A poesia no «formato mulher»

O espaço semiótico do corpo feminino não se apresenta, porém, na poesia das duas autoras, como um campo exclusivamente privilegiado de experimentação simbólica. Os corpos masculinos demonstram-se igualmente capazes de participar na revolta poética da linguagem, desde que se revelem enquanto (para parafrasear Luiza Neto Jorge) “corpos despidos”. A nudez, sem chegar a ser idealizada como o ícone de uma verdade pré-verbal, assume no entanto o significado, positivamente marcado, de um ambiente no qual a liberdade, linguística e existencial, adquire a capacidade de florescer. É, pois, no discurso erótico – discurso de uma nudez a dois – que o corpo masculino perde a sua solidez simbólica e entra no jogo da invenção, como acontece, por exemplo, no poema “Pelo corpo” de Luiza Neto Jorge (207):

o fértil trajo
que lhe cria mais seios
pelo corpo

infinita invenção
de pétala a escaldar
desprende o falo

a palavra sublinhada
que é ele a avançar-me
pelo corpo

a porta giratória
que me troca
pelo homem e, a este,

A diferença sexual chega a ser reformulada aqui não enquanto oposição fixa, mas como um processo constante de diferenciação. O jogo erótico de invenção, capaz de revelar (para citar ainda Luiza Neto Jorge) “uma luminosidade quase cesariana na barriga do melhor amigo” (198), frutifica, na já mencionada Educação Sentimental de Teresa Horta, em poemas que glosam minuciosamente ambos os corpos nesta “educação” envolvidos (por exemplo, “A veia do [teu] pénis”). Relativizando assim a acepção univocamente falomórfica da anatomia (e da identidade) masculina, as poetas alargam, antecipadamente, os limites do significado da expressão “ce sexe qui n’en est pas un” (Irigaray): para elas, nenhum sexo o é, já que tanto os significantes “masculinos” como os “femininos” revelam uma capacidade ilimitada de multiplicação e permuta. Qualquer partícula do corpo semiótico possui, com efeito, a flexibilidade igual àquela atribuída por Maria Teresa Horta a “O ventre” (413):

É a chama do corpo
é o susto    é aquilo
é tudo o que inventar se possa na vontade

Tão depressa mármore
como vidro
tão depressa mar como ansiedade

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: