Um resenha de «Dois diálogos entre um padre e um moribundo»

«A editora Angelus Novus, de Coimbra, criou este ano uma nova colecção, “Experimente no Sofá”, constituída por livros de pequena dimensão, destinados precisamente a uma leitura rápida e estimulante. Promete-se a publicação de A prisão do Gungunhana, de Mouzinho de Albuquerque, e de Os primeiros relatos de Fátima, mas, para já, estão disponíveis os dois volumes iniciais: Dois diálogos entre um padre e um moribundo, do Marquês de Sade e Nuno Júdice, e Quinze dias no deserto americano, de Alexis de Tocqueville.

Destaquemos o primeiro, justamente por se tratar do volume inaugural da colecção. O texto do divino Marquês, “Diálogo entre um padre e um moribundo”, terá sido escrito em 1782, mas foi apenas publicado em 1926, ou seja, numa época muito mais tolerante do que aquela em que foi produzido. No entanto muitas das objecções à possibilidade da existência de um Deus omnipotente e misericordioso avançadas pelo moribundo ateu mantinham, como ainda mantêm, plena actualidade. Se Deus é o criador do universo, “quem tudo fez, tudo criou”, como sustenta o sacerdote, por que motivo teria criado, pergunta o moribundo, “uma natureza corrupta”.

Não admitindo qualquer tipo de superioridade da religião cristã face aos outros grandes cultos (muçulmano, judaico, confucionista) e colocando-se do lado da razão contra o dogma e a superstição, Sade chega mesmo a apresentar (através do ateu) argumentos que parecem próprios do ateísmo científico contemporâneo: “Prova-me a inércia da matéria, e eu conceder-te-ei o teu criador; prova-me que a natureza não se basta a si própria, e autorizo-te a pressupor um senhor”. E sendo o Marquês o pequeno deus criador do seu texto, é óbvio o triunfo final dos argumentos do ateu, quando o sacerdote se entrega aos prazeres da luxúria com seis belas mulheres que o antagonista lhe oferece.

No brevíssimo texto de Nuno Júdice, “A herança”, o cenário é idêntico: um sacerdote católico encontra-se perante um ateu agonizante, procurando inutilmente salvar-lhe a alma. E também aqui é o padre que acaba por se render aos argumentos do moribundo, libertando-se dos constrangimentos impostos pela religião e reduzindo-se à sua condição humana: “Correu para a beira do leito: o moribundo acabava de morrer. E quando o padre o olhou, bem de frente, viu que o rosto dele era igual ao seu, como se fosse um duplo de si aquele a quem fechava os olhos, e de quem perdera a última frase que ele lhe teria querido dizer”.»

ANTÓNIO APOLINÁRIO LOURENÇO

In SUROESTE. Revista deLiteraturas Ibéricas, Badajoz, nº 1, 2011.

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