«Contra Salazar» no «Diário de Pernambuco»

salazarg

Um dos eventos editoriais do ano de 2008 foi, sem dúvida, a edição de Contra Salazar, volume em que António Apolinário Lourenço reuniu todos os textos de Fernando Pessoa contra o ditador. O livro teve excelente acolhimento de público e crítica, quer nos blogues, quer na imprensa, sobretudo – coisa curiosa ou talvez não – no estrangeiro (destaque-se a excelente resenha da obra por Burghard Baltrusch na Protexta, importante revista literária digital galega).

No Brasil, mais propriamente no Diário de Pernambuco, Marco-Aurélio de Alcântara publicou também uma boa resenha da obra – informada e séria -, que agora recuperamos. Apesar do tempo transcorrido desde a publicação da resenha, que data de 4 de Dezembro de 2008, cremos que a sua publicação neste blogue se justifica inteiramente. Talvez assim certos espíritos, que formaram sobre «o Fernando Pessoa político» uma opinião baseada no preconceito e no desconhecimento, que por longo tempo prevaleceu, de textos fundamentais do autor, só tardiamente dados à luz, possam perceber os dados básicos da questão. Eis o texto de Marco-Aurélio de Alcântara, que reproduzimos com a devida vénia (e com o respeito pela norma brasileira que faz de António Apolinário Antônio Apolinário, sem que contudo um se possa dizer heterónimo do outro…):

 

Antônio Apolinário Lourenço organizou para a Angelus Novus, editora de Coimbra, uma coletânea de escritos de Fernando Pessoa (Poesia e Prosa) contra Salazar, que se conheciam, mas estavam dispersos, inclusive as cartas a Adolfo Casais Monteiro, Marques Matias e ao presidente da República de Portugal. O livro, segundo o “pessoano” colofão, com uma tiragem pequena, de 1500 exemplares, mas muito bem produzido (ou “construído”, diria Emanoel Araújo), foi editado a 3 de setembro de 2008, “1 mês e 40 anos após Salazar ter sido derrubado do poder por uma cadeira”, diz o editor. Mais ainda: a data assinala os 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa.

Para o poeta de Mensagem, uma nação é um teatro; e um governo, um palco. Ninguém comanda a alma de um povo – continua – se não tiver nascido, ou se não se fizer ator. “É essa a razão do prestígio orgânico da Monarquia: o rei nasce no palco e é educado, desde a infância, para estar e representar nele”.

Combatendo a União Nacional e o regime de Partido Único, Fernando Pessoa investia contra os projetos da nova ordem, do Estado Novo, que envelhecia à medida que o residente do Conselho avançava na idade. Dizia o poeta: “Uma doutrina pode ter uma força. Uma força não pode ter uma doutrina. O Executivo pode suspender o Legislativo; mas não pode substituí-lo ou substituir-se-lhe”.

O fato de Salazar ser um contabilista no governo irritava Fernando Pessoa, que também o foi. A profissão é absolutamente necessária e digna. Não é, porém, profissão que tenha directivas implícitas (de comando do estado). “Um país tem que governar-se com contabilidade, não pode governar-se por contabilidade”. Isso levava ao exagero de dizer que Salazar era inhumano, não deshumano. Não lhe interessava a gente enquanto gente, mas enquanto estatística. O economista se sobrepunha ao estadista.

Mas é na poesia satírica que Fernando Pessoa destila todo o seu fel contra o ditador: “Antônio de Oliveira Salazar./ Três nomes em sequência regular…/Antônio é Antônio./ Oliveira é uma árvore./ Salazar é só apelido./ Até aí tudo bem/ o que não faz sentido / É o sentido que tudo isto tem”. (1935).

Ainda em 1935, torna a criticar o presidente do conselho, dizendo que o seu nome era feito de “sal” e “azar”. E, se um dia chove, a água dissolve o sal. A verdade é que os intelectuais detestavam o ditador, que tinha, porém, uma corte de apaniguados, subsidiados pelo antigo Secretariado Nacional da Informação, o DIP Varguista de lá. O melhor da inteligência portuguesa da época Salazarista ou estava na Diáspora ou ficava no seu canto, calada, tramando nos cafés de Lisboa e Porto e tentando atrair os militares, o que acabou por se concretizar na candidatura de Humberto Delgado, no episódio do “Santa Maria” tomado por Henrique Galvão e na revolta dos centuriões do “25 de abril”. A História não esquece os dois: nem a Salazar – cuja memória permanece – nem a Fernando Pessoa, imperecível como poeta.

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