Manuel Portela: «Antígona: 30 Anos»

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«com a língua de fora

Das muitas coisas que se podem fazer com a língua, passar vinte e cinco anos com a língua de fora é, sem dúvida, uma das menos aconselháveis. Não apenas por revelar obstinada contumácia em tão indecorosa postura, mas também por indiciar multi-resistência às agressões do ambiente sobre o órgão em causa. Resistência ao ar que seca a língua e aos micróbios que por ela transitam, e resistência ao olhar que quer ver a língua no seu lugar, isto é, dentro da boca. Definida pelo dicionário como “corpo carnudo, alongado, móvel, situado dentro da boca, que serve para a deglutição e a fala e que é o principal órgão do sentido do gosto”, a língua é uma das extensões do corpo humano para tocar a superfície do mundo e para partilhar esse toque na comunicação com outrem. Talvez por isso o linguado designe simultaneamente o toque das línguas e as línguas de papel que o tipógrafo compõe. É como se a página impressa beijasse o leitor com a membrana mucosa da escrita. Um cheiro a tinta que, se o não intoxica, o deixa a salivar. Os fluidos simbólicos sempre dependentes dos fluidos corporais e vice-versa.

A tactilidade da língua que o livro é ganha a partir daqui um segundo grau: pela lógica desta metáfora o livro seria então uma língua feita de língua, entendida neste caso através da acepção referida pelo dicionário como “idioma de uma nação”. Sendo assim, o que acontece quando os livros deitam a língua de fora? Duas coisas parecem acontecer. A primeira: o livro estar cansado da correria que o conduziu por mero acaso às mãos do leitor ou da leitora e, nesse respirar ofegante, lançar-lhe um último repto mostrando-lhe a lepidóptera extremidade como quem lhe piscasse o olho. Uma língua malcriada, mas em plena sedução. A segunda: o leitor ou a leitora perceberem que o livro traz na ponta da língua aquilo que neles parecia estar condenado a permanecer para sempre debaixo da língua. A sua língua muda perfurada pelo piercing da eloquência. É neste duplo acontecimento, neste circuito que liga a inquietação do leitor e a inquietação do texto, que o ex-libris da língua de fora completa a operação simbólica que consiste em ligar a caraça a um corpo de textos.» MP, 6 de Outubro de 2004

Neste textículo (escrito por ocasião dos 25 anos da Antígona em 2004) simbolizei no logótipo da editora o duplo movimento de circulação vital que parece fazer a economia particular dos seus livros. De um lado, a produção que os constitui enquanto corpo de signos capaz de materializar um modo de convocar o mundo. Do outro, o desejo de ler como forma de construir nos signos mais hipóteses de mundo. Convocar o mundo como hipótese de mundo tem sido, no catálogo da Antígona, conhecer o pensamento crítico libertário para tentar pensar o presente e a nossa condição histórica particular. Este projecto de pensamento político do real faz-se através de um corpo de textos que revela, a cada nova instanciação, o poder do livro como máquina para pensar. Essa é a principal característica da editora: tornar singular cada título, como se cada novo livro pudesse inaugurar o dispositivo bibliográfico. Talvez a atenção excessiva que ao longo dos anos dediquei aos seus livros ajude a explicar a renovação daquele encontro primordial com que um livro às vezes nos abre a cabeça. Mas também nos livros a regra do amor se aplica: o objecto tem de ser construído pelo sujeito.

Há certamente muitos factores aleatórios, internos e externos à actividade do próprio editor, que ao longo dos anos condicionaram a escolha dos títulos. O projecto que hoje se lê retrospectivamente talvez resulte mais da projecção da perspectiva de um determinado conjunto de títulos sobre os restantes do que de um único programa ou de uma única intencionalidade. Pode até dizer-se que algumas obras ganham outra dimensão de leitura justamente por estarem no catálogo da Antígona, como se a própria colecção ajudasse a comprovar a persistência de uma certa função para o livro. Quando se olha retrospectivamente para o catálogo, constata-se a associação improvável de um conjunto de textos extraordinários e, muitas vezes, difíceis. Na voracidade e na velocidade actual do universo da edição, espanta que a esta economia simbólica do seu projecto do livro como crítica e celebração do mundo tenha podido corresponder um corpo de leitores capazes de defender esta forma singular do direito de leitura. Ou, para citar um dos seus slogans antigos, este modo obstinado de cultivar a inteligência.

É a capacidade que o livro tem de fazer crescer, através dos fluxos de sentido que ligam a pessoa que lê ao corpo de signos que a página materializa, que desde cedo me prendeu aos títulos da Antígona. Cada novo livro parecia capaz de repetir o sortilégio: abrir um ponto de vista que era preciso conhecer para se conseguir pensar um pouco mais ou um pouco melhor. Aquilo que parece manter-se na sua actividade enquanto pequena editora é uma escala de produção que permite dedicar a cada título um grau de atenção individualizado, visível em algumas das práticas de trabalho na edição, na tradução, no desenho gráfico, na composição e na revisão de textos. O investimento criativo das pessoas envolvidas em cada um destes momentos de produção tem sido, em geral, muito elevado. Parece haver nelas, e nas circunstâncias que as associam temporariamente em torno de certos textos, algo da crença no valor intrínseco da criação de um livro como acto de construção da liberdade humana que toma forma no próprio objecto. E no desejo de partilha que ele simboliza ao entrar no mercado das transacções humanas. Não me lembro de quando li nem de quando comprei o primeiro livro da Antígona. Aos poucos, o ciclo infinito da leitura abriu para mim outros papéis: leitor, leitor-tradutor, leitor-escritor, leitor-compositor, leitor-leitor. De nenhuma editora posso dizer como posso dizer da Antígona: continuo a ler todos os seus livros.

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