Rui Bebiano: entrevista (I)

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Rui Bebiano edita, com Outubro, o seu terceiro livro na Angelus Novus, dirigindo neste momento na editora uma colecção cujos primeiros volumes serão publicados ainda no corrente ano.

Outubro, publicado inicialmente no seu blogue A Terceira Noite (situação que já ocorrera com a sua colectânea de cibercrónicas Folhas Voláteis), é mais um episódio da sua dedicação aos novos meios, mas também, ou sobretudo, a uma versão pessoal do papel do historiador como alguém preocupado com a difusão do seu trabalho e discurso no espaço público.

Como se impunha, fomos ouvir Rui Bebiano sobre esta sua mais recente obra. Publicamos aqui a primeira parte dessa conversa.

 

P. Sendo reconhecidamente necessário, e mesmo indispensável, superar as perspectivas acríticas da revolução de Outubro, será contudo possível superar a mitologia em torno do evento? A carga mitológica da data parece resistir a quase tudo, ou não?

R. Outubro permanece como instante simbólico, distante e próximo ao mesmo tempo, fundador de um tempo longo do qual ainda participamos. Dele não se emanciparam ainda os defensores da grande ilusão comunista, continuando a projectar a partir do seu exemplo a materialidade das suas expectativas, ou os que vêem na sobrevivência do modelo leninista uma ameaça à vida democrática. Mas permanece também como elemento activo, com o qual é impossível não dialogar na edificação dos imaginários emancipatórios. É ainda uma presença recorrente nas preocupações dos que procuram interpelar criticamente o mundo contemporâneo e os caminhos da memória colectiva.

P. É correcto fazer a revolução de Outubro pagar pelo que se seguiu? Ou seja, o estalinismo e o seu cortejo de horrores? Estava isso já in nuce na revolução ou, como é costume dizer-se, a sua pureza e as suas promessas foram atraiçoadas?

R. São inúmeros os testemunhos de actores e simpatizantes da revolução de 1917 que nela viram a materialização do seu projecto de um mundo mais justo, mais livre e mais exaltante. Pelo qual valeria a pena combater, mesmo com sacrifício pessoal. Uma boa parte acabaria trucidada pela dimensão burocrática e imperativamente brutal que o leninismo impôs. A verdade é que o estalinismo apenas levou mais longe os instrumentos – vocacionados para a imposição do pensamento único e a repressão sem quartel da discordância – que Lenine previra já. Mas a crença numa possibilidade histórica redentora permaneceu durante e após a materialização da perversão estalinista. Foi mesmo ela que levou milhões de comunistas a aceitarem a violência sobre muitos dos seus, a isolá-los como pestíferos, tal como foi ela que levou alguns dos silenciados a considerarem os seus destinos como casos excepcionais, erros lamentáveis de um sistema basicamente justo. Alguns dos sobreviventes do Gulag deixaram-nos o testemunho dessa esperança maior, situada para além da injustiça e da sordidez que experimentaram.

P. Uma outra forma de pegar ainda na questão: é possível encarar sem qualquer ilusão a revolução de Outubro e continuar no entanto a defender, mesmo que no íntimo, que «há sempre um Palácio de Inverno a tomar»? Ou seja, podemos ainda acreditar na Revolução, apesar da degeneração que tão cedo se apodera das revoluções? Podíamos pensar, mais recentemente, na revolução cubana, na khomeinista, ou até na «chavista».

R. Para além da transitoriedade e da decrepitude dos modelos, existe um ideal de revolução que persiste como arquitectura do possível, vislumbre de uma possibilidade que nos pode levar a agir e a combater pela mudança, por uma alteração radical da ordem do mundo. Sob esta perspectiva, o Palácio de Inverno do qual falo ergue-se fora da sua dimensão temporal e material. Funciona como metáfora de um transe e de uma passagem, como sinal de esperança – no sentido dinâmico que lhe foi atribuído por Bloch –, rumo a um lugar-outro e a uma experiência de renovação sem o qual é fácil cair nas malhas do puro realismo político e, com ele, do pessimismo mais absoluto. Neste livro procurei também dialogar um pouco com essa dimensão necessariamente utópica.

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