Mao sobre Miguel Cardina (II)

«A crítica deve fazer-se a tempo; não há que se deixar levar pelo mau costume de criticar só depois de consumados os factos».

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Mao sobre Miguel Cardina (I)

«Ler demasiados livros é perigoso».

Trotski sobre Miguel Cardina

«O livrinho parece-me um caso óbvio de revisionismo. Só assim se entende que os maoístas ocupem mais páginas do que os meus discípulos!»

Miguel Cardina: entrevista sobre «A Esquerda Radical»

Miguel Cardina é investigador do CES e publicou na Angelus Novus A Tradição da Contestação. Acaba de publicar, na série de História da Biblioteca Mínima, o volume O Essencial sobre A Esquerda Radical. Entrevistámos o autor sobre o seu livro mais recente, que depois de ter sido apresentado em Lisboa na passada quarta-feira, sê-lo-á hoje em Coimbra.

P. Porquê “esquerda radical” e não “extrema-esquerda”, como é mais habitual?

R. Uso ambos os termos ao longo do texto, mas optei pelo primeiro como título por remeter para um universo de contestação que é não só político como também cultural, em sentido lato. É certo que o livro trata sobretudo do radicalismo político, mas não se pode compreendê-lo se não tivermos em conta as mudanças ao nível das dos discursos, das sociabilidades, dos gostos e práticas culturais que emergem nos anos sessenta e setenta, que é o período no qual centro a atenção.

P. Não lhe parece que a esquerda radical em Portugal clona de certa maneira a francesa?

R. A França é sem dúvida fundamental para se compreender a esquerda radical portuguesa daqueles anos. Antes de mais porque muita da militância era desenvolvida a partir do exílio parisiense ou em articulação com ele. E também, é claro, porque vivíamos num Portugal cuja elite ainda era maioritariamente francófona, se bem que as coisas se começam a alterar nessa altura. Por outro lado, há elementos específicos associados à realidade portuguesa que estão muito presentes na esquerda radical do país, e que naturalmente não se podem encontrar da mesma forma em França: é o caso da guerra colonial e das práticas e discursos que contra ela são mobilizados.

P. A linha “reformista” do PCP foi ou não decisiva para o progresso dos radicais?

R. A primeira e mais nítida configuração esquerdista nos anos 60 – a ruptura de Francisco Martins Rodrigues com a sucessiva criação da FAP e do CMLP – é antes de mais uma ruptura com o “reformismo” do PCP. Noutras áreas, grupos como o MAR, a LUAR, etc., criticavam o “pacifismo” do PCP e as teses do “levantamento nacional” e da união de “todos os portugueses honrados”, vistas como conciliatórias e pouco arrojadas. Mas parece-me que o elemento central – não o único – que explica o progresso do radicalismo naqueles anos foi a posição do PCP de não estimular a deserção.

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Rui Bebiano em entrevista sobre a Biblioteca Mínima de História

Rui Bebiano é Professor Auxiliar da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e um dos autores de referência da Angelus Novus. Na nossa editora publicou já três livros – o volume de «crónicas digitais» Folhas Voláteis, o estudo inovador sobre a cultura jovem nos anos 60 em Portugal, O Poder da Imaginação, e o muito recente ensaio Outubro – e dirige a série de História Contemporânea da Biblioteca Mínima. No momento em que a colecção se inicia, com a publicação de A Esquerda Radical, de Miguel Cardina, ouvimos Rui Bebiano sobre o perfil e propósitos da colecção.

P. Quais são os objectivos da colecção de História da Biblioteca Mínima?

R. Pretende-se oferecer a um público o mais alargado possível – composto maioritariamente por professores, estudantes, jornalistas e amantes da História, mas também por historiadores e por profissionais de outras áreas do conhecimento – um conjunto de sínteses actualizadas sobre temas e problemas associados a um passado colectivo que possa ser integrado na experiência da contemporaneidade.

P. Trata-se de uma colecção centrada na História Contemporânea portuguesa. Qual a baliza cronológica mais antiga dos volumes da série?

R. Nesta fase de arranque da colecção, a cronologia deverá recuar sensivelmente até aos anos da Segunda Guerra Mundial, avançado depois até um tempo tão próximo de nós quanto uma abordagem histórica sustentada e rigorosa o permita.

P. A colecção abre com A Esquerda Radical, de Miguel Cardina. Que outros volumes se encontram prontos a editar e em preparação?

R. Os próximos volumes serão sobre a cultura popular em Portugal durante o Estado Novo, de Daniel Melo, e sobre a imprensa periódica em Portugal no pós-25 de Abril, de João Figueira. Depois destes deverá sair um sobre história do tempo presente.

P. Está prevista uma abordagem de temas numa perspectiva internacional, ou a colecção, nesta primeira fase pelo menos, ficar-se-á por Portugal?

R. Após esta etapa de lançamento da colecção, mais centrada na realidade portuguesa, iremos, de facto, procurar abordar temas que ultrapassarão o campo mais específico da História de Portugal. Pensamos mobilizar para o efeito investigadores nacionais, alguns deles jovens mas já com provas dadas.

P. Acha que a colecção tem um lugar no panorama da edição portuguesa sobre História?

R. Existe em Portugal uma ausência evidente de livros credíveis e de carácter não sensacionalista, escritos por portugueses, apoiados em investigações de natureza interdisciplinar e vocacionados para um público-leitor com interesses no domínio da História. A historiografia académica raramente contempla esta vertente. Esperamos que esta colecção possa ajudar a inverter a situação.

Inquérito sobre a Coca-Cola: Pádua Fernandes

Autor com um especial interesse na obra de Alberto Pimenta (editou no Brasil uma antologia da sua obra, A Encomenda do Silêncio, Odradek, 2004), Pádua Fernandes publicou na Angelus Novus o livro Para que servem os direitos humanos?

P. Gosta de Coca-Cola? Numa escala de 0 a 5, em que 5 significa Muitíssimo, 4 Muito, 3 Assim-assim, 2 Gosto pouco, 1 Não gosto, e 0 Detesto, que classificação dá à Coca-Cola?

R. Dez vezes menos de muitíssimo: 0,5, o que é quase muitíssimo menos.

P. A sua opinião sobre a Coca-Cola mantém-se, desde a primeira vez que a provou, ou alterou-se?

R. A primeira vez que a provei não tinha realmente opiniões, era criança. Quando passei a tê-las, deixei de bebê-la.

P. Qual destas duas frases prefere? E porquê? (i) «A água suja do imperialismo»; (ii) «Os filhos de Marx e da Coca-Cola».

R. As duas frases envelheceram. Em relação à primeira frase, pode-se ver que é infelizmente incompleta: o imperialismo, se destruiu as águas (a morte progressiva dos oceanos continua neste século) não se limitou a esse elemento e conquista impiedosamente terra, ar… Até o espaço sideral encontra-se poluído de restos de satélites. No entanto, a alcunha de água suja não é completamente justa, pois o refrigerante objeto desta enquete serve para desobstruir ralos, o que nos devolve ao cotidiano sublunar. No tocante à segunda frase, a herança genética do refrigerante foi maior do que a de Marx.

P. Como reescreveria hoje a última frase: «Os filhos de Marx e da Coca-Cola»?

R. Não bastava a existência do deserto, era necessário bebê-lo.

P. Comente brevemente o poema de Décio Pignatari sobre a Coca-Cola.

R. Este velho clássico do concretismo brasileiro já sofreu muitas invectivas. Marjorie Perloff perguntou quantas vezes alguém pode lê-lo e ainda achá-lo interessante. Creio, porém, que ele mantém seu charme. Pude empregá-lo em aulas com alunos de Direito (no ensino superior privado) e constatei que a imensa maioria deles não conseguia perceber o mistério das treze palavras do poema (sem descontar as repetições) e achava que se tratava de uma propaganda do refrigerante. Isso me parecia demonstrar que o grau zero de letramento propiciado pela linguagem publicitária correspondia fielmente ao grau zero do sabor dessa bebida. Foi uma simples experiência didática da futura falência do Brasil programada nas políticas educacionais do presente. Porém, muito mais interessante do que qualquer comentário meu, faço lembrar o de um importante músico brasileiro. Muitas vezes, o melhor comentário sobre uma obra de arte é outra obra de arte. Apesar de o refrigerante ter sido cantado em verso e prosa por uma miríade de autores (Fogwill, por exemplo, relacionou-o aos maus poetas), prefiro lembrar de Gilberto Mendes, que compôs uma impressionante obra para coro misto a capella a partir desse poema, o célebre Moteto em Ré Menor, uma das peças corais brasileiras mais conhecidas (ou uma das poucas conhecidas) no mundo. Em certo momento, de inspiração hegeliana, Gilberto Mendes foge do texto (o que é, tantas vezes, a melhor forma do compositor mostrar-se fiel ao poeta) para dar um curto solo ao baixo: um arroto. O vaporoso espírito do sistema de valores que o refrigerante representa é exatamente representado.

Inquérito sobre a Coca-Cola: Isabela Figueiredo

Isabela Figueiredo é professora do Ensino Secundário e escritora. Publicou, na Angelus Novus, Caderno de Memórias Coloniais.

P. Gosta de Coca-Cola? Numa escala de 0 a 5, em que 5 significa Muitíssimo, 4 Muito, 3 Assim-assim, 2 Gosto pouco, 1 Não gosto, e 0 Detesto, que classificação dá à Coca-Cola?

R. Gosto muitíssimo de Coca-Cola. Ainda está por inventar o refrigerante que a destronará da minha tabela de preferências. É um 5 sem hesitações.

P. A sua opinião sobre a Coca-Cola mantém-se, desde a primeira vez que a provou, ou alterou-se?

R. Devo ter provado Coca-Cola assim que consegui segurar um objecto na mão, aí pelos dois anos de idade, ou antes. Quando acordei para mim já estava viciada. Eu sou “Coca-Cola”. Às pessoas nascidas em Lourenço Marques chamava-se-lhes “Coca-Colas”, não sei porquê. O sabor da Coca-Cola nunca me decepcionou, nas suas diversas versões.

P. Qual destas duas frases prefere? E porquê? (i) «A água suja do imperialismo»; (ii) «Os filhos de Marx e da Coca-Cola».

R. Nenhuma das frases me agrada nem representa a Coca-Cola. São afirmações políticas. A Coca-Cola internacionalizou-se, bem como a cultura americana, a um ponto que é impossível, para mim, conotá-la com os EUA. Não há produtos genuinamente americanos, porque nós também já somos mais ou menos americanos. Não me agrada culpar os americanos dos males do mundo. Estamos todos envolvidos numa ordem das coisas a que os EUA dão corpo.

P. Como reescreveria hoje a última frase: «Os filhos de Marx e da Coca-Cola»?

R. Há a política e a Coca-Cola: só confiamos na segunda. Já reescrevi.

P. Comente brevemente o poema de Décio Pignatari sobre a Coca-Cola.

R. Décio Pignatari não gostava de Coca-cola, só de babes que bebem Coca-Cola. Se Décio Pignatari bebesse Coca-Cola, teria mais energia para animar as babes. Não me ocorre mais nada.

Inquérito sobre a Coca-Cola: Jorge Fernandes da Silveira

Jorge Fernandes da Silveira é Professor Titular da Faculdade de Letras da UFRJ. Professor dos mais prestigiados da universidade brasileira na área dos Estudos Portugueses, tem obra vasta, dispersa por revistas de referência e editoras de Portugal e Brasil. Destaquem-se, além de obras que organizou e outras de cariz antológico (sobre Cesário Verde ou Luiza Neto Jorge), os livros Portugal Maio de Poesia 61 (Lisboa, 1986); O Beijo Partido – Uma Leitura de O Beijo Dado Mais Tarde: Introdução à Obra de Llansol (Rio de Janeiro, 2004); Lápide & Versão: O Texto Epigráfico de Fiama Hasse Pais Brandão (Rio de Janeiro, 2006); O Tejo é um Rio Controverso – António José Saraiva contra Luís Vaz de Camões (Rio de Janeiro, 2008). Na Angelus Novus publicou Verso com verso [Estudos de Poesia Portuguesa], em 2003. Como aqui noticiámos, foi recentemente objecto de homenagem na sua universidade, por ocasião do aniversário dos seus 40 anos de docência.

P. Gosta de Coca-Cola? Numa escala de 0 a 5, em que 5 significa Muitíssimo, 4 Muito, 3 Assim-assim, 2 Gosto pouco, 1 Não gosto, e 0 Detesto, que classificação dá à Coca-Cola?

R. Assim-assim, 3. Já que acho a expressão deliciosa e como ando igualmente assim-assim das pernas me lembro saudoso de que nas quase 30 maratonas (42km) em que andei metido o instante de maior prazer nas 4 horas de sacrifício eram os goles de coca misturados com água no meio das pedras do caminho (sem fôlego e sem vírgulas).

P. A sua opinião sobre a Coca-Cola mantém-se, desde a primeira vez que a provou, ou alterou-se?

R. Não gosto de coca, de coca-cola. Gosto do gosto memorável das misturas de traçado afetivo e político: com água (levanta perna-de-pau), com cachaça (samba-em-berlim), com rum (cuba-libre)…

P. Qual destas duas frases prefere? E porquê? (i) «A água suja do imperialismo»; (ii) «Os filhos de Marx e da Coca-Cola».

R. Entre as duas a minha razão balança. Fico com a segunda, porém. Porque é a expressão adequada aos tempos de consumo de todas as drogas. “A água suja do imperialismo”, sim, talvez, mas fonte de mil utilidades de limpeza, do estômago à sanita (a “cloaca”). “Os filhos de Marx e da Coca-Cola”? Sim…

P. Como reescreveria hoje a última frase: «Os filhos de Marx e da Coca-Cola»?

R. Cada geração tem a McDeleine que lhe é imposta.

P. Comente brevemente o poema de Décio Pignatari sobre a Coca-Cola.

R. Tenho a impressão de que respondo a esta pergunta nas quatro anteriores. Como veículo de propaganda, a Coca-Cola é coisa a ser consumida, repetitivamente; a representação moderna, “modernista”, dessa mensagem está no poema de Décio Pignatari: entre o canto gregoriano e a forma vanguardista de montagem e colagem a Coca-Cola é, concretamente, aplaudida e apupada. Como na apresentação flutuante da linha da logomarca do produto no anúncio. Ou na voz de um genuíno tropicalista que insiste-não-desiste em diferentes formações, nas várias composições de si mesmo: “eu nunca mais fui à escola/ eu tomo uma coca-cola/ porque não…” (“Alegria Alegria”, Caetano Veloso)

Inquérito sobre a Coca-Cola: Miguel Cardina

M Cardina

Miguel Cardina é investigador do CES e publicou na Angelus Novus A Tradição da Contestação. Acaba de publicar, na série de História da Biblioteca Mínima, o volume O Essencial sobre a Esquerda Radical. Colabora nos blogues Caminhos da Memória e Vias de Facto.

P. Gosta de Coca-Cola? Numa escala de 0 a 5, em que 5 significa Muitíssimo, 4 Muito, 3 Assim-assim, 2 Gosto pouco, 1 Não gosto, e 0 Detesto, que classificação dá à Coca-Cola?

R. Assim-assim.

P. A sua opinião sobre a Coca-Cola mantém-se, desde a primeira vez que a provou, ou alterou-se?

R. Nasci na província, onde só havia Spur Cola. Quando provei a verdadeira, aos 18 anos, já era tarde.

P. Qual destas duas frases prefere? E porquê? (i) «A água suja do imperialismo»; (ii) «Os filhos de Marx e da Coca-Cola».

R. «A mãe do pai Natal».

P. Como reescreveria hoje a última frase: «Os filhos de Marx e da Coca-Cola»?

R. «Filhos da banda larga e da carteira vazia».

P. Comente brevemente o poema de Décio Pignatari sobre a Coca-Cola.

R. Odara.

Entrega do Prémio Nacional de Ensaio Literário Eduardo Prado Coelho

Vítor Aguiar e Silva, primeiro vencedor do Grande Prémio Ensaio Eduardo Prado Coelho, criado pela Associação Portuguesa de Escritores (APE) e pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, vai receber o galardão no próximo dia 23, pelas 15h00, na Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco. Como aqui noticiámos, Vítor Aguiar e Silva foi distinguido pela obra Jorge de Sena e Camões – Trinta Anos de Amor e Melancolia, editada pela Angelus Novus Editora com apoio da DST, tendo merecido a unanimidade do júri, constituído por António Pedro Pita, José Cândido Martins e Paula Cristina Costa.

O galardão, que é patrocinado pelo município famalicense, será entregue no próximo dia 23 de Abril, no âmbito de um colóquio internacional dedicado a Eduardo Prado Coelho, sob o tema “Um Pensador Multifacetado”, que vai decorrer na Biblioteca Municipal de Vila Nova de Famalicão.

(leia mais)

Inquérito sobre a Coca-Cola: Pedro Serra

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Pedro Serra é Professor de Filologia Portuguesa na Universidade de Salamanca. A sua obra divide-se entre um trabalho filológico patente nas edições de textos clássicos da literatura e cultura portuguesas – de D. Francisco Manuel de Melo a Cruz e Silva, este em co-autoria com Ana María García Martín – e um trabalho ensaístico que se tem demorado sobretudo no arco que vai do Barroco à contemporaneidade, tratando em especial autores como Fidelino de Figueiredo, Carlos de Oliveira, Ruy Belo, António Franco Alexandre, etc.

Coordenou, com Osvaldo Manuel Silvestre, a antologia Século de Ouro (co-edição Angelus Novus e Livros Cotovia), e foi um dos responsáveis pela Inimigo Rumor, na sua fase brasileira-portuguesa.

P. Gosta de Coca-Cola? Numa escala de 0 a 5, em que 5 significa Muitíssimo, 4 Muito, 3 Assim-assim, 2 Gosto pouco, 1 Não gosto, e 0 Detesto, que classificação dá à Coca-Cola?

R. Não gosto nem desgosto: é-me, em grande medida, indiferente. Um sabor familiar, sem história. Ainda assim, aceitando classificar, pontuo a Coca-Cola com uma qualquer fracção entre o 1 e o 2, que não discrimino por ser um intervalo que obedece a um algoritmo irrepresentável nesta oportunidade.

P. A sua opinião sobre a Coca-Cola mantém-se, desde a primeira vez que a provou, ou alterou-se?

R. Não me lembro bem da primeira vez que bebi Coca-Cola. Bem vistas as coisas, como todas as primeiras vezes, deve ter sido uma segunda: antes de vagamente beber Coca-Cola tenho a ideia vaga de ter bebido Canada Dry. Como creio que na pergunta não deixa de reverberar uma consabida estesia pessoana, tenho de dizer que a Coca-Cola entrou na minha vida sem a ter estranhado (nem a ela, Coca-Cola, nem a ela, vida). Sendo assim, nem sequer se entranhou, nem posso garantir que o que bebi até agora como sendo Coca-Cola seja a Coca-Cola dos que lêem este inquérito, ou provar que de facto o é. Ainda ontem comprei uma bandeja de asas de frango – em espanhol, “alitas de pollo” – para depois descobrir, já na frigideira, que eran coxas – em espanhol, “contramuslos”. Em certos lugares, por exemplo nos Estados Unidos da América, podes chegar a receber grandes indemnizações quando acontece uma coisa assim. É possível que o mesmo pudesse acontecer com uma garrafa de Coca-Cola cujo líquido fosse de Canada Dry.

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Isabela em tournée pelo (Grande) Norte (II)

 

 

Isabela em Braga, na Associação Cultural Velha-a-Branca, em organização da Livraria Capítulos Soltos. Ao fundo, no sofá-divã em que conversou com Ana Gabriela Macedo enquanto, lá fora, o céu se desfazia em água.

Isabela em tournée pelo (Grande) Norte (I)

Isabela em tournée pela Galiza. Ao cimo, no dia 15 de Abril, com Ana Bela Almeida na Universidade da Corunha. Em baixo, com Burghard Baltrusch, na Universidade de Vigo, no dia 16 (note-se o aparato tecnológico de que a conferencista se fez rodear).

Moral da história? A Galiza a seus pés, como se pode ver aqui.

Inquérito sobre a Coca-Cola: Bénédicte Houart

Bénédicte Houart (na foto, da autoria de Sara Moutinho, na sua participação nas Quintas de Leitura, no Porto) é poeta, dramaturga, cantora e tradutora. Em co-edição entre a Angelus Novus e Livros Cotovia estreou-se com Reconhecimento (2005), tendo depois publicado Vida: Variações (2008) e Aluimentos (2009).

A Angelus Novus editará em breve o volume como que se estreará na literatura infantil.

Lamento, mas não gosto de inquéritos. Em contrapartida, pode ser que escreva um dia um poema ou algo de parecido sobre a coca, a cola, e outras substâncias psicotrópicas e alucinogéneas. As minhas preferidas são, de resto, as palavras, em dias bons, quando sou literalmente snifada por elas. Descobri a coca-cola na bélgica, quando criança. Chegada a Portugal, em 1975, talvez houvesse algum marx, que a mim nada ou pouco me dizia, mas, que me recorde, faltava a coca-cola. Ainda hoje, quando a bebo, sou transportada para a minha pequena infância, que de idílica pouco teve. Nunca me soube a invasão do império americano. O meu Avô, que escrevia, desenhava, fez teatro, jardinava, fazia puzzles, dirigia um lar de refugiados fundado por um seu amigo padre dominicano em 1954,comprava coca-cola para as suas netas portuguesas, religiosamente cada Verão. Era um intransigente defensor dos direitos humanos e da liberdade de expressão, e crítico dos aparentes regimes socialistas de leste. Não gosto particularmente do poema de pignatari, sorry, e não me apetece comentá-lo, já passei a era do comentário e não o lamento.

Beijos   bénédicte

Rui Bebiano: «Folhas Voláteis»

O primeiro livro de Rui Bebiano na Angelus Novus, Folhas Voláteis (2001), apresenta como subtítulo «Crónicas Digitais». De facto, o livro assinala uma data importante na história da net em Portugal e, mais latamente, na da nossa cultura digital, pois é uma das primeiras obras em papel que colige textos – neste caso, «crónicas» – escritos para o suporte digital. Bebiano foi um dos pioneiros do cibermundo em Portugal e em português (no início, com fortes ligações ao activismo galego), em sites e publicações como Lugares (primeiro guia de links na Net portuguesa) – 1994-1996 -, Non! cultura e intervenção (primeiro e-zine português) – 1996-2002 – Colonial (primeiro site português sobre a Guerra Colonial) – 1999-2000 -, o blog colectivo Sous les Pavés, la Plage! – 2004-5 -, o blog colectivo A  Estrada – 2005-6 -, o blog A Noite – 2006-7, antes do actual A Terceira Noite e colaboração em vários projectos colectivos recentes.

Desse livro inicial na Angelus Novus, recuperamos hoje um dos melhores textos de Rui Bebiano nesse volume, uma crónica em que o autor discute exactamente as alterações induzidas nos regimes de leitura pelas revoluções teconológicas do nosso tempo. Que agora pode ler, com mais algumas dezenas de outros textos, a preço ainda mais módico.

A chuva, os ácaros e a leitura

Chove muito nos invernos lusitanos. Não tanto como naquela cidade da Noruega, na qual, anunciava o velho manual de geografia, «até os cavalos se espantam» quando vislumbram humano sem guarda-chuva. Mas chove o suficiente para nos inibirmos de passar as tardes de óculos escuros, beberricando imperiais em esplanadas luminosas e simplesmente vendo as vistas. Nas alturas húmidas refugiamo-nos sim, como acontece nas regiões assumidamente borrascosas, em desportos íntimos, em bricabraques domésticos, em vícios 100% incompatíveis com a água que ensopa e o vento malvado que gela e despenteia.

Existia em tempos quem, por essa época de interiores, ocupasse as horas mortas, se tinha afazer, condição ou desculpa que concedessem a elegância, e pachorra para forma tão monótona de passar o tempo, a respirar a indolência das salas aquecidas. Sócios, reais ou imaginários, de um daqueles clubes de vago modelo britânico, no qual a chávena de chá combinava com o jornal entalado entre ripas, as conversas aconteciam em tom amável, o indefectível Jenkins se travestisse de um polido senhor Antunes, a figura da soberana coroada tivesse os contornos – eram as vésperas de um Abril por vir – de um velho almirante retratado a preto e branco. Aí, entre as mãos do brídege, frases sussurradas e bolinhos de manteiga, existia quem acompanhasse o movimento dos ponteiros com a leitura, encadernada e pacífica, de volumes dos mais insuspeitos clássicos. Daqueles que as universidades igualmente clássicas ensinavam com incontido orgulho, as famílias honestas exibiam sem preconceito às visitas, e a censura achava que não perturbavam a vida simples de um povo simples.

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Américo António Lindeza Diogo (IX)

 

Da série «Vaduz». [Clique na imagem para aumentar]

É já no próximo sábado, em Braga

Inquérito sobre a Coca-Cola: Manuel Resende

 Manel

Manuel Resende é poeta, tradutor e agricultor biológico. Publicou três livros de poesia: Natureza Morta com Desodorizante (1983), Em Qualquer Lugar (1997) e O Mundo Clamoroso, ainda, na Angelus Novus. Traduziu poesia, com uma especial atenção aos poetas gregos, tendo publicado versões portuguesas de poemas de K. Kariotákis, N. Engonópoulos, Odisséas Elytis, G. Seféris, N. Kavvadias, K. Dimoulá, etc. Traduziu também A Caça ao Snark, de L. Carroll, e A Tragédia de Coriolano, de Shakespeare. E Keynes, Freud e outras cabeças pensantes.

Para a Angelus Novus, traduziu vários ensaios de Theodor W. Adorno incluídos em Sobre a Indústria da Cultura, 2003, e Peter Sloterdijk, Regras para o Parque Humano, 2008.

P. Gosta de Coca-Cola? Numa escala de 0 a 5, em que 5 significa Muitíssimo, 4 Muito, 3 Assim-assim, 2 Gosto pouco, 1 Não gosto, e 0 Detesto, que classificação dá à Coca-Cola?

R. Nesta classificação emparelha com o Frusimo, o Palcom, o Sumel e outros refrigerantes de uso comum.

P.  A sua opinião sobre a Coca-Cola mantém-se, desde a primeira vez que a provou, ou alterou-se?

R. Sei lá. Nunca mais bebi.

P. Qual destas duas frases prefere? E porquê? (i) «A água suja do imperialismo»; (ii) «Os filhosde Marx e da Coca-Cola».
 
R. Não vejo muita pertinência em nenhuma delas. Há muitas águas sujas do imperialismo por aí, a começar pelo café e pelo chá. Quantas guerras e invasões não se fizeram por causa destas bebidas? Há nas duas frases uma fixação implícita no imperialismo americano que tem desvirtuado a nossa visão do mundo e da história.

