Menina e Moça: «O prazer da leitura»

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Da Biblioteca Lusitana, colecção de clássicos da literatura portuguesa, com texto fixado e anotado pelos melhores especialistas, saíram até ao momento dois volumes: Mensagem, de Fernando Pessoa, em edição de António Apolinário Lourenço, também coordenador da colecção; e Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro, por Juan M. Carrasco González, reconhecidamente um dos grandes especialistas na obra, professor na Universidade da Estremadura, em Cáceres. Ainda no corrente ano virá a lume o terceiro volume da colecção, O Soldado Prático, de Diogo do Couto, em edição de Ana María García Martín, da Universidade de Salamanca, já co-responsável pela edição crítica de O Hissope na Angelus Novus.

Acaba de ser editado, em Limite. Revista de Estudios Portugueses e da Lusofonía (Universidad de Extremadura), vol. 2, 2008, pp. 275-277, uma recensão da obra, da autoria de Teresa Araújo, da Universidade Nova de Lisboa. Reproduzimo-la aqui, com a devida vénia.

Uma das obras quinhentistas portuguesas que mais interrogações tem suscitado ao longo dos tempos acaba de (re)aparecer pela mão de um dos seus mais profícuos especialistas. Surge impressa, pela primeira vez, segundo a lição integral do manuscrito conservado na Biblioteca Nacional de Lisboa, sobre o qual Eugenio Asensio chamou a devida atenção há cerca de cinco décadas.

A publicação reflecte, a todo o momento, a longa investigação dos testemunhos do texto, bem como a problematização das várias aproximações à obra que desenvolveram teses de interpretação e de genologia, e traduz rigorosas opções editoriais, bem como uma análise aprofundada da composição de Bernardim. Não pretendendo ser uma edição crítica (de acordo com os princípios da própria colecção em que se integra), recorre ao subsídio dos outros documentos epocais (do manuscrito depositado na Real Academia de la Historia de Madrid e das edições de Ferrara e de Évora, de 1554 e 1557, respectivamente; a de Colónia, de 1559, reproduz fielmente a última) quando a fonte mais antiga apresenta problemas de compreensão — assinalando e justificando a utilização desses contributos, quer no corpo do texto, quer no das notas. Oferece, em separado, os capítulos da Segunda Parte da impressão eborense à qual o editor dedicou estudos que o levaram a considerar esse apartado como «o que ficou de uma primeira versão da obra escrita por Bernardim» (p. 50). Inclui um significativo manancial de notas que, sem sobrecarregar excessivamente as páginas, esclarece problemas linguísticos, literários e culturais colocados pelo manuscrito. Apensa, depois da reedição da parte do impresso de Évora, um “Glossário de Palavras Antigas e Formas Divergentes Obsoletas” que, face à decisão editorial de conservar os traços antigos da língua, colmata as necessidades interpretativas do leitor do século XX menos familiarizado com o idioma quinhentista. Abre e encerra com dois estudos que apresentam, respectivamente, uma perspectiva crítica da obra e uma contextualização epocal do autor. No caso da “Introdução”, desenvolve uma problematização das várias contribuições ao nível da hermenêutica do texto (elaboradas a partir do “Prólogo” do sobrinho-neto do autor à edição de 1645), da identificação do género, bem como da estrutura da obra, salientando algumas perspectivas de abordagem menos exploradas — nomeadamente, a do aprofundamento da intenção autoral de construção do «seu próprio objecto amoroso idealizado segundo os preceitos do dolce stil nuovo» (p. 13) e da «dupla significação das personagens dentro da sua representação anagramática» (p. 14) – e formulando a tese do seu carácter eminentemente bucólico e inovador na Península, sobretudo através da influência que suscitou em Jorge de Montemor. Este estudo preambular termina com uma “Bibliografia Selectiva” — e comentada — que constitui um precioso guia para o conhecimento dos manuscritos, das edições e da bibliografia crítica fundamental. No caso da “Cronologia”, articula os escassos dados biográficos de Bernardim coligidos em testemunhos coevos e posteriores com sucessos do panorama cultural português e europeu da época, nomeadamente com o aparecimento de obras de referência.

Proporciona, esta edição, o prazer da leitura do texto na língua escrita de Bernardim — modernizada, contudo, ao nível da pontuação e da grafia, sempre que esta não representa «uma diferença linguística» (p. 56) —, bem como a sua revisitação enquadrada por uma boa síntese crítica e um útil aparato de notas explicativas.

Teresa Araújo
Universidade Nova de Lisboa

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