Paulo Meneses: «…contra-gosto (em véspera de Natal)»

Para esta ‘entrada’ do meu muito atrasado contra-gosto, havia considerado atalhar duas pendências, ambas ligadas à alcatra, de que antes se falou: uma respeitante à alcatra de peixe, outra à massa sovada. Melhor será deixá-las para outra altura, e propor agora alguma coisa mais chegada à sazão. Docinha, por conseguinte.

Contam já 108 anos sobre o momento em que D. Amélia se deslocou à ilha Terceira, numa das suas visitas régias. Para saudar a Rainha e celebrar o evento, capricharam os locais na confecção de umas queijadas, no gosto e na textura muito singulares, que ficaram conhecidas como as ‘donas amélias’, ou queijadas ‘dona Amélia’ ou ainda ‘bolos ‘dona Amélia’. Rematam bem demais uma ceia de Natal, estou em crer. Aqui vão, para quem nelas se queira aventurar.

Para uma dose razoável das ditas, tenham-se à mão os seguintes ingredientes: meio quilo de açúcar, trezentos gramas de farinha de milho branco, uma chávena de manteiga (± 125 gramas), sete ovos, cem gramas de cidrão, três colheres de sopa de mel de cana, uma colher de chá de canela (por não me aborrecer o sabor dela, chego-lhe com uma colher de sobremesa), uma pitada de nós moscada, uma colher de chá de fermento, passas (boas, miudinhas e sem grainha, de preferência; é procurar que as há!).

Para deste rol de ingredientes chegarmos aos bolinhos, será aconselhável agir assim: batem-se o açúcar e a manteiga (previamente amolecida, gesto que o Verão dispensa e os tempos frios exigem, para o qual devemos recorrer ao banho-maria), de forma lenta, até formar uma massa homogéna; continuando o batimento no mesmo ritmo, adicionam-se as gemas (já desfeitas), as especiarias e o mel de cana; segue-se a farinha de milho (nesta estava já o fermento, bem como o cidrão e as passas, devidamente picadinhos e misturados, pois este envolimento preliminar dos frutos secos na farinha ajuda à sua regular distribuição pela massa); por fim, entram as claras (de apenas cinco dos ovos, já feitas em castelo, naturalmente), que se envolvem muito bem na massa, manualmente para não dar cabo do castelo; coloca-se o preparado em formas de queijada (ocupar cerca de dois terços da forma), depois leve mas devidamente untadas e enfarinhadas; o lume para a cozedura deve ser o normal, digo médio; depois de cozidas (vinte a vinte cinco minutos no forno, mas convirá ‘vigiar’ o processo) e desenformadas, polvilham-se com açúcar confeiteiro.

Bom proveito. Natal bem sereno e ‘à maneira’. Dois mil e dez, esse venha bem melhor do que os sinais dos tempos prometem!

P.S. Esta é a segunda edição da rubrica «Contra-gosto», da autoria de Paulo Meneses, autor da Angelus Novus e professor da Universidade dos Açores, onde dirige o Departamento de Línguas e Literaturas Modernas. Na sua primeira colaboração, o autor abordara o nobre tópico da alcatra da Terceira. Com este post a Angelus Novus celebra, com os seus leitores, as delícias da quadra natalícia em versão açoriana.

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