«O Formato Mulher» por Ana Luísa Amaral

Como amplamente informámos, o livro de Anna Klobucka foi apresentado ao público no Porto, por Rosa Maria Martelo, e em Lisboa, por Ana Luísa Amaral. Por gentil cedência desta última, transcrevemos em seguida o texto que escreveu para essa apresentação na Casa Pessoa, no passado dia 14.  

«Começo por sublinhar que o livro de Anna Klobucka O Formato Mulher: A Emergência da Autoria Feminina na Poesia Portuguesa, agora dado à estampa pela editora Angelus Novus, é um trabalho inédito em Portugal. Esse ineditismo prende-se com a sua vertente prática (o objecto) e a sua vertente teórica (a inflexão). Não só é nova a leitura aqui proposta, que trata, por via de estratégias de distanciamento e aproximação, a produção de seis mulheres poetas portuguesas, mas novo é ainda, no nosso contexto crítico-literário, o olhar da autora, que, para as re-visitar (e retenho a ideia de re-visitação, que retomarei no final), se empresta de lentes teóricas orientadas a partir dos estudos feministas.

Quero, pois, congratular-me com Anna Klobucka e saudar a Angelus Novus pela concepção e publicação deste livro, em primeiro lugar por nele se explorarem perspectivas infelizmente ainda incipientes no panorama português e, em segundo lugar, porque ele supre uma falha, no que diz respeito à existência de estudos alargados e sistemáticos sobre o fenómeno da escrita produzida por mulheres, ou da chamada “escrita feminina”, no seu cruzamento com os estudos literários: exceptuando ensaios sem dúvida extremamente relevantes, mas, porque ensaios, de carácter disperso, de Graça Abranches, Maria Irene Ramalho, Isabel Allegro de Magalhães, ou Ana Gabriela Macedo, o que até agora tínhamos em livro disponível eram as obras (fundadoras) de Isabel Allegro de Magalhães O Tempo das Mulheres (1987) e O Sexo dos Textos (1995), o Dicionário de Crítica Feminista (2005), organizado por Ana Gabriela Macedo e por mim própria, a colectânea de ensaios Género, Identidade e Desejo (2002), organizada por Ana Gabriela Macedo e, mais recentemente (em 2006), o livro (que entre nós passou despercebido) de Chatarina Edfelt, ensaísta sueca, Uma História na História: Representações da Autoria Feminina na História da Literatura Portuguesa do Século XX (2006). Mas os livros de Isabel Allegro dedicavam-se ao estudo da ficção de autoria feminina ou de textos de ficção com traços “femininos”, o Dicionário de Crítica Feminista tinha como objectivo a divulgação de conceitos-chave para a teoria e crítica feministas, a colectânea organizada por Ana Gabriela Macedo constituía-se como uma tradução de ensaios estrangeiros, fundamentais para os Estudos Feministas e para os Estudos de Género, e o livro de Chatarina Edfelt é um trabalho de âmbito cultural que explora as práticas e as políticas de exclusão e marginalização que a autoria feminina historicamente tem enfrentado no campo literário. Ora o livro de Anna Klobucka é o primeiro estudo em Portugal de carácter diacrónico a debruçar-se sobre poesia escrita por mulheres.

Não é este o primeiro estudo de Anna Klobucka, professora na Universidade de Massachusetts, Dartmouth, a ter sido publicado em Portugal e a servir-se das ferramentas teóricas do feminismo – tal havia já acontecido com um livro (inicialmente publicado na Grã-Bretanha) intitulado Mariana Alcoforado: Formação e Criação de um Mito Cultural, de 2006, com a chancela da Imprensa Nacional Casa da Moeda, onde a autora trabalhou a criação e formação do mito da “freira portuguesa”, no contexto cultural e político dos séculos XIX e XX. Tradição inventada, produto do revivalismo nacionalista dos dois últimos séculos, Mariana Alcoforado era aí apresentada como uma «figura mítica de corpo inteiro, representativa da feminilidade portuguesa, quando não mesmo da nossa identidade nacional e um elemento importante do cânone lusitano». A este livro junte-se o interesse de Anna Klobucka por essa que é uma das mais extraordinárias obras do século XX – Novas Cartas Portuguesas – ao qual a autora acentua o carácter não datado, mas antes reinterpretativo, que continuamente se refaz. E ao livro sobre Mariana Alcoforado juntem-se ainda uma grande variedade de ensaios da sua autoria sobre literatura portuguesa em geral, cruzados com perspectivas adjacentes aos estudos feministas, ou aos estudos sobre género, ou ainda aos estudos queer, que revêem, astutamente, as perspectivas presentes nas leituras que têm vindo a ser feitas sobre Saramago, Florbela Espanca, Camões ou Fernando Pessoa. Chamo só a atenção para dois títulos de ensaios de Anna Klobucka – “O sexo da arca: 70 anos de revelações, pruridos e equívocos” (2005), ou “Was Camões Gay? Queering the Portuguese Literary Canon” (2007) – e para o título de um livro que irá sair brevemente, em organização conjunta com Mark Sabinne, O Corpo em Pessoa: Corporalidade, Género, Sexualidade (no prelo).

