Discurso directo: Manuel Resende (II)

 

O que é a poesia portuguesa? E o que é poesia? O poeta é um tradutor? O tradutor é um poeta? Continuamos a ouvir Manuel Resende, a propósito do seu último livro em data, O Mundo Clamoroso, ainda.

 

AN. A sua poesia, que oscila entre a dicção larga, pós-vanguardista, que vai do verso livre ao poema em prosa (muitas vezes de alcance político), e uma tonalidade auto-jocosa que nos remete para certo legado dos finais do nosso século XVIII, é dificilmente situável no panorama actual da poesia portuguesa. Como vê esse panorama e como se vê nele?

MR. Não o vejo e não me vejo nele e ele não me vê.

Mas, antes de prosseguir, o que é a poesia portuguesa? É da mais elementar salubridade resistir a essa utilização da História que consiste em encontrar uma espécie de lei natural eterna no que foi uma construção histórica: o erguer de uma fronteira geográfica e a criação de uma língua nacional. Poesia portuguesa, sem surrealismo, sem realismo socialista, sem estruturalismo, sem romantismo, etc.? Pronto.

Direi, além disso, que, ao nascer, mal saído das fraldas pessoanas, caí no caldeirão do surrealismo. Depois disso, ainda não encontrei mapa melhor do que o que este movimento nos propôs e que continua a ser para mim o essencial: o divino não está nos céus, mas em nós, e só temos como armas a poesia, o amor e a liberdade, contra todas as esperanças.

Certo, o surrealismo, que nasceu da primeira guerra e contra ela, tinha que ser derrotado pela segunda guerra, pelo regresso da barbárie (creio que este factor tem sido menosprezado). Mas é razão para darmos razão à barbárie e esquecermos as contas que ele pediu à vida?

Sou, como se vê, ultrapassado. Sem excluir que posso estar enganado, e sem querer atribuir juízos de valor aos poetas meus contemporâneos (nem a mim, aliás, que sou, acho, bastante contemporâneo), afigura-se-me que o que está a dar (não me ocorre outra expressão que diga o que quero dizer) é a complacência com o lugar comum, um desejo secreto de valores seguros (um croissant, os vários deuses avulsos, a mentalidade simples da menina da caixa) talvez matizada com críticas epidérmicas ao lixo que não devia estar nas “nossas” ruas.

Não é coisa que me preocupe por aí além. Afinal o que é um panorama? É o que se oferece aos olhos, o que dá mais nas vistas. E quantos poetas não tem havido, mesmo recentemente, às margens desse espectáculo (Luís Miguel Nava, Manuel António Pina, Nuno Moura, para citar só três)? E que é que isso interessa?

 

AN. É também um tradutor de méritos reconhecidos, com uma especial inclinação pela poesia grega. Em que medida o poeta é, em Manuel Resende, um compagnon de route do tradutor? É-lhe aceitável um quiasmo do tipo «O poeta é um tradutor, o tradutor é um poeta?»

MR. No meu caso, e no de muitos poetas e tradutores, sim. O poeta e tradutor francês Henri Meschonnic, inclusive, baseia (pudera!) a sua teoria da tradução numa poética; estou muito próximo das suas concepções, embora ache que põe demasiada confiança numa noção de ritmo algo vaga, aliás.

Primeirissimamente, a tradução é uma forma de ler e conhecer a poesia dos outros, a que não se escreve na nossa língua (e, como Mallarmé sublinhava, as línguas são imperfeitas por diversas, pelo que conhecer a diversidade é a melhor forma de saltar da língua para a linguagem). O novo só se faz sobre o velho e, por isso, melhor ainda se o velho for novo para nós, nos extrair da nossa tradição pequena (inclusive a que está mais na moda) e nos levar a tomar ar.

Segundamente, como negar que a poesia é a forma mais intensa de trabalhar com a linguagem? A tradução permitiu-me, creio (espero que não seja demasiado presunçoso), encontrar os mecanismos da linguagem que trabalham a língua. Descobri que a textura é que faz o texto, de que forma o discurso constrói o mundo para os outros, quanto somos palavra (é isso que nos distingue dos outros animais). Trata-se de verdades elementares, mas habitualmente ninguém repara nisso.

 

 aviador

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Uma resposta

  1. um grande abraço ao poeta Manuel Resende. O divino está, de facto, em nós.

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