Eis a segunda parte da nossa conversa com Miguel Cardina, a propósito do seu livro A Tradição da Contestação.
AN: A sua área de trabalho é a «história contemporânea». Como sabe, há ainda muito quem considere a expressão duvidosa, para não a dizer uma contradição nos termos. Como vê essas posições?
MC: A desconfiança coloca-se mais ao nível da chamada História do Tempo Presente, que se baseia numa relação de coetaneidade entre o historiador e o objecto de investigação. Tem-se a ideia de que essa proximidade é perniciosa. No meu caso, isso nem se põe: directamente, não vivi o Estado Novo, como não vivi a implantação da República ou a matança de judeus em Lisboa no início do século XVI.
O que na realidade se pretende sugerir é que nos casos em que o passado está demasiado presente, a objectividade fica deturpada. O que é uma noção ainda devedora do positivismo e algo ilusória do ofício. A escrita historiográfica é sempre feita por um sujeito situado no tempo e no espaço, com um conjunto nunca infinito de fontes, seleccionadas por um olhar pessoal e visando uma coerência interna. O produto desse trabalho apenas participa da Verdade na medida em que está aberto ao confronto crítico. É certo que se podem colocar alguns entraves ao nível do acesso aos arquivos, ou algum melindre por se estar a falar de pessoas que ainda podem estar vivas. Mas isso leva-nos, mais do que a um limite, a uma potencialidade associada à história (muito) contemporânea: a oportunidade de recurso à memória vivida. A História Oral é, aliás, um dos eixos da tese de doutoramento que estou agora a realizar.
AN: O seu trabalho actual, sobre a constituição da extrema-esquerda em Portugal, é uma sequência natural de A Tradição da Contestação? Ou seja, foi na universidade que nasceu a extrema-esquerda e foi esse o seu nicho ecológico preferencial?
MC: A primeira organização portuguesa de extrema-esquerda é a FAP/CMLP, que aparece em 1964, resultado de uma cisão no interior do PCP, no contexto do conflito sino-soviético. Estritamente, o grupo não nasceu no seio estudantil, ainda que tenha recolhido simpatias de sectores mais politizados, em regra jovens ligados ao PCP e que se vão afastando deste partido por não concordarem com a linha de integrar o exército e ir para a frente de combate fazer trabalho político.
Mas a FAP/CMLP sofreu uma forte repressão entre 1965 e 1966, o que fez com que a organização – e sobretudo os textos do seu ideólogo, Francisco Martins Rodrigues – permanecesse mais como inspiração do que como suporte organizacional dos múltiplos grupos de matriz maoísta que emergiram nos anos seguintes. Pequenos e por vezes inorgânicos grupos de matriz trotskista ou socialista radical também apareceram nessa curva da década de sessenta para a década de setenta. E foi efectivamente no meio estudantil que se deu esse florescimento. No final do Estado Novo, o PCP, que era tradicionalmente a força dominante nos meios estudantis até meados da década de sessenta, repartia e por vezes era suplantado por estruturas como os Núcleos Sindicais, ligados à OCMLP, no Porto e em Coimbra, o MRPP, em Lisboa, ou a UEC(m-l), em Lisboa e no Porto. Foi este fragmentado activismo de extrema-esquerda que colocou o anticolonialismo no topo da agenda estudantil.
AN: Hoje em dia, tem-se a sensação de que tanto os princípios que orientavam os estudantes nos seus protestos nos anos 60 (e passam 40 anos sobre o Maio parisiense) como a própria ideia de extrema-esquerda se tornaram obsoletos. Os estudantes de hoje lutam contra os princípios de Maio de 68 – na medida em que lutam por escolas «articuladas» com as empresas, cursos práticos e orientados para o emprego, etc. – e a extrema-esquerda só sobrevive em recodificações como as do Bloco de Esquerda, em que o político, lato sensu, se tornou o cultural: aborto, casamento homossexual, etc. Trabalhar sobre a extrema-esquerda é hoje fazer «arqueologia do presente», para falar à Foucault?
MC: Referiu a caducidade do Maio de 68, atestada pela ausência desses princípios no ideário reivindicativo estudantil de hoje, o que é inteiramente verdade. Mas também é verdade, a outro nível, a sua presença praticamente consensual em diversos domínios da sociedade. Algumas questões relacionadas com o direito das minorais, o feminismo, a ecologia, o recuo de uma moral conservadora, etc., devê-las a esse «espaço 68». Na semana passada, num artigo no Público, Pacheco Pereira dizia que era paradoxal a condenação do Maio de 68 efectuada por Nicolas Sarkozy na última campanha presidencial francesa, já que sem aquele momento nunca teria sido visto como admissível um presidente casar com uma cantora pop que se tinha mostrado nua em revistas. Queiramos ou não, hoje somos todos um pouco filhos desse passado.
Talvez seja importante também não amalgamar completamente aquele «espaço 68» à extrema-esquerda daqueles anos. Na verdade, alguns sectores mais ortodoxos viram a emergência daquelas temáticas que mencionei com desconfiança, por acharem que se estava a descentrar indevidamente a militância da questão fundamental da luta de classes. É, aliás, esse aspecto mais rigidamente marxista-leninista que hoje aparece como obsoleto, até porque desapareceu o mundo bipolarizado da Guerra-Fria, bem como a sedução pela China, por Cuba e pelos independentismos africanos e asiáticos e o próprio modelo de organização ferreamente disciplinada mostrou-se pouco operativo e asfixiante.
Mas o radicalismo daqueles anos teve uma outra dimensão, que em Portugal foi, aliás, minoritária. Ela consistiu naquilo que Julie Stephens, uma historiadora australiana dos anos sessenta, chamou de “protesto antidisciplinar”, isto é, a capacidade de invenção de uma nova linguagem de protesto. Ela consistia numa recusa da “disciplina do político” e das correlativas noções de organização, hierarquia e liderança. Esta nova dinâmica de contestação levou a transgredir distinções rígidas como a efectuada entre radicalismo político e radicalismo cultural. A acção dos Provos, na Holanda, dos situacionistas, em França, ou dos Diggers, nos EUA, foram exemplos mais visíveis disso. A cólera e a festa, o colectivo e o individual, a política e a cultura, eram dois lados da mesma moeda. Em certa medida, a esquerda radical pós-moderna inscreve-se na linha de continuidade deste filão.