Pedro Correira, sobre «Outubro»: «Lenine, o herdeiro de Danton»

No Diário de Notícias de ontem, sob o título «Lenine, o Herdeiro de Danton», Pedro Correia escreve sobre Outubro, de Rui Bebiano. Transcrevemos o texto, com a vénia devida:

Um dos mais estimulantes ensaios políticos surgidos este ano em Portugal, assinado por Rui Bebiano, tem como foco central a Revolução de Outubro e o seu protagonista máximo: Vladimir Lenine. É um acontecimento histórico que ainda hoje gera os maiores equívocos e as mais delirantes interpretações. O Avante!, por ocasião do 90º aniversário deste acto fundador do totalitarismo contemporâneo, em Novembro de 2007, considerava-o um “marco maior na caminhada humana pela emancipação”.

A visão de Rui Bebiano, professor de História Contemporânea na Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Sociais, não podia ser mais antagónica. Neste seu livro, Outubro (editora Angelus Novus, 102 páginas), o autor desmistifica a figura de Lenine, que “nas várias histórias do comunismo e dos ideais socialistas surge na maioria das vezes tratada de forma bastante benévola ou mistificada”.

A obra teórica de Lenine já prenunciava o Terror Vermelho instaurado na Rússia em 1918 após a supressão dos liberais, sociais-democratas, socialistas revolucionários e todos quantos podiam travar a insaciável sede de poder do Partido Comunista. No seu livro Que Fazer? (1902) sublinhou a necessidade de construção de uma “vanguarda revolucionária” para o derrube da “sociedade burguesa”. Em O Estado e a Revolução (1917) antecipava a tomada violenta do poder para a instauração da ditadura revolucionária, consumada meses depois, com o assalto ao Palácio de Inverno, que afinal “foi um putsch militar e não uma insurreição das massas”.

Lenine, como recorda Rui Bebiano, proclamava que “não existe moral na política, apenas conveniência”. Não admira, assim, que tenha sido o autor moral da “organização sistemática da violência revolucionária como instrumento de transformação e ferramenta do poder”, da “repressão sem contemplações de qualquer modalidade de dissidência” e do “exercício sistemático da brutalidade contra populações inteiras”. No auge do Terror Vermelho enviava telegramas aos seus sequazes, incentivando-os a meter “balas nas cabeças” dos opositores políticos. Entre 1918 e 1920, segundo os registos históricos, houve na URSS 12.733 execuções.

Lenine, que era um homem inegavelmente culto, apreciava música clássica. Um dia, ao ouvir pela enésima vez a Apassionata, confessou a Gorki: “Se continuar a escutá-la, não acabo a revolução.” Trocou Beethoven pelas balas demolidoras contra a “democracia burguesa” que tanto odiava. A seu ver, como salienta Rui Bebiano, “toda a atitude reformista se tornava inútil e abominável, salvo quando servisse como instrumento da mudança integral”.

Era, no fundo, um legítimo herdeiro de Danton, que na noite anterior à sua morte dizia: “O verbo guilhotinar, notai, não se pode escrever no passado. Não se diz: ‘Fui guilhotinado’.” O futuro que ambos propunham, Danton e Lenine, era esse mesmo: o da guilhotina.

Surpreende que ainda hoje haja quem os celebre de forma acrítica como libertadores da espécie humana.

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