Inquérito sobre a Coca-Cola: Pedro Serra

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Pedro Serra é Professor de Filologia Portuguesa na Universidade de Salamanca. A sua obra divide-se entre um trabalho filológico patente nas edições de textos clássicos da literatura e cultura portuguesas – de D. Francisco Manuel de Melo a Cruz e Silva, este em co-autoria com Ana María García Martín – e um trabalho ensaístico que se tem demorado sobretudo no arco que vai do Barroco à contemporaneidade, tratando em especial autores como Fidelino de Figueiredo, Carlos de Oliveira, Ruy Belo, António Franco Alexandre, etc.

Coordenou, com Osvaldo Manuel Silvestre, a antologia Século de Ouro (co-edição Angelus Novus e Livros Cotovia), e foi um dos responsáveis pela Inimigo Rumor, na sua fase brasileira-portuguesa.

P. Gosta de Coca-Cola? Numa escala de 0 a 5, em que 5 significa Muitíssimo, 4 Muito, 3 Assim-assim, 2 Gosto pouco, 1 Não gosto, e 0 Detesto, que classificação dá à Coca-Cola?

R. Não gosto nem desgosto: é-me, em grande medida, indiferente. Um sabor familiar, sem história. Ainda assim, aceitando classificar, pontuo a Coca-Cola com uma qualquer fracção entre o 1 e o 2, que não discrimino por ser um intervalo que obedece a um algoritmo irrepresentável nesta oportunidade.

P. A sua opinião sobre a Coca-Cola mantém-se, desde a primeira vez que a provou, ou alterou-se?

R. Não me lembro bem da primeira vez que bebi Coca-Cola. Bem vistas as coisas, como todas as primeiras vezes, deve ter sido uma segunda: antes de vagamente beber Coca-Cola tenho a ideia vaga de ter bebido Canada Dry. Como creio que na pergunta não deixa de reverberar uma consabida estesia pessoana, tenho de dizer que a Coca-Cola entrou na minha vida sem a ter estranhado (nem a ela, Coca-Cola, nem a ela, vida). Sendo assim, nem sequer se entranhou, nem posso garantir que o que bebi até agora como sendo Coca-Cola seja a Coca-Cola dos que lêem este inquérito, ou provar que de facto o é. Ainda ontem comprei uma bandeja de asas de frango – em espanhol, “alitas de pollo” – para depois descobrir, já na frigideira, que eran coxas – em espanhol, “contramuslos”. Em certos lugares, por exemplo nos Estados Unidos da América, podes chegar a receber grandes indemnizações quando acontece uma coisa assim. É possível que o mesmo pudesse acontecer com uma garrafa de Coca-Cola cujo líquido fosse de Canada Dry.

P. Qual destas duas frases prefere? E porquê? (i) «A água suja do imperialismo»; (ii) «Os filhos de Marx e da Coca-Cola».

R. Ora bem. Não encontro uma relação necessária entre a bebida e as frases propostas. Posto isto, prefiro a primeira frase para evitar as águas furtadas hegelianas da segunda. É realmente por exclusão de partes que opto por “A água suja do imperialismo”: fazendo da sujidade um possível mundo possível, ainda assim non olet. Escolho a primeira frase porque me parece um slogan satisfatório para vender ainda mais Coca-Cola e aceito perfeitamente que se faça uma revolução pela Coca-Cola, ou que alguém mude de vida por ter bebido Coca-Cola. Sobre a Coca-Cola já me pronunciei e, ainda que não seja pedido pelo inquérito, aproveito para pontuar a leitura de Marx, de 0 a 5, com um “muitíssimo” 5.

P. Como reescreveria hoje a última frase: «Os filhos de Marx e da Coca-Cola»?

R. Reescreveria a frase nos seguintes termos: “Os enteados de Groucho Marx e da Coca-Cola”. Substituo a cópula contra naturam de um homem e uma garrafa por um casto “mariage de raison” com família de conveniência. Groucho Marx e a Coca-Cola, que já não são propriamente anjos jovens nesta história, chegam ao casamento sem a dialéctica necessidade de fazer filhos descendentes.

P. Comente brevemente o poema de Décio Pignatari sobre a Coca-Cola.

R. Um belo poema que metamorfoseia o enunciado injuntivo “beba coca cola”, radicalmente lúdico et pour cause “político”. Desmontagem impiedosa do slogan, desentranhado nele o nome da in-verdade generalizada: a cloaca. Controladas atracções e repulsões de sons, grafias, semas e étimos. Bebes ou babas-te? A injunção desmontada é só baboseira? Há cola para tanto caco, já que tudo é caco? Poema dos subúrbios do capitalismo, que é todo o lugar do imperium onde a mercadoria nunca é de qualidade. A mercadoria é, digamos, para babacas. O saldo de tudo é o abjecto: a cloaca justamente. Por aquela coisa de que uma imagem empurra a outra imagem, seja-me permitido recordar e citar um poema do Luis Javier Moreno, ‘Intenciones de la caligrafia comercial’, incluído no livro Rápida prata: “Intenções da Caligrafia Comercial”: “Os dois cês, na letra do desenho, / da escrita da Coca-Cola / rasgam a voz em direcção contrária, / pela sorte que teve tanta sede satisfeita. / O primeiro cê acolhe por baixo, / sublinhando a coca do composto / (na expansão primeira do xarope, trazida da Bolívia, simples e pura) e o cê da cauda detrás de um caracol / alonga o traço entrando pela cavidade / vertical, feminina, do lê / como um acto ritual de iniciações / para a juventude americana, / e que tão bem foi aceite no resto do mundo. / Um hífen une a acção das palavras / ao prazer da passagem pela traqueia / na ânsia mais jovem da boca. / É incrível os tragos que a bebida tem!”. Enfim, um poema também a braços com a língua do império posta em crise.

P.S.: A repórter Silvia Blanco, que acompanhou o poeta Leopoldo María Panero durante um dia na Feira do Livro de Madrid de 2007, recolhe as seguintes frases num artigo do El País: “‘A mí lo que me gustaría es rodar un videoclip de Coca-Cola o de tabaco’, dice Panero entusiasmado. ‘Diría: ¡Coca-Cola, la bebida de los dioses!’ y estalla a reír.” O poeta já só bebe Coca-Cola light.


@ Cristóbal Manuel, El País, 10/06/2007


@ Antonio García Villarán


@ loqasto

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