Miguel Cardina: entrevista sobre «A Esquerda Radical»

Miguel Cardina é investigador do CES e publicou na Angelus Novus A Tradição da Contestação. Acaba de publicar, na série de História da Biblioteca Mínima, o volume O Essencial sobre A Esquerda Radical. Entrevistámos o autor sobre o seu livro mais recente, que depois de ter sido apresentado em Lisboa na passada quarta-feira, sê-lo-á hoje em Coimbra.

P. Porquê “esquerda radical” e não “extrema-esquerda”, como é mais habitual?

R. Uso ambos os termos ao longo do texto, mas optei pelo primeiro como título por remeter para um universo de contestação que é não só político como também cultural, em sentido lato. É certo que o livro trata sobretudo do radicalismo político, mas não se pode compreendê-lo se não tivermos em conta as mudanças ao nível das dos discursos, das sociabilidades, dos gostos e práticas culturais que emergem nos anos sessenta e setenta, que é o período no qual centro a atenção.

P. Não lhe parece que a esquerda radical em Portugal clona de certa maneira a francesa?

R. A França é sem dúvida fundamental para se compreender a esquerda radical portuguesa daqueles anos. Antes de mais porque muita da militância era desenvolvida a partir do exílio parisiense ou em articulação com ele. E também, é claro, porque vivíamos num Portugal cuja elite ainda era maioritariamente francófona, se bem que as coisas se começam a alterar nessa altura. Por outro lado, há elementos específicos associados à realidade portuguesa que estão muito presentes na esquerda radical do país, e que naturalmente não se podem encontrar da mesma forma em França: é o caso da guerra colonial e das práticas e discursos que contra ela são mobilizados.

P. A linha “reformista” do PCP foi ou não decisiva para o progresso dos radicais?

R. A primeira e mais nítida configuração esquerdista nos anos 60 – a ruptura de Francisco Martins Rodrigues com a sucessiva criação da FAP e do CMLP – é antes de mais uma ruptura com o “reformismo” do PCP. Noutras áreas, grupos como o MAR, a LUAR, etc., criticavam o “pacifismo” do PCP e as teses do “levantamento nacional” e da união de “todos os portugueses honrados”, vistas como conciliatórias e pouco arrojadas. Mas parece-me que o elemento central – não o único – que explica o progresso do radicalismo naqueles anos foi a posição do PCP de não estimular a deserção.

P. O PCP chamava pejorativamente “contestas” aos radicais. Como interpreta isto?

R. A matriz comunista sempre foi muito crítica a respeito do voluntarismo e da impaciência política. Lenine chamou ao esquerdismo “doença infantil do comunismo”. Ora, o esquerdismo naqueles anos, sobretudo nos contextos do Maio de 68, ficou muito associado à palavra “contestação”. Não é por acaso que a expressão é muito usada para caracterizar um sector heterogéneo presente na crise académica de 69, em Coimbra. O que se procurava ridicularizar era o entendimento da política com ligada a uma espécie de contestação metafísica do mundo e, em certa medida, a ideia de que “tudo é político”. Uma ideia muito cara ao radicalismo da curva dos anos sessenta para os anos setenta, que o PCP tinha bastante dificuldade em entender.

P. O seu livro anterior, A Tradição da Contestação, abordava as lutas estudantis na academia coimbrã ao longo de 60 e 70. Agora, A Esquerda Radical trata o mesmo período mas em espectro mais alargado. Quais são, porém, as sobreposições das duas obras? Tratar da luta na academia nesse período é tratar necessariamente da esquerda radical? Ou, antes, das lutas dentro da esquerda, e muitas vezes contra a sua radicalização (do lado do PCP)?

R. A sobreposição é clara: falar das lutas estudantis na primeira metade da década de setenta é falar também da emergência de uma esquerda à esquerda do PCP, que renovou as práticas e as bandeiras de luta que vinham dos anos anteriores. As esquerdas radicais não eram as únicas que se movimentavam nos meios estudantis, mas é este sector plural que irrompe com novidade nestes anos e que se torna mesmo hegemónico em alguns territórios sociais. 

P. Existe uma “esquerda radical” hoje? Dito de outra forma: o Bloco de Esquerda é o “herdeiro natural” do legado (ou legados) da esquerda radical? E, admitindo que a resposta é positiva, o que significa isso?

R. Várias perguntas com diferentes respostas. Vamos por partes: existe hoje uma esquerda radical que ainda pensa e age de acordo com os cânones da esquerda radical das décadas de 1960 e 1970. Tem pequenas expressões organizativas, mas é sobretudo uma maneira de ver o mundo e a política que também conflui com modos de activismo presentes no Bloco de Esquerda. Mais complicada é a questão de saber se o Bloco de Esquerda é o “herdeiro natural” desse legado. Eu diria que é e não é. Por um lado, o BE tem uma parte da sua origem associada a partidos de extrema-esquerda, de matriz trotskista e maoísta, que decidem operar uma espécie de salto qualitativo que lhes permitisse sair do gueto no qual pareciam estar condenar a ficar. Mais: muitas das suas bandeiras de luta, que em última análise remetem para um entendimento da opressão – e da emancipação – como realidade plural, tiveram a sua génese ou reconfiguração no radicalismo dos anos sessenta e setenta. Por outro lado, é hoje evidente que as melhores e mais qualificadas intervenções do BE são feitas a partir do Parlamento, para onde canalizam boa parte das suas energias. Este aspecto, bem como uma postura mais dialogante para com os restantes partidos de esquerda, são, em certa medida, uma novidade que não se encontra no radicalismo daqueles anos.

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