Serve este pequeno excurso para enfatizar que o interesse e investimento de Anna Klobucka na Literatura e na Cultura Portuguesas se encontra solidamente estribado em produções científicas anteriores e ainda que quem está já familiarizado com o trabalho produzido por esta estudiosa nas áreas da literatura portuguesa, dos estudos feministas e da literatura comparada irá reconhecer alguns dos conceitos que estruturam este livro, resultado parcial de uma tese de doutoramento que a autora apresentou à Universidade de Harvard, em 1993, com o título O Formato Mulher: as Poéticas do Feminino na obra de Florbela Espanca, Sophia de Mello Breyner Andresen, Maria Teresa Horta e Luiza Neto Jorge. O livro (que exibe uma bela capa, ao estilo de Andy Warhol, em que as fotografias das autoras se encontram cromaticamente construídas, des-construídas e decompostas – ou mesmo des-compostas), tem por título principal O Formato Mulher – e é óbvia a sua relação intertextual com os conhecidos versos de Luiza Neto Jorge “diferente me concebo e só do avesso / o formato mulher se me acomoda”, que atestariam de uma escrita de mulher, específica da mulher, mas que não é necessariamente o reverso ou contraponto da outra, a do homem ou a masculina, ou seja, não tem que acontecer numa lógica binária, podendo antes, a meu ver, ter lugar num terceiro pólo, o da “desdobrabilidade” (mas isto seria tema para um debate mais alargado, que não tem aqui lugar).

O livro compõe-se de cinco partes: uma longa Introdução e quatro capítulos, cada um deles subdividido em quatro pontos (excepto o último, que, em gesto desafiador, desacerta a simetria e introduz uma numeração diferente – a e b). Os dois primeiros capítulos são dedicados ao estudo da poesia de Florbela Espanca e de Sophia de Mello Breyner e têm por títulos “A Poetisa: Florbela Espanca” e “A Poeta: Sophia de Mello Breyner Andresen”. O capítulo seguinte debruça-se sobre a poesia e a poética de Maria Teresa Horta e Luiza Neto Jorge e exibe um título muito sugestivo: “Poetas. Feminino Plural”. Neste capítulo, acentuando a dupla ênfase na materialidade do texto e na textualidade da matéria (ou real), praticada por Maria Teresa Horta e por Luiza Neto Jorge, Anna Klobucka acentua ainda, parece-me, o lado transgressivo da poesia de Teresa Horta e o lado subversivo da poesia de Luiza Neto Jorge – duas estratégias que lhe permitem relacionar as duas “rupturas dos anos 60” efectuadas por ambas as escritoras. O último capítulo, intitulado “E vários os caminhos”, é sobre Adília Lopes e Ana Luísa Amaral e centra-se na presença do exercício das polaridades que os anos 90 permitirão e que, em termos poéticos, se traduzem pela sabotagem e subversão da tradição. Não irei aqui debruçar-me capítulo a capítulo sobre este livro, e direi desde já que a minha apresentação será sempre, por razões óbvias, muito parcelar, não se detendo no último capítulo. Mas quero falar um pouco sobre o enquadramento teórico do pensamento de Anna Klobucka e chamar a atenção para as articulações felizes que no livro são oferecidas e que percorrem alguma da poesia portuguesa escrita por mulheres durante o século XX.

Sublinho a leitura que é feita de Florbela e de Sophia, e as questões relativas à dimensão psico-literário-sexual que é convocada para justificar as designações “poetisa” e “poeta” destacadas por Anna Klobucka relativamente a Espanca e a Sophia. Assim, se as leituras críticas de Sophia valorizaram a aliança na sua poesia entre alguma suspensão das marcas gramaticais, o tratamento de topoi clássicos e uma clara relação agónica com Fernando Pessoa, Florbela Espanca, “reflectida em metaficções (…) praticamente deixou de existir enquanto autora (…) para passar a ser encarada quase exclusivamente como personagem” (p. 81) – e eu acrescentaria como, por razões que são ao mesmo tempo distantes e adjacentes a estas, Mário de Sá Carneiro sofreria, em certa medida, de um tratamento semelhante. Mas voltemos a Florbela. Ou seja, e em formulação muito sucinta, Florbela Espanca foi “poetisa” e Sophia foi “poeta”. Sabemos dos esforços de Jorge de Sena (sinalizados por Klobucka) em recuperar Emily Dickinson para um superior panteão, designando-a justamente por “poeta”, seguindo os passos de outros críticos que lhe erradicaram os traços de mulher.

