Abel Barros Baptista, tradutor de Adam Phillips, sobre o autor e sobre «Monogamia»

Abel

 

 

 

 

 

 

 

 

Abel Barros Baptista, Professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, ensaísta premiado e cronista, publicou já na Angelus Novus um magnífico livro de crónicas – A Infelicidade pela Bibliografia -, tendo ainda organizado o primeiro volume da colecção ReVisões, sobre A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós. Na mesma colecção, coordenou um volume sobre um dos grandes textos da literatura portuguesa, Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, autor cujos estudos fortemente renovou.

Ouvimo-lo sobre as questões levantadas pela tradução, a todos os títulos exemplar, que fez de Monogamia, de Adam Phillips, obra que editámos em 2008, inaugurando a edição das obras do famoso psicanalista e ensaísta inglês em Portugal.

P. O aforismo é um género definível pela brevidade, densidade e, ao mesmo tempo, ambiguidade de sentidos, uma vez que o texto deve produzir um certo impacto de teor interrogativo na mente do leitor. Mas isto torna-o de tradução difícil, ou não?

R. Imagino que haja uma dificuldade genérica semelhante à do epigrama, do epitáfio ou do soneto: as formas brevíssimas apresentam-se ocupando espaço exíguo, de modo que a própria materialidade da inscrição torna a falha conspícua. A suposta facilidade da prosa corrida é muito mais a facilidade de esconder o deslize num mar de palavras ou numa mancha demasiado grande para que um erro mínimo se note. No aforismo o erro pode tomar logo conta da percepção do leitor. Uma maçada.

P. No caso de «Monogamia», quais foram as principais dificuldades de tradução?

R. Desde logo essa, a indicada acima: evitar deslizes flagrantes que, pela brevidade do aforismo, se tornam flagrantíssimos. A outra é o próprio termo «monogamia», que não tem em português o mesmo valor do inglês corrente, americano ou outro. No nosso vocabulário para descrever as ligações sexuais, o termo monogamia tem curso técnico, decerto, mas pouco uso no vulgar, na conversa trivial ou no drama quotidiano. Uma frase que no original recorre aos termos vulgares pode parecer em português um fragmento de ensaio sobre ralações de antropologia. E vendo bem não é mau que assim seja: o estranhamento é outro dos efeitos do aforismo, e esse, por via da tradução, pode ajudar muito.

A outra dificuldade é conexa com esta, mas talvez de efeito contrário: muito daquele vocabulário tem curso normal nas séries de televisão que tratam de «relationships», a bem dizer uma cultura urbana, ou mesmo popular já enraizada. Uma observação técnica, suportada por anos de reflexão ou de experiência profissional, pode parecer arrancar a um episódio de Friends (sobretudo naquela série em que o mais choninhas se mete com aquela mandona, cheia de  compulsões e manias e depois passam a vida em negociações implícitas e explícitas, etc.).

P. Do que gostas mais no livro? E menos?

R. Acho que é a mesma coisa: a brevidade. Por vezes fulgurante, capaz de deixar dito o que há a dizer numa única frase. Outras vezes defeituosa, quando o aforismo se torna braquilógico: diz o que não se comprova ou mesmo se entende senão com elaborações espaçosas.

P. Uma vez que foste tu quem recomendou o autor à Angelus Novus, podes dizer o que, em teu entender, justifica a leitura de Adam Phillips?

R. Sobretudo tratar-se de um ensaísta, o que julgo raro nos domínios da psicanálise. Caracteriza-o uma escrita viva, ágil e de vocabulário preciso, isto é, que o leitor pode aprender à medida que lê. A uma variedade de interesses e de leituras, Adam Phillips junta o aparentemente contrário, a fixação fascinada no tema do desejo e da contingência, isto é, do desejo perante a contingência. Disso, aliás, a figura da monogamia é exemplo.

P. Os blogues trouxeram, pelo menos na aparência, um renovar de interesse na forma breve e no aforismo. Mas às vezes essa «voga» do aforismo nos blogues parece confundir-se com desistência ou incapacidade de produzir esforços mais longos de reflexão e escrita. Isto é válido para toda a prática aforística, ou o «meio» reforça e induz essa deriva, no caso dos blogues?

R. O meio tem tudo para induzir a brevidade. O espaço da inscrição sugere que brevidade é sinónimo de legibilidade ou de atracção: presume-se que o que não se contém no espaço de um écran de portátil aliena leitores de imediato. Depois, o meio, pela possibilidade de publicação imediata, alia-se a uma das angústias notórias por que passa quem escreve: a pressa de acabar, de completar a forma. O que fazer com essa brevidade é outra coisa. Que haja genuína brevidade e falsa brevidade, é também outra coisa. Que a brevidade em si mesma não traga vantagem, outro problema ainda. Mas afinal que importa? Tudo é breve.

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Uma resposta

  1. “A vida é breve, a arte é longa, a ocasião fugidia, a experiência enganosa, o julgamento difícil.”

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