Luís Mourão: «A vida com árvores»

Luís Mourão é Professor Coordenador da Escola Superior de Educação de Viana do Castelo. Tem dedicado a sua actividade crítica e ensaística sobretudo à ficção portuguesa dos séculos XIX e XX, com especial demora em autores como Raúl Brandão, Carlos de Oliveira, Vergílio Ferreira, Augusto Abelaira, Agustina Bessa-Luís, Maria Velho da Costa e, ultimamente, Gonçalo M. Tavares. Na Angelus Novus publicou os livros Um Romance de Impoder, Vergílio Ferreira. Excesso, Escassez, Resto e Sei que já não e todavia ainda. Com Américo António Lindeza Diogo e Osvaldo Manuel Silvestre dirigiu a revista Zentralpark. Agradecemos a Luís Mourão esta colaboração com o blogue da Angelus Novus, que é também seu, como sucede com todos os nossos autores.

Eu sei que isto vai soar mal, e contudo é uma verdade simples, desinteressada e benévola: praticamente não sei nada de árvores, porque gosto muito delas. Não faço analogia para outros campos da minha vida, muito menos para o das relações humanas, mas com árvores e algumas outras coisas que não vêm agora ao caso é isto mesmo: a minha ignorância é a medida do meu amor.

Confundo quase tudo. Por exemplo: fora do tempo dos frutos, não sei distinguir um castanheiro duma cerejeira ou duma nogueira. Aliás,  começo por não saber distinguir entre as árvores de fruto e as outras. Mas antes disso ainda, não sei sequer se tal distinção é operativa a ponto de ser possível fazê-la assim sem mais.

Não sei distinguir entre árvores de folha perene e árvores de folha caduca, a não ser quando deparo com a nudez de algumas. Mas só o simples facto de saber que existe essa diferença incomoda-me como uma imperfeição no meu sentimento de gostar das árvores. Tento pensar em perenes e caducas apenas quando vejo as folhas no chão e sou incapaz de apontar entre elas as que caíram apesar de o nome afirmar o contrário. Mas cairão? Acho que sim, suponho que sim, não o sei ao certo, ainda bem que não o sei ao certo.

Não é que eu tenha problemas com o conhecimento. Mas começar a conhecer é uma longa viagem, e no princípio dela o que existe mais é a sensação da partida: afastamo-nos do que queremos conhecer precisamente porque desejamos um dia chegar a esse outro lugar onde conhecer será ir por dentro do próprio movimento do amor. A nossa vida é breve, o conhecimento longo, e o destino da minha viagem não são as árvores. Por isso, começar a conhecê-las só iria atrapalhar. Ficaria sempre a meio da jornada, com uma ciência vastamente incompleta mas já suficiente para uma enorme distância e sensação de estranheza: que é afinal aquilo?

A vida é generosa porque nos permite também amar sem conhecer, ou pelo menos sem a consciência e o esforço realmente teórico de conhecer. É assim que amo as árvores. Delas para mim, sei esta coisa essencial: que na minha meninice as trepava, que adulto lhes lancei a escada, que mais adulto ainda me encostei a elas, que agora as vejo.

Depois… bem, depois há mais coisas dentro de cada uma destas coisas, e outras mais que sem estarem fora destas coisas também não estão propriamente dentro. Ficam para a próxima estação.

Luís Mourão

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