É claro que “poetisa” e “poetess” são termos que levantam questões diferentes nos sistemas linguísticos em que se inserem: numa língua fortemente marcada em termos de concordância gramatical como é a portuguesa, a inflexão nominal marca não só substantivos, mas também determinantes e modificadores e as palavras femininas e masculinas encontradas no léxico são caracterizadas por uma muito maior variedade de sufixos que no inglês, onde a genderização, quando ocorre, marca a excepcionalidade. Porém, o epíteto de “poetisa” (com tudo o que ele acarretou de pejorativo, ou não o mostrasse – supostamente – Pascoaes, ao falar de António Nobre), nunca se tendo colado a Sophia, nunca se descolou de Florbela. Anna Klobucka demonstra-o aqui, debatendo também magistralmente a eficácia desse epíteto, ao destacar as estratégias florbelianas de “negociar”, ainda que torturadamente, um espaço de autonomia e de “expressão própria” (115). Bastaria pensar nesses versos de Florbela “Os males de Anto, toda a gente os sabe / Os meus – ninguém. A minha dor não cabe / nos cem milhões de versos que eu fizera”, alternativa autorizada à versão nobriana de reivindicação da angústia nacional (relembro a abertura de : “Mas tende cuidado, não vos faça mal / que é o livro mais triste que há em Portugal”). Teria sido aqui interessante pensar o lugar de Irene Lisboa e da sua (só aparentemente) desautorizada afirmação “Ao que vos parecer verso, chamai verso / e ao resto chamai prosa” – mas Anna Klobucka, referindo Irene Lisboa, promete implicitamente, ao definir as suas propostas como “proposta abertas de leitura crítica”, voltar a outras autoras. Na sua tese, Espanca surge assim como tendo criado uma espécie de genealogia no feminino, abrindo caminho para mulheres poetas como Adília Lopes, num, ainda que paródico, inevitável vínculo de “recuperação reivindicativa de um modelo” (p. 316).

Num ensaio hoje considerado fundamental de 1981, “Feminist Criticism in the Wilderness” (“A Crítica Feminista no Deserto”), Elaine Showalter, citada por Anna Klobucka, sublinhava a importância de uma genealogia da escrita no feminino, respondendo a Virginia Woolf e à sua proposta de recuperação de um passado literário diferente do dos homens e avançando com um termo que seria crucial para a crítica feminista: “gynocritics” – ou “ginocrítica”. É assim que de uma preocupação com os textos canónicos de autoria masculina, de forma a neles detectar traços misóginos nas representações da mulher (quer pelo uso do estereótipo, na insistência na “feminilidade”, quer pela atitude de secundarização que essas mesmas representações trazem consigo) se passa às leituras mesmas de textos de autoria feminina, tentando detectar neles traços que revelem ora preocupações e temáticas ligadas ao feminino, ora questões relacionadas com o silenciamento cultural, ora ainda estratégias de subversão da ordem e dos modelos tradicionais. Este conceito de “ginocrítica” é fulcral para o argumento de Anna Klobucka, que a ele alia o de “feminismo situacional” (pedido emprestado a Nancy Friedman), ou seja, que defende a necessidade da adopção provisória de um “essencialismo estratégico” (formulação de Gayatri Spivak) “da perspectiva ginocrítica, sem perder de vista o horizonte no qual se esboça a hipótese de ultrapassagem das suas limitações, ‘uma vez plenamente efectuada a crítica da razão patriarcal’ (De Lauretis 1987)” (p. 18).

Por isto são também tão produtivas as leituras de Luiza Neto Jorge e Maria Teresa Horta. É assim que a voz feminina de um livro (notável) como Minha Senhora de Mim, de Maria Teresa Horta, é apresentada como “fazendo-se sujeito de uma reivindicação insistente do cânone da poesia portuguesa” (p. 233), operando, tal como, por exemplo, o extraordinário poema “Balada Apócrifa”, de Luiza Neto Jorge, “uma projecção dos lugares comuns da tradição mitopoética nacional para o hic et nunc de Poesia 61, lançando um desafio contra a sublimação idealizada dos ícones do passadismo nostálgico” (p. 238). Num e noutro caso, ou numa e noutra escritora, “nem [se] exclui a articulação com a (chamada) História universal, nem [se] prescinde do tratamento paritário de [uma] negociação” em que se cumpre a “construção de uma ‘história-mulher’” (p. 239).

