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Perante um discurso assim do vértice do regime, «filho do campo», não é de admirar que o discurso oficial tenha sido tão impregnado por uma exaltação ruralista, de teor bucólico e revivalista.

O corporativismo será apresentado como a fórmula política e institucional que melhor corresponde à secular identidade da sociedade portuguesa. Nele tem particular relevância a institucionalização corporativa rural, com as casas do povo, os grémios e os organismos específicos de coordenação económica, coadjuvados pela FNAT e o Instituto Nacional do Trabalho e Previdência (INTP), e, mais tarde, pela Junta Central das Casas do Povo (JCCP), Junta de Acção Social (JAS) e Corporação da Lavoura. Não é já só o campo que representa a expressão máxima duma identidade nacional, a estrutura corporativa é também ela apresentada como uma criação ideal. As casas do povo são erigidas no modelo perfeito desta simbiose entre o regime e o povo, personificando, ao nível microcósmico, uma relação umbilical que possibilita a vitalidade do corpo nacional. António Júlio de Castro Fernandes, um dos dirigentes e doutrinadores corporativistas mais influenciado pela lição fascista (sobre a sua missão de estudo em Itália editou o livro O corporativismo fascista, de 1938), afirmará que, na «organização corporativa», aquelas são «a concepção mais portuguesa e mais adequada à nossa vida tradicional». Por sua vez, seria na «vida rural» que cada povo realizaria o máximo do «particular, a mais alta proporção do nacional». Proporcionaria o modo de vida mais saudável, regrado e enriquecedor, em oposição aos vícios, desgaste e despersonalização do mundo urbano:

«O trabalho na cidade, na fábrica, no armazém ou no escritório, é caracterizado pela fealdade, pela monotonia, pela rotina, que cansam, deprimem e envilecem […] O trabalho rural, pelo contrário, inspira beleza, exige variedade e excita o engenho. Na agricultura, o trabalho, realizado num ambiente são, varia com o calendário. […] Se quisermos, numa síntese, distinguir o trabalhador rural do trabalhador urbano, poderemos dizer que o primeiro é o homem de carácter, com personalidade, e o segundo o homem vulgar, o homem comum, o homem de massa» (idem, p. 80).

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