Inquérito sobre a Coca-Cola: Américo A. Lindeza Diogo

Américo António Lindeza Diogo é Professor Catedrático da Universidade do Minho. Com doutoramento sobre as cantigas de escárnio e mal-dizer, tem obra vasta sobre praticamente todos os períodos da literatura portuguesa, com especial destaque para o período medieval e o moderno e para autores como Eça, Pessoa, Carlos de Oliveira, Herberto Helder, António Franco Alexandre, Adília Lopes, entre outros. Publicou ainda ensaios e livros sobre questões de teoria e estética, literatura infantil e literatura brasileira.

Na Angelus Novus, de que foi co-fundador, publicou livros sobre Clarice Lispector, Sá de Miranda, Almeida Garrett ou Fernando Pessoa, editou uma antologia da poesia trovadoresca, e foi co-director de Zentralpark e de Inimigo Rumor.

P. Gosta de Coca-Cola? Numa escala de 0 a 5, em que 5 significa Muitíssimo, 4 Muito, 3 Assim-assim, 2 Gosto pouco, 1 Não gosto, e 0 Detesto, que classificação dá à Coca-Cola?

R. Assim-assim. Em resistência cultural, comme ci, comme ça.

P. A sua opinião sobre a Coca-Cola mantém-se, desde a primeira vez que a provou, ou alterou-se?

R. A mesma, e assim-assim o consumo. A coca-cola não satisfaz e a gente repete. É humana, estilo realismo do capital. A única bebida fria que satisfaz é o leite. O leite não é humano, mas mãe.

P. Qual destas duas frases prefere? E porquê? (i) «A água suja do imperialismo»; (ii) «Os filhos de Marx e da Coca-Cola».

R. «Os filhos de Marx e da Coca-Cola». A expressão designa uma porção razoável do enunciador de «A água suja do imperialismo».

P. Como reescreveria hoje a última frase: «Os filhos de Marx e da Coca-Cola»?

R. «Os filhos da puta»? Caso em que a voz do pai Marx serve de unguento para os arranhões da voz da bitch

P. Comente brevemente o poema de Décio Pignatari sobre a Coca-Cola.

R. O poema é revelações por comutação de letras e formas, ora seja, o poema é crítica ideológica esperta. O horizontal normal sem ênfase (beba coca cola) é descaro e pressão injuntiva na vertical (beba babe / beba babe / caco cola); a coca não tem valor (é caco em si); o ninguém que disse o beba e o ninguém a quem o beba se dirige ocultavam um interesse dito na língua do interesse, imperial (babe). Acresce, em polissémico, que a gente bebe até babar.

As linhas horizontais também contam. A segunda põe de face a cola e o súbdito do império (babe). A terceira dá a dependência pelo vício (beba coca). A quarta autoriza o verbo babar e troca as voltas à primeira. Quem ‘bebe coca cola’ acaba junkie sem dignidade. É um caco que baba cola. Assim, o normal convite (beba coca cola) revela ser um sinistro «babe cola, caco».

Autorizada pela combinatória, a cloaca final revela que o poema era um comentário — vá lá, tornado vívido — àquela grande frase «A água suja do imperialismo».

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2 Respostas

  1. Brilhante!

    O melhor é fechar o inquérito por aqui. Não há otimismo que chegue para acreditar que se possa melhor que isto. Sequer igual.

  2. Em tempos disse que eram boas respostas. Continuam.
    Mas o inquérito continua… também com o Manuel Gusmão.

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