Partir então do princípio de que a tradição literária está para além do sexo, ou que ela é, em termos de quem escreve, de quem lê, de quem legitima, neutra – é cair numa falácia relativamente à cultura homológica e patriarcal que é inevitavelmente, como denuncia Isabel Barreno, “sexuada à partida”: “trata-se sempre da cultura do homem, ou dos homens, da ciência do homem, dos valores eternos do homem, etc., etc.” (Barreno, 1985). É esta posição que é partilhada por Anna Klobucka, ao definir como objectivos seus “trazer para o plano de discussão da produção poética as múltiplas perguntas – que disfarçadamente sempre nela estiveram presentes – sobre as relações entre a sexualidade marcada pela diferença e a textualidade marcada pelo sexo; entre os géneros literários, gramaticais e fisiológicos; e, finalmente (…), entre as configurações poéticas da identidade sexual e os processos políticos da execução da autoridade cultural” (p. 78).

Todavia, porque se trata de construção simbólica, e enquanto encarada como subversão discursiva, a poesia entendida no abstracto não discrimina sexualmente. Mas as instâncias que a regulam e a legitimam (a crítica literária, as teorias estéticas, a teoria, em suma), essas têm-no feito. Ciente de como é difícil saber em poesia onde termina o rosto e começa a máscara, a tese do livro de Anna Klobucka centra-se justamente, e de forma muito inteligente, nessas instâncias reguladoras do “poético” – que tem graves implicações no que é convencionalmente chamado “feminino”, ou no que é produzido por sujeitos que, social e culturalmente, caem na categoria “mulher”. Anna Klobucka demonstra assim como, porque o sexo das mulheres não lhes permitiu (e continua a dificultar) o acesso a certas estruturas de poder, a “condição” de ser mulher, a transparecer no texto, não pode constituir-se como um mero reflexo ou imagem inversa do que se passa no caso masculino: como pode a escrita da mulher inscrever-se no “não poder” ou descrever-se num texto cujas estruturas e ditames, canonicamente, não foram definidas pelo sujeito feminino, precisamente porque o seu acesso ao poder, mesmo o da escrita, foi de início quase inexistente ou escassamente (quando nunca) divulgado? Por isso se mostra como tão importante é reflectir sobre “o fundamento e os processos imaginativos e ideológicos que presidem à construção desse feminino ou masculino no tecido poético” (Santos e Amaral, 1997).

Lembro, para terminar, as palavras de Maria Irene Ramalho de Sousa Santos, proferidas há já mais de dez anos no Colóquio sobre “O Cânone nos Estudos Anglo-Americanos” e ainda hoje actuais: “(…) qualquer definição do que é ‘melhor’ ou ‘correcto’, isto é, qualquer definição do cânone, tem de estar sempre disponível para a redefinição. O debate em causa pressupõe, por conseguinte, o fenómeno mesmo da canonização, ou seja, o facto de que o saber é legislável e é legislado pela inclusão e pela exclusão (o que entra ou não nos programas, o que é ou não aceite para publicação, quem é ou não promovido) (Santos, 1998).” Escreve Anna Klobucka que o seu ensaio “se baseia (…) no pressuposto de que é através da leitura atenta e concretamente focalizada da produção literária de mulheres escritoras escrevendo(-se) enquanto mulheres” (p. 41) que se pode falar de um lugar para as mulheres no “contrato simbólico” a que se referia Kristeva. Ora esse pressuposto inscreve-se num percurso que, sendo, como lhe chamei no início desta breve apresentação, de “re-visitação” é também de criatividade e criação. Porque, ao instaurá-las definitivamente num cânone literário e cultural, específico e universal (e o trabalho com Florbela Espanca é, nesta medida e a todos os títulos, notável), Anna Klobucka parece fechar um círculo sobre os estudos das mulheres. Mas abre-o também e permite-lhe a expansão – mostrando como as vozes das escritoras que convoca são prova daquilo que Adrienne Rich, num poema de 1972 (“Diving into the Wreck”), dizia levar consigo para mergulhar até ao navio naufragado (metáfora para a história das mulheres e da sua escrita): “uma faca, uma máquina fotográfica / um livro de mitos / onde / os nossos nomes não aparecem”; e profetizando ainda o que Rich pre-via como uma futura via desejável – e possível: “o sonho de uma língua comum”.»

Ana Luísa Amaral

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