Isabel Cristina Rodrigues: entrevista (II)

A sua bibliografia é muito centrada na obra de Vergílio Ferreira. Porquê?

Quando o Para Sempre foi publicado, eu tinha 16 anos e nunca tinha ouvido falar de Vergílio Ferreira, ou pelo menos não me lembro, mas um dia, mais ou menos por essa altura, o meu pai (grande leitor, tal como a minha mãe) disse-me que havia um livro que tinha lá dentro tudo aquilo de que eu tanto gostava nas grandes tardes de Verão da Serra da Estrela, a que a minha família está ligada por vínculos muito próximos. Eu gostava muito de olhar a serra ao entardecer, daquele silêncio e daquele calor e foi quase como uma revelação o momento do meu encontro com aquele romance, assim mesmo dividido entre as páginas do livro e a paisagem em frente da janela. Entrei no universo do autor pela porta do Para Sempre e a verdade é que nunca mais me apeteceu sair, isto sem desprimor algum para outras portas e outras tantas janelas, longe já do horizonte vergiliano, que entretanto se me abriram. Muito mais tarde, quando se tratou de procurar um tema para a minha tese de mestrado, foi mais ou menos óbvio que iria trabalhar sobre Vergílio Ferreira. Assim foi e assim tem sido, inclusivé na minha tese de doutoramento, igualmente dedicada à análise da sua obra.

Como vê o lugar de Vergílio Ferreira na literatura portuguesa moderna? O tipo de romance que ele praticava, ensaístico, filosófico, questionador, não tem grande tradição entre nós, antes ou depois dele, pois não?

Pois não, creio que não, mas não me parece que isso tenha muita importância ou que possa ser olhado assim de forma tão simplista. É por demais conhecida a ligação de Vergílio Ferreira ao romance existencialista francês e, nesse registo, ele de facto nunca teve muita companhia entre nós, mas o tipo de romance que escreveu não se esgota aí: o Joyce, o Kafka e o Pessoa foram presenças importantes no seu romance e, por essa via, a família do Vergílio Ferreira ganha alguns outros irmãos e outros tantos primos – por exemplo o Lobo Antunes, de que ele infelizmente tão pouco gostava, o Abelaira, o Rui Nunes…

Vê, no nosso panorama actual, algum/a descendente do tipo de literatura que Vergílio Ferreira fazia?

Causa-me sempre algum incómodo este tipo de generalizações, normalmente injustas para os escritores que vêm depois e que legitimamente recusam para si próprios a designação de «epígonos de» ou de «o novo fulano de tal». Vergílio Ferreira não tem epígonos, ao contrário do que acontece com um ou outro escritor das últimas décadas, e creio que há várias razões para isso, mas dito isto, acho que o autor se sentiria bem acompanhado tanto pela Gabriela Llansol como pela Ana Teresa Pereira, o que é, aliás, mais ou menos consensual.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: