do corpo docente e do corpo discente.

 

AN: No seu livro propõe que se considere a especificidade do período pós-69, mais propriamente o que coincide com o consulado de Marcelo Caetano. Mas tem noção que não é possível substituir, na economia simbólica das «crises estudantis em Coimbra» e mesmo na memória das gerações que as viveram, a centralidade mítica de 69 pelo período que se segue até 74, ou não?

MC: Não existe, naturalmente, uma intenção de substituir a centralidade de 69 por uma outra, colocada entre 70 e 74. Até porque isso seria conferir um poder à história que ela não detém. Mas procurei, sem dúvida, chamar a atenção para tempos menos conhecidos, menos celebrados, e que, não tendo tido a «dimensão de massas» da «crise de 69», foram inovadores em diferentes níveis: na recusa de um tradicionalismo ainda utilizado durante a “crise”, na politização da cultura ou na introdução de uma retórica anticolonial, que em 1969, por exemplo, nunca aparece explicitada. Para se fazer a história do processo revolucionário de 1974-1976, bem como, em certa medida, a (pré-) história das elites emergentes anos depois na política, na cultura, no jornalismo, etc., tem de se ter em conta aquele período.

 

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