A minha livraria preferida: Veronica Stigger

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Veronica Stigger é doutorada em História da Arte, matéria que lecciona, a par da sua actividade como ensaísta e crítica. O seu segundo livro, Gran Cabaret Demenzial (2007) foi publicado pela Cosac & Naify, de S. Paulo. Tem contos traduzidos em catalão, espanhol, francês e italiano.

Na Angelus Novus publicou O Trágico e outras Comédias (2003), sua obra de estreia, depois editada pela 7 Letras, do Rio de Janeiro, em 2004.

 

P. De todas as livrarias que já frequentou, qual a sua preferida?

R. Eu gosto de várias livrarias, mas a minha preferida é a Berinjela, que fica no subsolo de um edifício comercial bem no centro do Rio de Janeiro.

P. Pode indicar as 3 razões pelas quais prefere essa livraria?

R. Há mais de três razões para eu gostar da Berinjela. Para começar, ela é uma livraria pequena, de usados, mas que tem um acervo bem selecionado. Lá, sou sempre bem atendida. O Daniel Chomski, que é dono da livraria, é simpaticíssimo e está sempre por lá, pronto para jogar um pouco de conversa fora. Ele até já virou poema do Aníbal Cristobo, o qual reproduzo no final deste inquérito. Ademais, gosto de ir à Berinjela porque costumo encontrar por lá o Carlito Azevedo. Para mim, o Carlito já é parte inseparável da paisagem do Rio de Janeiro, como o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar. Ir ao Rio e não encontrar o Carlito é quase como ir a Roma e não ver o Papa (embora eu sempre vá a Roma e nunca vejo o Papa, sempre que vou ao Rio vejo o Carlito). E o melhor de tudo eu ainda não falei: o preço dos livros é sempre a metade do que está indicado a lápis na primeira página. Quer coisa melhor que isso?

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P. Pode indicar um livro que associe em particular a essa livraria?

R. Lá comprei, por 10 reais (cerca de 3,5 euros), o quarto tomo de um grande catálogo, esgotado há anos, que foi dedicado a Marcel Duchamp por ocasião de uma retrospectiva de suas obras no Centre Georges Pompidou, em 1977. Este quarto tomo intitula-se Victor e é um romance escrito por Henri-Pierre Roché sobre Duchamp.

P. O que seria para si «a livraria ideal»?

R. Aquela que tem um ótimo acervo e desconto na compra de seus livros.
 
 

Desculpas para Daniel Chomski
 
Desculpe-me, Daniel, por não ter podido
escrever
 
este poema: e nem foi tanto
por andar ocupado, mas sim por que cada vez
que pensava em você, e em sua
 
livraria, e nos amigos ali reunidos, bebendo
suas cervejas e comentando algum livro, comentando
a escalação da seleção brasileira; e todos
coincidindo
 
em que nem aqueles jogadores nem aqueles
escritores
 
eram suficientemente homens, cada vez, veja bem,
que pensava em coisas
como essas
me invadia uma preguiça
sem remédio. Além disso
 
claro que você teria saído ou estaria falando
no telefone, e teria sido impossível para você
ler este poema, e desse
modo
 
só depois de alguns meses, com sorte, eu acabaria
descobrindo por
terceiros que você ficou muito feliz porque Rubens, ou Carlito, ou
Marília
 
comentaram contigo que eu tinha escrito este poema
para você; e que afinal não era um poema
tão ruim. E desse modo
 
os dois evitamos
inconvenientes: você
 
a de que lhe dediquem um poema – algo que, entre os
seus, seria uma imperdoável falta de
masculinidade – e eu
a de escrevê-lo. Em vez disso, mando-
lhe
 
este que tinha guardado, escrito
para minha professora de inglês, quando
eu
 
tinha quinze anos.-

Aníbal Cristobo

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Uma resposta

  1. Muito interessante saber mais sobre a sensibilidade dessa ótima escritora que é a Veronica Stigger.
    Descobri alguns de seus contos pela internet mesmo e estou tentando convencer meu pai de que vale a pena sim comprar seus livros( estamos em duvida se gastamos com Kafka ou ela, que me lembra Kafka ).
    Lendosseus contos eu ri, tive nojo e aomesmo tempo aquela sensação de estranheza inicial que ao mesmo tempo é familiar na medida que ao espor o absurdo ela fala nada mais nada menos que o absurdo mesmo é o cotidiano. Sua obra como um espelho mostra a logica torta que conduz a vida de todos, incluindo os objetos, comos que falam muito dos porques como no micro- conto da privada. Tenho vinte anos e estou no quarto semestre de filosofia,na UFAM, em manaus.
    Daí que foi uma grata surpresa encontrar sua livraria preferida e um personagem caricato da musa que me mostra a verdade do dia-a-dia despindo-a das verdades símeis aos fatos.

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