Gustavo Rubim e a «Arte de Sublinhar»

O que se segue é apenas um pedaço de uma entrevista – magnífica, brilhante, agudíssima: o leitor escolha – que Gustavo Rubim nos deu aquando da edição, em 2003, do – magnífico, brilhante, agudíssimo: escolhemos nós – volume chamado Arte de Sublinhar. O resto da entrevista pode ser lido aqui. Não há muita gente a pensar assim sobre literatura. Em qualquer lugar onde haja gente a pensar sobre isso. E nunca há assim tanta, a bem dizer. Em todo o caso, se nunca leu este livro não sabe mesmo o que perdeu. Mas, claro!, não é obrigado a perdê-lo para sempre.
Este livro vai dedicado a Cidalina Carvalheiro e não há motivos para envolver em segredo a dedicatória. Formada em Coimbra, Cidalina Carvalheiro era, há vinte e tal anos atrás, uma jovem e extraordinária professora de Português (de Latim e de Grego) de cujo ensino só um rematado idiota poderia sair intacto. Dos meus colegas, não conheci ninguém que lhe ficasse indiferente e, no meu caso, fiquei marcado, aos 14 ou 15 anos, para o resto da vida. Ponto crucial: ter ensinado que os livros eram para se sublinhar ― e, por competente corolário, ter ensinado como é que se sublinhavam. Fez isto com livros muito diversos. Quando chegou ao ponto de o fazer com Os Lusíadas, já não sobravam dúvidas de que acontecia ali qualquer coisa de irreversível. Era uma turma inteira debruçada sobre os versos, alguém a lê-los em voz alta, Cidalina corrigindo a leitura, a máxima concentração em exercício. Mas, depois, era preciso mexermo-nos: sublinhar, anotar, verificar, distinguir, reler, discutir, escrever. De longe, as aulas mais disciplinadas; de longe, as mais animadas (as únicas a que não se faltava).
 
A memória destes tempos recuados (e felizes, hélas!) ensina-me, ainda, duas lições: 1) só há sublinhado se, antes dele, houver uma linha já escrita que se possa sublinhar; 2) na poesia ou na prosa, «letra morta» é consequência de leitores inertes. Isto foi o que eu percebi na altura. Hoje, sem abandonar a simplicidade da história, digo: não sei se os textos «existem», sei que quando nós lá chegamos, os textos já lá estavam antes de nós. E ainda: se o leitor não fizer nada, o que já lá estava jamais fará espécie nenhuma de sentido. Ou o leitor está vivo ou nada feito. Com Cidalina Carvalheiro, aprendia-se que, quando de facto lê, o leitor é o mais vivo de todos os seres vivos.
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