Fernando Pessoa: «Contra Salazar» (I)

A Angelus Novus acaba de editar Contra Salazar, de Fernando Pessoa, volume em que António Apolinário Lourenço reuniu todos os textos, em verso ou prosa, que Pessoa escreveu a pretexto de e contra Salazar. Para que se perceba o alcance deste volume, aqui transcrevemos boa parte da Introdução:

 

Em 1926, Fernando Pessoa foi um dos inúmeros intelectuais portugueses que receberam com expectativa e até com esperança a chamada «Revolução Nacional» de 28 de Maio. A posição de Pessoa está perfeitamente expressa no opúsculo que publicou em 1928, intitulado Interregno. Justificação a ditadura militar em Portugal. A entrada em cena de Oliveira Salazar não alterou substancialmente a apreciação que o poeta fazia da situação. O lente de Coimbra não o empolgava, como havia sucedido com Sidónio Pais, mas apreciava o modo como, através da gestão política da sua acção nas finanças públicas, se havia transformado na figura carismática do novo regime.

O conservadorismo extremo de Salazar, no entanto, nunca mereceu a simpatia de Fernando Pessoa, e a sua preocupação ia aumentando à medida que se apercebia da influência crescente na doutrina política do Estado Novo da ideologia do Integralismo Lusitano. Inquietava-o igualmente a macaqueação que ia sendo feita pelo poder político português de algumas iniciativas do regime fascista italiano e, depois de 1935, do regime hitleriano.

Em 1935, dois acontecimentos vêm acabar com todas as ilusões pessoanas relativamente a Salazar e ao Estado Novo: a aprovação, pela Assembleia Nacional, de um projecto de lei, apresentado pelo deputado José Cabral, que proibia as Sociedades Secretas (como a Maçonaria) e o discurso do Presidente do Conselho de Ministros na cerimónia de atribuição dos Prémios do SNI, em que a Mensagem foi um dos livros distinguidos, em 21 de Fevereiro.

A apresentação do projecto de José Cabral motivou da parte de Pessoa a redacção de um extenso artigo, publicado em 4 de Fevereiro, no Diário de Lisboa. O resultado, no entanto, não foi o pretendido pelo autor de «Chuva Oblíqua». Em vez da compreensão que ingenuamente esperava, viu-se cruelmente criticado e insultado pela imprensa afecta ao regime.

Apesar de vários dos poemas e textos prosísticos que se seguem não serem datados, acreditamos que só dois deles (os dois primeiros fragmentos em prosa) não estão directamente relacionados com esta dupla decepção do poeta. Os dois documentos dissonantes constituem uma resposta ao discurso de Salazar, então ainda apenas Ministro das Finanças, na apresentação da União Nacional, em 30 de Julho de 1930.

Encerram este volume, o texto publicado por Fernando Pessoa no Diário de Lisboa e o Discurso proferido por Salazar no dia 21 de Fevereiro de 1935.

 

aviador

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