Até ao 25 de Abril, Cardina x 4

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   #4

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A afirmação da esquerda radical durante os anos sessenta e setenta fez-se de caminhos de renovação teórica e experimentação geracional fortemente apostados em transformar o existente. Apesar da sua configuração múltipla e por vezes conflitual, este cosmos rebelde teve características comuns, que foram da rejeição das hegemonias bipolares da guerra fria à crítica aos modos tradicionais de autoridade; da recusa do imperialismo à sedução por um novo imaginário de combate; da produção e consumo de formas artísticas de matriz contracultural à valorização do papel da juventude como motor da transformação social.
A fecundidade deste movimento não se revelou num momento preciso de ruptura, como sucedeu em 1789 ou em 1917, mas através de um processo continuado que foi modificando substancialmente o campo social e político e as aspirações culturais de sectores significativos da população. Na realidade, se a esquerda radical adjudicou a si mesma a tarefa prometeica de fazer o proletariado cumprir as predições do materialismo histórico, o certo é que foi também a partir desse húmus que se desenvolveram
novos tópicos contestatários que, matizando os conflitos de classe, acentuaram o enfoque em formas mais plurais de libertação.
Em Portugal, este pequeno universo em expansão definiu-se, de modo ambivalente, na recusa do Estado Novo e na busca de uma linha de demarcação relativamente ao PCP, ainda que por vezes, nomeadamente no campo maoísta, se tenham adoptado práticas e discursos implícita ou explicitamente oriundos da tradição comunista. Por outro lado, a demanda de traços anticapitalistas e internacionalistas e a sua particular radicação nos territórios juvenis ajuda a explicar o enfoque decisivo na questão colonial.
Na verdade, se o mostruário programático das organizações foi muitas vezes reticente na adopção explícita de práticas e discursos que fossem além do marxismo-leninismo mais estrito, não há dúvida que foi também no difuso território do radicalismo – não necessariamente militante mas nem por isso menos politizado – que se exprimiram alguns dos contornos da mudança cultural ocorrida nos designados «longos anos sessenta». Deste modo, o livro que se apresenta não pretende apenas fazer a história e a pré-história de alguns partidos de esquerda que marcaram em Portugal o último quartel do século XX, mas também deixar entrevista a maneira como esta constelação radical ajudou a construir uma cultura de conflito e um desejo de modernidade ao qual o presente não permanece alheio.

  Miguel CardinaA Esquerda Radical – p. 111-112

 

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