Luís Oliveira, sobre os 30 anos da Antígona: «Não serei um aliado do capitalismo…» (I)

Caraça01

A pedido nosso, Luís Oliveira, editor refractário responsável pela Antígona, respondeu a uma série de perguntas da Angelus Novus e de alguns autores e colaboradores seus. Publicamos neste post as suas respostas às perguntas da Angelus Novus. Deixamos para o próximo a respostas de Luís Oliveira às perguntas dos nossos autores.

 

Angelus Novus: A máscara sardónica que é o logo da Antígona vem acompanhada de uma descrição da casa editorial: «Editores Refractários». Refractários a quê, se nos permite a pergunta?

Luís Oliveira: Somos refractários às leis que regem todo o sistema de opressão em que vivemos. A Antígona resiste à acção do fogo, sem mudar de direcção.

 AN: O catálogo da Antígona sempre foi muito político, mesmo quando literário (pensamos por exemplo no significado da centralidade atribuída na ficção à obra de Jack London ou George Orwell). O facto de essa política não ser a consensual, mas sim claramente alternativa – radical, marginal, etc. – mostra que há um público para suportar uma editora com um projecto muito definido nessa área?

LO: É evidente que, se não tivéssemos leitores, não existiríamos estes trinta anos, pois não possuímos outros recursos para além das vendas dos nossos títulos. O facto de termos um projecto muito bem definido, nesta e noutras áreas, atraiu um certo público, que se tem mantido fiel às ideias que veiculamos.

AN: Como editor com um projecto muito coerente, sente que o seu público aumentou, diminuiu ou se manteve nestes 30 anos?

LO: O público da Antígona tem sempre vindo a crescer ao longo destes trinta anos. É um público maioritariamente jovem, apaixonado pela nossa linha editorial. A publicação da obra completa de Albert Cossery aumentou exponencialmente o número de leitores mais jovens.

AN: Lançou recentemente um selo novo, a Orfeu Negro, para livros na área das artes contemporâneas e da ilustração. E fê-lo com um notável upgrade gráfico e de suporte multimédia. Não considerou a hipótese de integrar esses livros na Antígona? A opção pelo catálogo único, sem colecções, obrigou-o a isso ou quis afastar estas colecções da imagem de marca da Antígona?

LO: A Orfeu Negro, dirigida por Carla Oliveira, tem autonomia e projecto próprios. É uma chancela da Antígona apenas por questões financeiras e burocráticas, e a seu tempo será uma editora independente, que reflectirá naturalmente as ideias e inquietações de Carla Oliveira.

AN: Os livros da Antígona são hoje, sobretudo na área da revisão de texto, absolutamente exemplares no nosso panorama editorial, marcado aliás nesse domínio por um razoável desleixo, e mesmo em grandes casas editoriais. Também aí houve uma evolução da editora, não foi? A que se deve essa evolução e essa atenção acrescida?

LO: Houve uma evolução natural em todo o processo de concepção do livro, desde a capa ao seu interior. Damos muita atenção à revisão, geralmente feita na editora, e podemos mesmo afirmar que o revisor deve estar tão ou melhor preparado que o tradutor. Normalmente, os tradutores e o público reconhecem o empenhado trabalho dos nossos profissionais. A revisão descuidada, como acontece com a maioria das editoras, faz parte do processo quantitativo de produção, da ausência de rigor e paixão dos agentes comerciais, onde o editor tende a desaparecer.

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