Ana María García Martín em entrevista sobre «O Soldado Prático»

Ana María García Martín é Doutora em Filologia Hispânica pela Universidade de Salamanca, onde é professora na Área de Filologia Portuguesa. Como editora de textos clássicos, publicou previamente a Coronica Troiana em Limguoajem Purtugesa (Salamanca, 1998), tradução quinhentista portuguesa da “Crónica Troyana” impressa espanhola, e, mais recentemente, o poema herói-cómico setecentista O Hissope (Angelus Novus, 2006), neste caso em colaboração com Pedro Serra. Acaba de editar, na nossa colecção Biblioteca Lusitana, agora patrocinada pelo Centro de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, O Soldado Prático. Falámos com a responsável pela edição sobre a obra.

P. Que podem os leitores – parte deles terão ainda perfeito a educação sentimental do ‘ser português’ na bíblia lusíada –, nos dias de hoje, encontrar numa obra como O Soldado Prático, diálogo pouco dado ao ufanismo imperial?

R. O Soldado Prático é uma obra fundamental do corpus da literatura da expansão portuguesa. Rodrigues Lapa considerava o diálogo de Diogo do Couto uma das obras mais “honestas” da literatura portuguesa, motivo pelo qual deveria ser lida imediatamente a seguir a Os Lusíadas. Efectivamente, trata-se de um diálogo que nos permite conhecer o lado pragmático da expansão e a ideologia que lhe subjaz. Enfim, trata-se do texto que enceta a lenda negra do império português. Por todas estas razões, O Soldado Prático é um livro fundamental para os historiadores da expansão e do império português, sendo, como é, uma obra que faz uma análise atenta das misérias humanas numa sociedade de grande complexidade.

P. O Soldado Prático integra o elenco das «obras críticas» da expansão e, talvez por isso, é bem menos lido (e conhecido, embora as coisas não coincidam) do que as obras laudatórias, com Os Lusíadas naturalmente à cabeça. A escola, como se sabe, ratifica e incrementa esta situação. A situação destas obras em Portugal é idêntica à que ocorre em Espanha ou há diferenças? Qual ou quais seriam as obras espanholas críticas da expansão aproximáveis d’O Soldado Prático?

R. As obras relativas à expansão não têm o mesmo peso nas literaturas portuguesa e espanhola. No Portugal renascentista os livros que narravam a experiência da expansão tiveram um grande acolhimento, que, aliás, não se limitou a Portugal, tendo muitas delas circulado por toda a Europa. Por outro lado, a temática da expansão produziu obras-primas em Portugal. As mais óbvias, claro, são Os Lusíadas e a Peregrinação, entre outros textos que justificam plenamente a atenção que a historiografia literária e cultural dispensou, e continua a dispensar, à bibliografia da expansão. Pelo contrário, é difícil considerar obras afins, em língua castelhana, com uma repercussão equivalente no campo literário espanhol. O caso que mais se aproxima a O Soldado Prático, por ser também um texto polémico que ajudou a configurar a lenda negra do império espanhol, é a Brevísima relación de la destrucción de las Indias, do Padre Bartolomé de las Casas. Uma obra escrita e ampliada reiteradamente pelo autor espanhol, como ocorreu igualmente com o diálogo coutiano. O texto de Bartolomé de las Casas, contudo, é escassamente lido ou estudado, circunscrevendo-se, no âmbito académico, a cursos de História da América ou de Literatura Hispano-americana. Outro texto semelhante a O Soldado Prático, por várias razões, é o que tem por título Diálogos de la vida del soldado, da responsabilidade do salmantino Diego Núñez Alba. Trata-se, neste caso, de um diálogo escrito em meados do século XVI, texto em que o autor, ex-soldado no exército de Carlos V na campanha da Alemanha, lamenta a vida miserável e as humilhações sofridas pelos soldados, os ‘operários do império’. Todavia, este diálogo é lido, fundamentalmente, por historiadores e estudiosos do género dialógico no Renascimento hispânico.

P. Que critérios editoriais e filológicos singularizam a presente edição d’O Soldado Prático?

R. A edição que apresento é muito rigorosa na fixação do texto, pois foi levada a cabo a partir de uma das duas versões manuscritas que saíram do scriptorium do autor. Concretamente, a versão que foi corrigida pela própria mão de Diogo do Couto. Por outro lado, a presente edição respeita escrupulosamente o estado linguístico do texto, actualizando as variantes gráficas, mas respeitando aquelas que têm pertinência fonética ou morfossintáctica. Para facilitar a interpretação das formas linguísticas epocais que podem resultar obscuras para o leitor contemporâneo, acrescento no fim da edição o elenco de todas as formas linguísticas discrepantes em relação ao português actual, seguidas da forma moderna correspondente. A edição foi também profusamente anotada, contando com um aparato de notas-de-rodapé destinado a esclarecer as intervenções no texto-base. A anotação visou, ainda, a consignação de explicações de tipo histórico, geográfico ou literário de modo a auxiliar a interpretação da obra coutiana. Por último, seguindo os pertinentes critérios da colecção em que se insere o volume, a minha edição conta com uma introdução ao autor e sua obra, assim como uma bibliografia selectiva comentada. Por tudo isto, trata-se de uma edição idónea tanto para estudantes e professores, como para o público leitor em geral. Sublinho, enfim que O Soldado Prático é uma obra que merecia uma edição actualizada e escrupulosa, pois a edição de Rodrigues Lapa, de 1937, embora de grande valor, não está isenta de alguns erros tipográficos e de uma questionável vacilação no respeito das variantes epocais que, entretanto, não foram corrigidas nas reimpressões posteriores.

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