Luís Oliveira, sobre os 30 anos da Antígona: «Não serei um aliado do capitalismo…» (II)

Caraça03

Publicamos agora as respostas de Luís Oliveira às perguntas de autores e colaboradores nossos. A todos, o nosso muito obrigado.

 

Manuel Portela é Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, tendo sido director do TAGV. Poeta experimental e performer, tem obra vasta sobre história do livro e «Digital Humanities». É autor da Antígona e tradutor de algumas das obras maiores do catálogo da editora. Traduziu e escreveu poemas para a Inimigo Rumor e colaborou de várias maneiras com a Angelus Novus. Dirigirá em breve uma colecção na nossa editora.

P: A qualidade das traduções tornou-se também uma referência da Antígona. Qual o lugar e a importância da tradução no projecto da editora?

LO: A qualidade das traduções é essencial numa editora como a Antígona, que vive de autores estrangeiros. Apesar dos nossos parcos recursos, pagamos aos nossos tradutores cerca de 20% mais do que geralmente se paga no mercado. Temos excelentes tradutores, alguns infelizmente mortos, como Luiza Neto Jorge, Manuel João Gomes, Ernesto Sampaio e Torcato Sepúlveda. Também pagamos aos tradutores uma percentagem determinada nas reedições de algumas obras. Concedemos ao tradutor a força de autor, colocando o seu nome na capa. Fomos, deste modo, os primeiros a reconhecer o real valor do tradutor, um exemplo que não tem sido seguido pela maioria das editoras, que desprezam estes grandes «carpinteiros» da escrita.

 

Rui Manuel Amaral foi coordenador literário da revista aguasfurtadas, é baterista da banda rock The Jills e é co-autor do blogue Dias felizes. Na Angelus Novus editou Caravana, uma das grandes revelações da literatura portuguesa recente.

P: O catálogo da Antígona é muito coerente e coeso. Mas há um detalhe que me parece curioso: o número de livros de autores portugueses é quase residual no catálogo da Antígona. Aposta muito pouco em autores nacionais. Não vejo mal nenhum nisso. Mas gostava de conhecer o motivo.

LO: Não há, em Portugal, uma tradição subversiva. São poucos os autores portugueses que poderiam entrar no catálogo da Antígona, e esses estão editados noutras editoras. Mas publicámos, entre outros, Graça Pina de Morais, uma das maiores autoras portuguesas do século XX. Quem tiver curiosidade nesta autora, comece por A Origem, a sua obra-prima, e depressa concluirá que assim é.

 

Eduardo Pitta é poeta, ficcionista, cronista e ensaísta. Na Angelus Novus editou Persona e Fractura. A Condição Homossexual na Literatura Portuguesa Contemporânea. Dinamiza o blogue Da Literatura.

P: 30 anos depois, na fase da globalização e da concentração do capital, é mais fácil ou mais difícil a um editor ser refractário?

LO: Não é mais fácil nem mais difícil; é uma atitude de defesa de valores universais, no plano da criação.

 

Luís Mourão é professor na Escola Superior de Educação de Viana do Castelo e ensaísta. Na Angelus Novus co-dirigiu Zentralpark. Revista de Teoria & Crítica e editou vários livros, o último dos quais Sei que já não, e todavia ainda. É autor do blogue Manchas.

P: Todo o Editor tem as suas paixões muito particulares, ainda que no caso da Antígona se pudesse dizer que todo o seu projecto constitui uma paixão muito particular. Dos cento e oitenta livros publicados, houve algum ou alguns que tenham sido para si uma paixão muito particular?

LO: A publicação, em 1997, de A Vida e Opiniões de Tristram Shandy, de Laurence Sterne, constituiu, para mim, uma paixão muito particular. Uma incomparável tradução de Manuel Portela, que obteve o Grande Prémio de Tradução, completou «o livro dos livros».

 

António Apolinário Lourenço é professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde dirige o Instituto de Estudos Espanhóis. É autor de vasta bibliografia sobre Fernando Pessoa, com destaque para uma edição anotada da Mensagem. Na Angelus Novus, dirige a Biblioteca Lusitana.

P: A Antígona parece ter um problema com Fernando Pessoa. Publicou apenas um livro do poeta, O Banqueiro Anarquista, em 1981, e por maus motivos, porque o acusava, numa nota introdutória, de ser fascista. A nota foi suprimida nas edições posteriores, mas a verdade é que, apesar da obra de Pessoa ter caído no domínio público, a Antígona não parece ter planos para novas publicações deste autor. É verdade?

LO: Publicámos em 1981 O Banqueiro Anarquista, de Fernando Pessoa, numa altura em que os direitos não estavam ainda no domínio público. Fomos ameaçados pelos proprietários da editora Ática, detentores dos direitos da obra de Pessoa. Desafiámos a legalidade numa atitude refractária e fizemos uma edição pirata, enquadrada por um polémico prefácio. Teremos vendido, em poucos meses, mais de 60 mil exemplares e nada nos aconteceu, isto é, não houve nenhum processo. A Ática, ou os herdeiros de Pessoa, nunca quiseram publicar O Banqueiro Anarquista, não se sabe porquê. Foi um belo momento de festa e o nosso interesse por Pessoa acabou aí.

 

Rui Bebiano é professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde ensina História Contemporânea. Autor de vasta bibliografia na sua área, editou na Angelus Novus Folhas Voláteis  e O Poder da Imaginação e tem no prelo Outubro. Dirige neste momento na editora uma colecção cujos primeiros títulos começarão a ser publicados no corrente ano. Pioneiro da net em Portugal, dinamiza actualmente o blogue A Terceira Noite.

P: Um livro de Gilles Lapouge sobre os piratas «e outros párias do mar» invoca de alguma forma aquela que pode ser uma das marcas do catálogo da Antígona: títulos, temas e autores que são, ou num certo tempo foram, excluídos, mas que nos são propostos com uma tal consistência e rigor editorial que parecem tomar posições para, nas relação com as estantes, definirem um cânone próprio. Por outras palavras: os títulos da Antígona são imprevisíveis, mas, ao olhar do leitor, o seu conjunto parece sempre coerente. Tem uma explicação para isto?

LO: A editora Antígona nasceu com uma ideia de subversão no seu interior e não necessitou de fazer mais nada. A coerência não é pensada; é vivida momento a momento, como consequência duma atitude, antes. A Antígona é assim porque é ela, porque sou eu – como diria Étienne de La Boétie.

 

Luís Quintais é antropólogo, no Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciência e Tecnologias da Universidade de Coimbra, poeta e ensaísta. Para a Angelus Novus prefaciou o volume Regras para o Parque Humano, de Peter Sloterdijk, e dirige actualmente uma colecção cujos primeiros volumes virão a público no corrente ano.

P: É toda a literatura que conta uma literatura de margens? O que é viver da literatura à margem?

LO: Não existe uma literatura à margem. O que existe são experiências de vida marginais, que se reflectem naturalmente na escrita. É o caso, entre outros, de Albert Cossery. Ele viveu na margem do sistema, teve uma vida incomparável: recusou o trabalho, o carro, o casamento, os cartões de crédito, etc. Os seus romances não contam histórias de amor, essas tretas; são livros plenos, sim, de amor.

 

Miguel Cardina é investigador-associado do Centro de Estudos Sociais, onde preara a sua tese de doutoramento sobre a extrema-esquerda em Portugal. Na Angelus Novus publicou A Tradição da Contestação e editará em breve um pequeno volume sobre a extrema-esquerda no Estado Novo.

P: No site da Antígona podemos ler: «As editoras não se definem apenas pelos autores que aceitam ou recusam, mas ainda pela maneira como os aceitam ou recusam.» Isso significa exactamente o quê?

LO: Por exemplo, se um autor nos envia um original falando da Virgem Maria, ou se um membro do Partido Comunista ou coisa melhor se nos dirige, a resposta é aterradora; pagam por esse engano. Mas, quando um autor nos interessa, por nos parecer estar do lado certo da História, a resposta é afectiva, mesmo na própria recusa. Não entra ninguém na Antígona que participe no espectáculo e falsificação da vida.

 

Pedro Serra é professor da Universidade de Salamanca. Na Angelus Novus foi co-director da revista Inimigo Rumor, fez edições de clássicos da literatura portuguesa e editou vários volumes de ensaios, o último dos quais Um Nome para isto. Leituras da Poesia de Ruy Belo.

P: Já se disse que estaríamos a viver uma idade de “incunabula electrónicos”. Aceitando com alguma ressalva o diagnóstico, gostaria de saber se a Antígona perspectiva “dar o salto” para o livro e acervo electrónicos, que alguns budas dos futuros consideram ser um destino hegemónico que chegará no prazo de uns 15 anos. Ou aqui também valeria a “refracção”, como naquele dito atribuído a Paul Celan: “Todo o poema é anti-computador, mesmo aquele que o computador escreve”.

LO: Não sei o que vai acontecer ao livro no futuro; terá muito a ver com a evolução das sociedades. Na Antígona, o salto não será para trás, porque penso que nada substituirá o livro enquanto objecto. O prazer de ler no sofá ou em cima de uma árvore, de o leitor se deter em certas passagens, de sublinhar esta ou aquela frase, não me parece substituível. Naturalmente, não nego o progresso, mas não alinho em modas ou necessidades de consumo. Decididamente, não serei um aliado do capitalismo…

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