P. Como reescreveria hoje a última frase: «Os filhosde Marx e da Coca-Cola»?
 
R. Não reescreveria. Deixava­­-a como está, acrescentando-lhe: comprenne qui pourra.
 
P. Comente brevemente o poema de Décio Pignatari sobre a Coca-Cola.
 
R. No comments. Há melhor.

Isabela na Galiza

Isabela Figueiredo estará amanhã e depois na Galiza, falando do seu Caderno de Memórias Coloniais e das questões que o livro suscita.

A tournée começa na Universidade da Corunha (dia 15 de Abril, 10.30 h, Salón de Graos da Facultade de Filoloxía da Universidade da Coruña). Isabela fará uma palestra sobre o tema «Caderno de Memórias Coloniais: Revisitação da Vida em Moçambique antes do 25 de Abril».

No dia seguinte, 16 de Abril, Isabela estará na Universidade de Vigo (12 h, Salón de Actos). A sua intervenção terá como título «Memórias Coloniais da África Lusófona».

Unha aperta, pessoal da Galiza!

[Ao cimo, mupi de Isabela à entrada de Vigo]

Ferreira Fernandes e nós (e ao contrário)

Temos de confessar que todos os dias, de manhã, o nosso coração balança entre os dois cronistas diários da nossa preferência: Manuel António Pina, no JN, e Ferreira Fernandes, no DN. Desta vez, porém, e até porque Pina está temporariamente ausente (que seja curta a ausência, Manuel António!), não podemos deixar de chamar a atenção para a crónica de Ferreira Fernandes.

Porquê? Porque a crónica, intitulada Pessoa, Salazar e o barril de crude, tem a qualidade habitual, e sobretudo porque o autor revela conhecer bem as nossas edições. A referência à Mensagem ainda podia fazer-nos hesitar. Mas as dúvidas desaparecem a seguir. Porquê? Porque Ferreira Fernandes revela conhecer o volume Contra Salazar. Ambos, diga-se, organizados por António Apolinário Lourenço.

Se juntarmos à crónica de FF o impacto do corpus seleccionado em Contra Salazar na recente antologia Poemas Portugueses, no que toca aos poemas de Pessoa, é caso para dizer que o trabalho editorial de António Apolinário Lourenço faz o seu caminho…

UFRJorge40 Anos: agora sim

Como aqui informámos, deveria ter-se realizado nos dias 6 e 7 de Abril, na Faculdade de Letras da UFRJ, um colóquio de homenagem a Jorge Fernandes da Silveira, com o título «A Caminho do Mar. Mão na outra Mão». A tempestade que assolou o Rio de Janeiro, com o saldo trágico que se conhece, impediu porém a realização do colóquio, que foi adiado para amanhã e depois, dias 13 e 14, no mesmo local.

Resta-nos desejar que o colóquio se realize enfim, e que tenha lugar a justa homenagem ao grande estudioso e mestre da literatura portuguesa em terras do Brasil.

Rui Bebiano, autor em destaque

Rui Bebiano é um dos autores de referência da Angelus Novus. Na nossa editora publicou já três livros – o volume de «crónicas digitais» Folhas Voláteis, o estudo inovador sobre a cultura jovem nos anos 60 em Portugal, O Poder da Imaginação, e o muito recente ensaio Outubro – e dirige a série de História Contemporânea da Biblioteca Mínima, que se estreará em breve.

Por essa razão, no momento em que lançamos a nossa promoção Autor em Destaque faz todo o sentido começar com Rui Bebiano. Aproveite e leia o autor do blogue A Terceira Noite em papel: os livros são bons e bonitos e, agora, mais em conta!

P.S. Com a ajuda do próprio Rui Bebiano, começamos neste post uma reinvenção da imagem gráfica dos nossos autores. Esteja atento, pois vai valer a pena…

Inquérito sobre a Coca-Cola: Rui Manuel Amaral

Rui Amaral

Rui Manuel Amaral é ficcionista, músico (é baterista da banda The Jills) e publicitário. Foi um dos directores da revista de poesia aguasfurtadas. Na Angelus Novus publicou, na colecção Microcosmos, o livro Caravana, a sua estreia e uma das revelações maiores da cena literária portuguesa (a campanha promocional do livro conquistou o Prémio de melhor campanha de Promoção de Autor Português nos prémios de edição LER/Booktailors).

É um dos autores do blogue Dias Felizes.

P. Gosta de Coca-Cola? Numa escala de 0 a 5, em que 5 significa Muitíssimo, 4 Muito, 3 Assim-assim, 2 Gosto pouco, 1 Não gosto, e 0 Detesto, que classificação dá à Coca-Cola?

