Inquérito sobre a Coca-Cola: Jorge Fernandes da Silveira

Jorge Fernandes da Silveira é Professor Titular da Faculdade de Letras da UFRJ. Professor dos mais prestigiados da universidade brasileira na área dos Estudos Portugueses, tem obra vasta, dispersa por revistas de referência e editoras de Portugal e Brasil. Destaquem-se, além de obras que organizou e outras de cariz antológico (sobre Cesário Verde ou Luiza Neto Jorge), os livros Portugal Maio de Poesia 61 (Lisboa, 1986); O Beijo Partido – Uma Leitura de O Beijo Dado Mais Tarde: Introdução à Obra de Llansol (Rio de Janeiro, 2004); Lápide & Versão: O Texto Epigráfico de Fiama Hasse Pais Brandão (Rio de Janeiro, 2006); O Tejo é um Rio Controverso – António José Saraiva contra Luís Vaz de Camões (Rio de Janeiro, 2008). Na Angelus Novus publicou Verso com verso [Estudos de Poesia Portuguesa], em 2003. Como aqui noticiámos, foi recentemente objecto de homenagem na sua universidade, por ocasião do aniversário dos seus 40 anos de docência.

P. Gosta de Coca-Cola? Numa escala de 0 a 5, em que 5 significa Muitíssimo, 4 Muito, 3 Assim-assim, 2 Gosto pouco, 1 Não gosto, e 0 Detesto, que classificação dá à Coca-Cola?

R. Assim-assim, 3. Já que acho a expressão deliciosa e como ando igualmente assim-assim das pernas me lembro saudoso de que nas quase 30 maratonas (42km) em que andei metido o instante de maior prazer nas 4 horas de sacrifício eram os goles de coca misturados com água no meio das pedras do caminho (sem fôlego e sem vírgulas).

P. A sua opinião sobre a Coca-Cola mantém-se, desde a primeira vez que a provou, ou alterou-se?

R. Não gosto de coca, de coca-cola. Gosto do gosto memorável das misturas de traçado afetivo e político: com água (levanta perna-de-pau), com cachaça (samba-em-berlim), com rum (cuba-libre)…

P. Qual destas duas frases prefere? E porquê? (i) «A água suja do imperialismo»; (ii) «Os filhos de Marx e da Coca-Cola».

R. Entre as duas a minha razão balança. Fico com a segunda, porém. Porque é a expressão adequada aos tempos de consumo de todas as drogas. “A água suja do imperialismo”, sim, talvez, mas fonte de mil utilidades de limpeza, do estômago à sanita (a “cloaca”). “Os filhos de Marx e da Coca-Cola”? Sim…

P. Como reescreveria hoje a última frase: «Os filhos de Marx e da Coca-Cola»?

R. Cada geração tem a McDeleine que lhe é imposta.

P. Comente brevemente o poema de Décio Pignatari sobre a Coca-Cola.

R. Tenho a impressão de que respondo a esta pergunta nas quatro anteriores. Como veículo de propaganda, a Coca-Cola é coisa a ser consumida, repetitivamente; a representação moderna, “modernista”, dessa mensagem está no poema de Décio Pignatari: entre o canto gregoriano e a forma vanguardista de montagem e colagem a Coca-Cola é, concretamente, aplaudida e apupada. Como na apresentação flutuante da linha da logomarca do produto no anúncio. Ou na voz de um genuíno tropicalista que insiste-não-desiste em diferentes formações, nas várias composições de si mesmo: “eu nunca mais fui à escola/ eu tomo uma coca-cola/ porque não…” (“Alegria Alegria”, Caetano Veloso)

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