«O Homem Livre» no Ipsilon: 5 estrelas

hugo

Tardiamente, em relação à data de edição do livro, fez-se ontem justiça no Ipsilon no que toca a O Homem Livre, de Filipe Verde: longa e magnífica entrevista do autor a Gustavo Rubim e resenha deste, cujo teor valorativo (expresso nas 5 estrelas que atribui ao livro) se pode resumir nestas palavras:

O livro de Filipe Verde que a Angelus Novus agora editou, O Homem Livre: Mito, Moral e Carácter numa Sociedade Ameríndia, vai decerto ficar como obra maior da antropologia portuguesa.

Da entrevista, permitimo-nos destacar, com a devida vénia, este excerto:

— Chamas à filosofia de vida dos Bororo “naturalismo ético”. Quer dizer que para eles não há moral sem compreensão da natureza e do lugar dos humanos na natureza? Ou basta dizer que no pensamento Bororo aquilo a que chamamos “moral” não existe?

Bom, não quero, nem conseguiria, resumir aqui o que se condensa nessa ideia de “naturalismo ético”, nem é esse o propósito da pergunta, suponho. Há que ler o livro para ter uma visão da coisa. Mas no essencial dos essenciais trata-se do seguinte: ele designa um corpo de ideias sobre o homem e a acção pela qual o conformar dos comportamentos às necessidades da vida social (ou seja a renúncia à mera lei do desejo e da violência) é concebido não como o resultado de uma aprendizagem cultural ou da submissão a uma coerção social, mas como a expressão e manifestação de propriedades centrais da natureza e dos processos vitais (uma natureza que é a mesma para homens, jaguares e aranhas). Nesse sentido, a compreensão da natureza é o que perfaz o que entre nós chamamos “moral”. Uma moral que está presente, e como!, presente de uma forma que permite conciliar o que nós pensamos inconciliável, isto é, uma  liberdade individual enorme com uma ordem e paz social que roça o que nos vertemos na ideia de utopia, mas uma moral que nunca se chega portanto a formular como tal. É uma moral do mesmo tipo que encontramos na Grécia de Homero, antes de Sócrates e Platão a terem tornado um coisa, e uma palavra, que com o tempo se foi tornando prescritiva, se casou com a religião e com a filosofia que a ergueram contra a natureza e nos tornaram assim muito inautênticos, cada vez menos livres, ou quando livres sem meios para sequer sermos capaz de a viver de facto, e muito neuróticos.

Existe uma razão adicional para que nos orgulhemos da edição deste livro: o facto de a foto da capa (a famosa foto do bororo «Hugo»), e várias das que ilustram o livro, serem as fotos tiradas por Lévi-Strauss na expedição que mais tarde descreveu em Tristes Trópicos e que reuniu, ainda mais tardiamente, em Saudades do Brasil. O grande antropólogo francês, contactado pela Angelus Novus, e num gesto que o define, cedeu graciosamente as fotos em causa. Por isso também fizemos questão de referir, no próprio livro, que a edição de O Homem Livre ocorria no centenário de Claude Lévi-Strauss, que dessa forma assinalámos, com a inteira concordância de Filipe Verde.

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