A minha livraria preferida: Vítor Moura

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Vítor Moura é Professor no Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho. Tem-se dedicado sobretudo à Estética, área em que se doutorou nos EUA, e à Filosofia Política.

Na Angelus Novus publicou A Autonomia dos Mundos. Traços Gestaltistas na Obra de Ludwig Wittgenstein e a peça de teatro SaloméLenineDada.

 

P. De todas as livrarias que já frequentou, qual a sua preferida?

R. Continuo a reservar as compras dos livros não especializados para a Livraria Latina, na Rua S. Catarina, no Porto. Gostava que houvesse mais como ela. Infelizmente, o proprietário, Henrique Perdigão, faleceu este Verão, e não sei até que ponto a livraria irá sofrer com isso.

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[Foto de Henrique Perdigão publicada no Da Literatura]

P. Pode indicar as 3 razões pelas quais prefere essa livraria?

R. Em primeiro lugar, as funcionárias são muito profissionais e conhecem bem o mercado livreiro. E gostam de livros, o que não é assim tão comum quanto isso. Toda a gente que já procurou um livro nas grandes cadeias sabe do que estou a falar. Só lá compro ficção ou poesia porque as secções de ensaio são rudimentares.

Em segundo lugar, o espaço é quase o epítome da pequena livraria urbana. Como sofreu uma remodelação profunda há alguns anos, tornou-se mais sofisticada mas manteve-se acolhedora. Há algo de tranquilizante em verificar que um espaço destes conseguiu sobreviver, bem no centro do Porto, apesar das ameaças dos últimos anos.

Em terceiro lugar, souberam manter-se competitivos no preço, apesar da proximidade da FNAC de S. Catarina.

P. Pode indicar um livro que associe em particular a essa livraria?

R. Comprei lá todos os livros de Dino Buzzati, uma descoberta recente. Em breve conversa com a funcionária que me vendeu O Deserto dos Tártaros, disse-lhe que o livro devia ser de leitura obrigatória. Passado algum tempo, quando voltei lá, ela disse-me que o tinha lido, e que estava muito agradecida pela recomendação. É muito bom partilhar um interesse.

P. O que seria para si «a livraria ideal»?

R. É difícil responder porque a Internet transformou radicalmente o conceito de “livraria”. Curiosamente, reservo as livrarias “físicas” para a compra de literatura, poesia ou teatro. Não estou à espera de encontrar nelas o livro ultra-especializado que encomendo pela Internet. Logo, nenhuma livraria poderia ser a “ideal”, se por isso entendermos o local onde podemos encontrar tudo o que procuramos. A falar de livrarias “físicas”, trocaria o termo “ideal” pelo “sensual”, porque as melhores livrarias são espaços que demonstram o valor do livro como objecto físico (eu sou daqueles que gostam de cheirar as folhas dos livros novos). Uma livraria de tamanho médio, nem “cubicular” (porque sabemos que não vamos encontrar nada de surpreendente) nem armazém. Com alguma luz natural, mas não muita, porque os livros não podem estar muito expostos. Com mais livros do que espaço – isso é muito importante. Com organização alfabética por autor – evito as livrarias que perdem tempo a organizar os livros por editora ou por colecção. Mas, sobretudo, com gente que conheça bem os livros, que não precise que lhe soletrem os nomes dos autores, que saibam trabalhar com computadores e com a Internet, e que conheçam os números de telefone das editoras. E, já agora, uma livraria que tivesse uma boa secção (de preferência, na cave…) de livros usados, ou manipulados, ou com defeitos de edição, porque também é bom encontrar uma pechincha de vez em quando.

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