«Isto é a sério»: uma conversa com Isabela Figueiredo (I)

Quem é Isabela Figueiredo, a autora de Caderno de Memórias Coloniais? Uma bloguista incansável, uma escritora, uma «retornada», uma mulher de meia-idade que se olha sem grandes contemplações, uma filha que amava o pai e desamava aquilo que ele era? Para começarmos a entender a pessoa e a persona, transcrevemos aqui a primeira parte de uma entrevista, que os leitores poderão encontrar no Suplemento ao seu livro.

P. Os seus dados biográficos, aliás sucintos, referem o nascimento em Lourenço Marques e a vinda para Portugal aos 13 anos de idade. A questão impõe-se: a Isabela é africana, mais precisamente, moçambicana? Considera ter uma dupla nacionalidade?

R. Cheguei a Portugal com 12 anos, a 5 semanas de fazer os 13. Já não era uma criança, mas ainda não era uma mulher. Já aprendera que tudo tem consequências.  Já desenvolvera a minha consciência e sensibilidade, contudo, mantinha a inocência própria de uma menina. Já recebera muitas influências, mas outras esperavam por mim.

Quando era pequena, havia uma grande ênfase dos meus pais e entourage no facto de eu ser um produto genuinamente moçambicano, ou coca-cola, como diziam. Contudo, isso não é verdade quanto ao genuinamente. Estive sempre rodeada de referências portuguesas: a minha mãe mascarava-me de nazarena, no Carnaval, e em minha casa comia-se bacalhau com batatas regado a azeite português. Aprendi a falar e escrever em Língua Portuguesa e nunca conheci outra bandeira ou outro hino que não os portugueses. Durante a escola primária, tal como em Portugal se estudava a geografia das colónias, também eu estudei a da Metrópole. Lia as revistas editadas em Portugal, todas as que lá chegavam. Lembro-me de uma publicidade à margarina Vaqueiro que me fazia desejar prová-la. Quando cheguei a Portugal, a primeira coisa que quis comer foi pão barrado com margarina Vaqueiro, para espanto de todos. Para mim era uma margarina legitimamente portuguesa, com a respectiva designação pastoril. Era essa ideia pastoril, rural, que tinha de Portugal, e que me foi transmitida pelos meus pais. Em Portugal, diziam eles,  o vinho era melhor, bem como a fruta e os legumes. Não havia maçãs como as portuguesas… Nem melancia… Nada se comparava. Nem os produtos da África do Sul. Os meus pais tinham uma atitude de duplicidade relativamente à Metrópole. Por um lado, era a sua terra, e enchiam-na de virtudes, como os emigrantes, por outro reclamavam para si a legitimidade da sua presença em Moçambique, território onde haviam conquistado um posição confortável,  considerando-o igualmente seu, e não desejando abandoná-lo. Não tinham qualquer intenção de regressar. Aquela já era a terra do seu coração. Qualquer retornado se reconhecerá nesta ideia.

Que nacionalidade tinha eu no meio disto tudo? Bem,  a nacionalidade não é apenas um conceito administrativo, mas aponta para a pertença a uma nação, logo, uma ideia de povo, e nesse caso eu sempre fui portuguesa. Aliás, a questão da língua, ou seja, a forma como se fala, pensa e escreve é muito determinante no meu caso. Sempre me senti portuguesa, embora uma portuguesa diferente, de  além-mar, porque há várias formas de se ser português. Ninguém me pode pedir que seja uma portuguesa típica. Posso ser uma portuguesa que recebeu outras influências, que conviveu com outra cultura, outra geografia, outro ambiente e que saiu um bocado misturada. Não me sinto moçambicana. Sinto-me uma portuguesa que nasceu em Moçambique. Sempre fui qualquer coisa em transição, mas uma coisa que precisa de ser portuguesa para poder reconhecer-se, encaixar-se e sossegar um bocado.

P. Qual a reflexão que faz sobre este hiato tão longo entre a publicação do seu primeiro livro Conto é como quem diz (1988) e este Caderno de Memórias Coloniais (2009), vinte anos passados? O que significou para si a publicação então? E agora?

R. O primeiro livro que publiquei surgiu na sequência de um concurso literário no qual fui premiada. Foi importante na medida em que me deixou perceber que o que escrevia tinha alguma qualidade.  A decisão do júri, constituído por Agustina Bessa-Luís, Dinis Machado e Ondina Braga, deixou-me muito orgulhosa. Recordo com ternura as palavras de encorajamento que me dirigiram. O hiato de 20 anos justifica-se pelo facto de tudo ter acontecido quando era demasiado nova. Tinha alguma técnica, de facto, mas não um tema.  Depois do Conto escrevi alguns textos excessivamente trabalhados, que depois não conseguia ler. Andei perdida. Não encontrava o meu lugar do ponto de vista literário.  Estou certa que fui uma desilusão para muitas pessoas que esperavam mais de mim.  A certa altura senti a necessidade de me afastar desse mundo. Não suportava a consciência de que não tinha correspondido às expectativas literárias que haviam depositado em mim. Acho que sobretudo não me suportava.

Mas digo sempre que era muito nova, precisava de crescer e deixar correr a vida. A certa altura, a necessidade de escrever venceu. Não tinha perdido essa capacidade e nem sequer estava embotada pelo tempo. Pelo contrário, o teclado estava muito mais solto, e o que queria escrever tinha-se tornado mais intenso e violento, e existia um alvo. Isso surpreendeu-me, essa consciência de que ainda sabia escrever, de que a mensagem saía com eficácia e força.  Entusiasmou-me. O blogue foi-me servindo perfeitamente.

