Gonçalo Duarte: entrevista

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Gonçalo Duarte é actualmente leitor de Português na Bélgica, mais exactamente nas universidades Livre de Bruxelas e Católica de Lovaina. Publicou na Angelus Novus, no final do ano passado, o livro O Trágico em Graciliano Ramos e em Carlos de Oliveira. Uma Leitura apoiada nos Romances São Bernardo e Casa na Duna. Ouvimo-lo sobre o seu livro, em entrevista que aqui publicamos.

 

P. Pode descrever brevemente o seu propósito com este livro? 

R. O livro surge a partir da influência que o romance São Bernardo exerceu na composição (e na recomposição) de Casa na Duna, mas pretende também aproximar Graciliano Ramos e Carlos de Oliveira para lá desses dois romances, reflectindo sobre aspectos que implicam o conjunto das suas obras e estabelecendo nexos entre os percursos dos dois autores. O estudo da presença do elemento trágico nos dois romances serve esse propósito, porquanto é sintoma de uma crise comum dos ideais neo-realistas perfilhados por ambos os escritores e prenúncio da falência das grandes narrativas.

P. O que é que o atrai na obra de Graciliano Ramos e na de Carlos de Oliveira?

R. O meu primeiro contacto com Carlos de Oliveira deu-se no ensino secundário; interessou-me, então, no poeta como no romancista, uma linguagem exacta e depurada, alheia à retórica que caracteriza grande parte da literatura portuguesa do século XX. Quando li Graciliano Ramos, já na universidade, notei uma grande proximidade entre o seu estilo e o de Carlos de Oliveira. Surpreendeu-me, para além disso, o trabalho de construção de São Bernardo que, vim mais tarde a compreendê-lo, influenciou a obra romanesca do autor português – esse romance parece-me um bom exemplo da noção da escrita como labor, comum a ambos os autores. A essa afinidade estética e de concepção da essência do trabalho literário acresce o curioso facto de ambos se integrarem no movimento neo-realista, retórico por excelência, e de nas suas obras haver uma ultrapassagem não declarada mas evidente desse movimento (ainda que na obra de Carlos de Oliveira esse processo alcance um ponto superior e mesmo irreversível).

P. A recepção do ensaio literário caracteriza-se hoje pela resistência das livrarias e pelo silêncio dos média. Neste contexto, o que é para si uma «boa recepção» do seu livro?

R. Ficaria já muito satisfeito se o livro estivesse ao alcance de quem deseja estudar a obra de Graciliano Ramos e de Carlos de Oliveira, isto é, se se encontrasse facilmente nas bibliotecas e nas universidades portuguesas e brasileiras, bem como em outras universidades em que se estuda literatura portuguesa e brasileira. Penso que a presença certa do ensaio literário nessas instituições é desde logo um passo importante no sentido de uma maior presença no mercado de distribuição e nos meios de comunicação.

P. É leitor de português em universidades na Bélgica, depois de ter leccionado em Itália (Nápoles) e França (Paris), e tem abordado essa experiência no blogue O Português não tá cansado. O texto literário tem um lugar no ensino do português a estrangeiros? 

R. Sem dúvida. Tenho, aliás, utilizado de forma muito proveitosa nas minhas aulas o texto literário como suporte para desenvolver as capacidades de expressão linguística e de reflexão em língua portuguesa. O texto literário permite ainda uma compreensão mais ampla e uma apropriação mais ágil dos usos da língua. Não direi que o uso de textos literários é pertinente como primeiro contacto com uma língua estrangeira mas diria que é impossível um profundo domínio de qualquer língua sem o contacto com a literatura que nessa língua foi e é produzida.

P. Que autor pensa estudar a seguir?

R. Trabalho neste momento precisamente na utilização do texto literário como suporte para o estudo da língua portuguesa por estrangeiros, partindo de textos breves de diversos autores lusófonos.

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