A edição portuguesa depois do acordo ortográfico: réplica a Francisco Vale

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Antes de mais, saúde-se o novo blogue da Relógio d’Água, editora que vem construindo um dos mais impressionantes catálogos do mundo editorial português. Depois, saúde-se o facto de Francisco Vale, ao que tudo indica, estar a usar o blogue como espaço de opinião (sobre a questão da tradução entre nós, por exemplo, ler-se-á com proveito o post Tradutores literários, precisam-se). Dado que esses espaços, no mundo da nossa edição, são muito raros – os blogues ou meios de comunicação das editoras são, na sua esmagadora maioria, ocupados com a (indispensável) promoção das novidades e, em menor grau, dos fundos de catálogo -, que um editor de relevo se disponha a essa prática, é algo que tem de se saudar, desejando que o faça a partir de agora com regularidade.

Permito-me, por agora, fazer um comentário discordante ao seu post Keynes, Freud, o Brasil e o Acordo Ortográfico. O texto deixa claro, uma vez mais, que aquilo que esteve e está em causa na polémica do acordo ortográfico, «do lado de cá», quase nunca foi ou é uma questão realmente ortográfica. Talvez, muito latamente considerada, uma questão de «política de língua», expressão suficientemente ambígua para dar mais espaço à política (e àquilo que não pode deixar de andar sempre de braço dado à política: os negócios, neste caso estrangeiros) do que à língua. Basta, para o constatar, ler o primeiro parágrafo:

O crescente poder negocial dos editores brasileiros e a aplicação do Acordo Ortográfico vão acentuar as graves distorções na publicação de livros em Portugal.

O que está de facto em causa é o que vem antes do «e»: «O crescente poder negocial dos editores brasileiros». Esse poder negocial que faz com que cada vez mais os editores brasileiros cheguem primeiro aos direitos de obras para todo o espaço do português – Brasil, África e Europa – e não apenas para o Brasil, como quase sempre sucedia até agora. E que o façam porque a normalização ortográfica lhes alarga significativamente o mercado potencial.

A questão é, pois, de mercado. Francisco Vale refere, como argumento contra a substituição de edições lusas, em Portugal, pelas brasileiras, a sintaxe discordante, que nenhum acordo ortográfico permite harmonizar, e ainda a questão da terminologia científica divergente. Note-se que nenhuma destas questões é, em rigor, ortográfica; apenas o é a das soluções alternativas, em que o acordo foi demasiado generoso, criando nalguns casos problemas onde os não havia, mas sem que isso seja suficiente para pôr em causa a legibilidade de um texto.

É aqui, aliás, que Keynes e Freud parecem trocar de posições na economia dançante que o título do post propõe (depressa percebemos, contudo, que se trata de uma ilusão de óptica, e ainda bem). Porque é quase sempre flagrante, nas posições dos portugueses contra o acordo, que a questão é largamente freudiana e passa pelo trauma do parricídio que o acordo, «fabricado» e mal-intencionado pelo «filho» brasileiro, cometeria sobre nós. Ressalve-se, desde já, duas coisas, a bem de uma complexificação do quadro em análise: (i) há muitos brasileiros que não se revêem no acordo; (ii) há muitos portugueses que lhe são favoráveis. Era bom, porém, que a discussão sobre o acordo, entre nós, dispensasse equívocos como o daquela «graça» reveladora de Saramago há anos no Brasil, contestando em sessão pública um brasileiro que falava do sotaque dele, Saramago: «A língua é minha, o sotaque é seu!», exclamou o nosso Nobel, para gáudio da sala e dos média. A língua, como é óbvio, é tanto nossa como dos brasileiros, dos africanos e dos timorenses, se acaso estes tiverem vontade efectiva de a falar; e «sotaque» não marca aqui nada mais do que realizações diversamente diferentes do português, sem qualquer carga ontológico-política.

Devo dizer que o que me agrada nos argumentos dos editores contra o acordo é que é neles sempre muito claro que o fundamento das suas posições é apenas e só económico, ainda que por vezes recorra aos altos serviços retóricos de expressões como «política de língua», «identidade nacional», etc. Ao menos, com os editores não se perde tempo em considerações mais ou menos psicanalíticas sobre pais e donos da língua. A diferença é que a maioria dos editores que se pronunciam se mostra preocupada com o dinheiro que perderão na substituição de manuais escolares, dicionários, etc. (os mais ligados ao mercado escolar), enquanto Francisco Vale, cuja editora pouco tem a ver com esse mercado, mas muito com os direitos de edição da grande literatura e ensaio estrangeiros, fala antes das implicações de um mercado da língua portuguesa dominado por editores brasileiros.

A questão é indiscutivelmente séria e, à sua escala, a Angelus Novus ainda recentemente se apercebeu dela. Mas quais seriam as alternativas? Sendo a desproporção de grandezas entre Portugal e Brasil aquilo que é, o que tem permitido que as editoras brasileiras não usem e abusem do que deveria ser o seu peso natural tem sido, tão-só, o atraso económico brasileiro, que, associado ao estatuto europeu recente de Portugal, permitiu ir disfarçando as coisas. Agora que, com a democracia e o governo esclarecido de dois bons presidentes, o Brasil se prepara enfim para ser, sem a mordaz ironia de Stefan Zweig, um grande país, o desequilíbrio entre as editoras portuguesas e as brasileiras tenderá a acentuar-se. Aliás, em coisas essenciais – qualidade dos catálogos, ratio quantidade-qualidade, qualidade material da edição, etc. – ele só tem crescido nos últimos anos.

Ou seja: o menos culpado de tudo isto é o acordo ortográfico. Sem ele, o peso das editoras brasileiras existiria na mesma de forma crescente, como também o peso do Brasil na cena internacional. Não nos afectaria? Talvez, se decidíssemos dar tradução política ao sketch de Saramago, declarando o português de lá sotaque do de cá, e curando de afastar, em vez de aproximar, as duas variantes no plano ortográfico. Nesta óptica, a recuperação do ph ou do y (tão caros ambos a Pessoa) poderia ainda ajudar a reforçar o corte… Mas seria essa uma opção séria, ou tratar-se-ia apenas de um caso de transfert, aliás tão óbvio que dispensaria os serviços de qualquer Freud? Um transfert proteccionista, note-se, à boleia da ortografia, e estribado numa versão pós-salazarista do «orgulhosamente sós».

É por isso que, se me parece que Francisco Vale coloca mal a questão, atribuindo ao acordo ortográfico aquilo que lhe não é imputável, parece-me todavia que conclui muito bem: a única solução é entrar na lógica de mercado que o acordo ratificou e que não é nem mais nem menos que a da globalização. Se os editores portugueses querem ir à luta, então têm ou de se associar ou de se instalar no Brasil (confesso que acredito mais na segunda hipótese do que na primeira…). O resto, com franqueza, são lamúrias (que não atribuo a Vale) de quem gostava que, para o essencial, o nicho ecológico da «aldeia portuguesa» ainda funcionasse. O que é muito contraditório com o facto de que na aldeia portuguesa de antigamente poucos eram os que sabiam ler… E menos ainda os que tinham dinheiro para comprar livros.

Osvaldo Manuel Silvestre

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11 Respostas

  1. E por ser só problema dos editores vamos ter que ler livros irritantes por não estarem escritos do mesmo modo que falamos, com o você em todo o lado em vez de tu, nos vemos em vez de vemo-nos, etc, só para bem político.
    Quem perde no meio disto tudo é mas é o leitor que vai ter que passar a comprar livros ingleses pela amazon para não ter que se irritar a ler.

    E os brasileiros que vivem no Brasil falam sempre muito do nosso sotaque, não percebendo que a lingua é originária de cá e que realmente eles é que têm sotaque, tal como os da Madeira têm, os do Porto têm… e estas regiões aceitam-no e gostam dele porque caracteriza-os; o que é que o Brasil tem que não percebe que realmente o sotaque é da zona porque a lingua não vem de lá? Só têm é que o valorizar em vez de dizer que é nosso o sotaque, porque é o resultado de da cultura e história do país ao separar-se de Portugal.

    • Só uma coisa… A língua portuguesa é originária do Norte de Portugal, logo os nortenhos não têm sotaque, têm sim os lisboetas ;)

      • Os Lisboetas têm sotaque sim, mas costuma-se dizer que quem fala melhor são os de Coimbra devido ao seu passado universitário, dai ter referido o sotaque do Porto.
        Mas sim, a nossa lingua foi salva pelos reis cristãos que se refugiaram nas Asturias e foram descendo à medida que conquistavam os mouros, dai evoluiu para o português. Qual é o sotaque mais certo, não sei. Mas, em caso de dúvida, tomo o de Coimbra como o mais acertado.