Estou convencida que o hiato de 20 anos, durante os quais me dediquei totalmente ao trabalho, foi benéfico e absolutamente necessário para me descobrir.

Publicar nesta altura é importante. Sinto isto como um recomeço, e claro que gostaria que tivesse continuidade, embora não esteja à espera de milagres.

P. O que muda na transposição dos textos publicados no blogue O Mundo Perfeito para o formato de livro? Pensa que no processo de adaptação para o novo formato estes textos se alteraram, são agora outros?
 
R. Não, não. Os textos são os mesmos. Mantêm a autenticidade que tinham quando da sua publicação no blogue. O Mundo Perfeito tinha várias “histórias” em curso, tal como agora o Novo Mundo. Mas os textos que constam deste livro, e que constituíam uma dessas “histórias”, foram  publicados com uma grande seriedade da minha parte, a qual se mantém no formato livro. No blogue, para minha satisfação pessoal, havia sempre “palhaçada”, como costumo dizer, mas isto não era “palhaçada”. Isto era a sério.

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9 Respostas

  1. Parabéns à Isabela pelo lançamento do livro, que espero se torne um sucesso. Pois já há muitos meses que a passagem pelo “Novo Mundo” se tornou obrigatória. Momentos de humor, de reflexão ou de pura emoção.
    De uma mulher de meia idade.

  2. Um livro único no nosso panorama literário. Uma temática sobre a qual ainda hoje é arriscado escrever (e poucos se põem inteiros nessa escrita), uma escrita no fio da navalha, como a própria escritora reconhece, e, não menos importante, bem pelo contrário, alguém que escreve muito bem – o que não é assim tão frequente como possa parecer. Em suma: excelente!

  3. Eu sempre soube (e disse) que a Isabela era uma mulher linda, linda, linda. E acertei.

  4. Encomendei o livro pela net logo que ele apareceu no blog, mas demorou quase duas semanas a chegar. Li-o todo num dia. Não me surpreendi porque era assim que o imaginava. Acho que os episódios ficariam melhor com títulos e, como no blog, ilustrados. Por outro lado, como oportunamente comentei (quando havia caixa de comentários) por altura do encerramento do “Mundo Perfeito” acho que, desta forma (em livro) os direitos de autora estão totalmente salvaguardados, ao contrário do blog. Sempre disse que a Isabela deveria publicar em livro, aliás parece-me que só no contexto do livro se compreendem estórias como “os cabrões” que tanto me incomodou quando a li no blog, porque no blogue as lemos de forma “isolada” e descontextualizada.
    A Isabela escreve como ninguém. Acho que está na altura de escrever um ROMANCE.
    Parabéns, muitos parabéns.
    PS – Pena não haver possibilidade de apresentação do livro como os respectivos autógrafos,

  5. Já li. Acho que o curso superior de Estudos Portugueses e Lusófonos, na parte que aborda as culturas africanas, deveria ter em conta o que este livro nos conta na primeira pessoa (pese a subjectividade). Estes depoimentos, até agora quase proibidos, esclarecem muito melhor a questão da dita “peculiar” colonização portuguesa (a mestiçagem, etc.etc.) – a do tal Caliban da Europa, por oposição ao Próspero Inglês.
    Um livro de leitura fácil e agradável, de alguém que desenvolve o pensamento e o sabe passar ao papel.
    Há muito tempo que, aqui neste recôndito Minho, sigo os blogues da Isabela (a partir do MP que não sei como o encontrei), leituras que se tornaram viciadoras
    Os “Cadernos” não são, como já ouvi dizer, para os Retornados lerem, são também para nós os compreendermos.
    Grande livro – boas leituras

    João Costa – Vila Verde

  6. Desde que descobri a escrita tão deliciosa e viva da Isabela, no Mundo Perfeito, sigo-a regularmente. Comprei, li e adorei o livro.Também a acho linda por fora, tal como já a achava por dentro (salvo seja). Parabéns à autora e à mulher!.

  7. Parabéns pelo seu livro. Um escrita de coragem entusiasmo. Clara. Cristalina. Cruel? Não é assim a vida, por vezes?
    Lamento apenas tê-la descoberto agorinha mesmo. Porque entrei na Almedina, ao Saldanha, numa corrida em busca do seu livro e que uma “chamada” no blog do Francisco José Viegas assinalou como referencia e com destaque.
    Obrigado, Isabela Figueiredo, não só pelo seu contributo à leitura, mas acima de tudo pelo seu notável contributo para a literatura (autobiográfica ou não).
    Ao dispor
    Francisco Duarte Azevedo

  8. Ainda não li o livro, que, confesso é imperdoável. Este fim de semana grande (para alguns…) lá me vou arrastar até à Fnac para ficar a ler (e a adquiririr, já que vivemos numa economia de mercado) os textos da Isabel, que sempre foram e continuarão a ser belíssimos, muito bem escritos e ainda por cima sentidos.

    PS: isto é que é uma grande “Vontade Indómita de Viver”

  9. Ver para crer, Não se pode imaginar uma escrita assim sem a ter à nossa frente.

    Parabens, Dª Isabela Figueiredo pelo bem que a sua escrita transmite ao passar das nossas noites, navegando na net, navegando no seu mundo de cultura e entendimento do dia a dia de todos nós

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