  2. Para uma cultura autoritária, de fato, é muito irritante ter que se confrontar com o outro; ademais, as políticas fascistas sempre necessitam de cultos identitários que demonizam o diferente. A esse respeito, o Brasil parece ter mais abertura. Comprova-o o caso de José Saramago (mesmo com sua postura linguisticamente arrogante, da ilusão dos portugueses de serem donos da língua): seus livros sempre foram publicados no Brasil de acordo com o português de Portugal. Foi no Brasil que ele se tornou um sucesso de vendas – e de crítica – inclusive no tocante ao Evangelho segundo Jesus Cristo, livro que gerou algumas reações curiosas em Portugal. O futuro do Português depende do Brasil, é evidente. O passado, também. Basta ver que os versos de Os Lusíadas somente são decassílabos se falados por um brasileiro. Jamais por um português, em razão das curiosas derivações que a língua sofreu em Portugal, com o engolir de vogais costumeiramente praticado pelos falantes europeus do idioma. Nesse sentido, Camões hoje é um poeta brasileiro, e a mistificação das origens, necessária para aqueles cultos identitários tão presentes no senso comum português (de que a mensagem acima é um exemplar inequívoco), revela-se ainda mais inconsistente.
    Como brasileiro, ademais, jamais cometi a asneira de falar em um “sotaque” português: há diferenças enormes nos falares em Portugal; tolo também seria pensar em um “sotaque” brasileiro – a própria geografia continental brasileira impediria que todos falassem da mesma forma. Há até quem ignore, o que é de lastimar, que no Norte e no Sul do Brasil é empregado costumeiramente o “tu”. Sobre uma ignorância dessa magnitude, é difícil fundar uma discussão séria. Felizmente, essas diferenças demonstram a riqueza do idioma português, apesar da estreiteza de alguns de seus falantes. Uma discussão que deveria ter sido travado pelos representantes políticos dos países lusófonos era justamente a de preservação dessa riqueza. Porém, como Osvaldo Silvestre bem assinala, o mercado é a única preocupação reinante.

    • O tu é usado no Brasil sim senhor, mas sem o verbo correcto (como por exemplo: tu já viu), como já tive a confirmação de vários brasileiros. No entanto, dei o exemplo dentro do contexto da leitura que é o resultado do acordo ortográfico quando entrarem os livros de editoras brasileiras em substituição das nossas: eu vou ter dificuldade em acostumar-me a ler livros que não estão escritos em Português de Portugal e, como eu, conheço muita gente na mesma situação.
      Não se trata de valores fascistas nem nada parecido, até lhe posso dizer que as minhas ideias enquadram-se na esquerda apesar de não ter partido político.
      Entendo que para um brasileiro seja um pouco mais difícil de entender o problema do acordo ortográfico para nós, o problema é que este não acompanhou a evolução da linguagem e, pelo contrário, pode criar erros (como intersepção e intersecção passarem a escrever-se as duas do mesmo modo e outras palavras que por terem o p e o c atrás ficam com a vogal aberta).
      É também de notar a influência que os italianos tiveram na lingua brasileira, tornando a lingua mais musical e com vogais mais abertas. Tudo isto contribuiu para a diferença que há hoje entre as duas formas de português. Porquê tentar fazer com que a lingua se junte de novo de uma forma errada, quando o mais provável é que tome rumos diferentes como aconteceu com o latim ao longo dos séculos?
      Falei também da referência ao sotaque português porque já me aconteceu realmente vários brasileiros que não vivem cá me falarem do meu sotaque, quando a lingua no Brasil teve outra evolução à parte de Portugal, o seu país de origem. E, como o Português do Brasil não é considerado ainda dialecto, têm realmente um sotaque próprio (mesmo os que dizem tu em vez do você: nota-se logo que são do Brasil quando comparado com os sotaques de Portugal).
      Eu sou simplesmente uma ávida leitora que gosta de estar informada, não sou especialista no assunto. Não quero ofender ninguem nem nada parecido, só estou completamente contra este acordo e vim só dar a minha humilde opinião, sem lugar para desavenças.

      Obrigada

      • Entendo… Mas o uso do “tu” é muito variado no Brasil: “tu já viu” é algo que muitos gaúchos dizem. No Pará, por exemplo, fala-se “tu já viste”.
        Mas não creio que os livros brasileiros substituirão os portugueses – nenhum autor brasileiro vai responder, por exemplo, às demandas que Lobo Antunes desperta.

      • Mesmo no Rio Grande do Sul, como comentado por Pádua Fernandes, o uso do “tu” é variado. Em Porto Alegre “tu já viu”, mas em Pelotas, “tu já visse”, uma pronúncia corrompida do “viste”.

  3. mmm… estava só aqui a pensar… será que se eu pedir uma caipirinha num bar português ou um cálice de vinho do Porto num bar brasileiro me entendem? Espero que sim!

  4. Acordo Ortográfico? Pra quê? Estamos muito bem assim, é bom que as versões do Brasil e de Portugal se afastem logo, chega de viver essa mentira chamada lusofonia. Ou seria lusografia? Que o Brasil promova seu idioma e Portugal continue com a promoção do seu. Vamos ver qual das duas línguas obtem mais sucesso no aumento do número de falantes. Não esquecendo que o prestigio de um idioma se deve sempre ao poder político e econômico do país que o fala.

  5. «Os versos de ‘Os Lusíadas’ somente são decassílabos se falados por um brasileiro.»
    Leve lá o prémio Camões, homem!…
    Cumpts.

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