R. 3,14. Vá lá, 3,15.

P. A sua opinião sobre a Coca-Cola mantém-se, desde a primeira vez que a provou, ou alterou-se?

R. Continuo a gostar do formato da garrafa.

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Agora em francês: «Um témoignage au vitriol sur la colonisation portugaise»

A autora é Marie-Line Darcy, o texto saiu no site da RFI, a Radio France Internationale, e o impacto do Caderno de Memórias Coloniais é aí referido nos seguintes termos:

Isabela Figueiredo provocou um electrochoque em Portugal, obrigando a sociedade portuguesa a debruçar-se sobre o seu passado colonial e a sua descolonização. Não é a primeira a fazê-lo, mas esta narrativa na primeira pessoa, numa linguagem crua para uma verdade nua, sacode a placa de chumbo que repousa ainda sobre a história recente de Portugal.

O texto, que inclui declarações de Isabela, conclui com a informação: «Caderno de Memórias Coloniais não está traduzido em francês».

Por pouco tempo mais, seguramente…

Inquérito sobre a Coca-Cola: Américo A. Lindeza Diogo

Américo António Lindeza Diogo é Professor Catedrático da Universidade do Minho. Com doutoramento sobre as cantigas de escárnio e mal-dizer, tem obra vasta sobre praticamente todos os períodos da literatura portuguesa, com especial destaque para o período medieval e o moderno e para autores como Eça, Pessoa, Carlos de Oliveira, Herberto Helder, António Franco Alexandre, Adília Lopes, entre outros. Publicou ainda ensaios e livros sobre questões de teoria e estética, literatura infantil e literatura brasileira.

Na Angelus Novus, de que foi co-fundador, publicou livros sobre Clarice Lispector, Sá de Miranda, Almeida Garrett ou Fernando Pessoa, editou uma antologia da poesia trovadoresca, e foi co-director de Zentralpark e de Inimigo Rumor.

P. Gosta de Coca-Cola? Numa escala de 0 a 5, em que 5 significa Muitíssimo, 4 Muito, 3 Assim-assim, 2 Gosto pouco, 1 Não gosto, e 0 Detesto, que classificação dá à Coca-Cola?

R. Assim-assim. Em resistência cultural, comme ci, comme ça.

P. A sua opinião sobre a Coca-Cola mantém-se, desde a primeira vez que a provou, ou alterou-se?

R. A mesma, e assim-assim o consumo. A coca-cola não satisfaz e a gente repete. É humana, estilo realismo do capital. A única bebida fria que satisfaz é o leite. O leite não é humano, mas mãe.

P. Qual destas duas frases prefere? E porquê? (i) «A água suja do imperialismo»; (ii) «Os filhos de Marx e da Coca-Cola».

R. «Os filhos de Marx e da Coca-Cola». A expressão designa uma porção razoável do enunciador de «A água suja do imperialismo».

P. Como reescreveria hoje a última frase: «Os filhos de Marx e da Coca-Cola»?

R. «Os filhos da puta»? Caso em que a voz do pai Marx serve de unguento para os arranhões da voz da bitch

P. Comente brevemente o poema de Décio Pignatari sobre a Coca-Cola.

R. O poema é revelações por comutação de letras e formas, ora seja, o poema é crítica ideológica esperta. O horizontal normal sem ênfase (beba coca cola) é descaro e pressão injuntiva na vertical (beba babe / beba babe / caco cola); a coca não tem valor (é caco em si); o ninguém que disse o beba e o ninguém a quem o beba se dirige ocultavam um interesse dito na língua do interesse, imperial (babe). Acresce, em polissémico, que a gente bebe até babar.

As linhas horizontais também contam. A segunda põe de face a cola e o súbdito do império (babe). A terceira dá a dependência pelo vício (beba coca). A quarta autoriza o verbo babar e troca as voltas à primeira. Quem ‘bebe coca cola’ acaba junkie sem dignidade. É um caco que baba cola. Assim, o normal convite (beba coca cola) revela ser um sinistro «babe cola, caco».

Autorizada pela combinatória, a cloaca final revela que o poema era um comentário — vá lá, tornado vívido — àquela grande frase «A água suja do imperialismo».

Isabela e «A Força das Coisas»

Foi no sábado, pelas 16 h. Isabela Figueiredo foi entrevistada por Luís Caetano no programa da Antena 2, A Força das Coisas. A conversa está já disponível aqui. A não perder.

Ruy Belo, por Pedro Serra: Vá, com o poeta, ao «Corte Inglês»

Ruy Belo é um emblema maior da ‘vida danificada’ em declinação portuguesa, na passagem do espaço-tempo ditatorial para o tempus democrático. O poema (correlato do instante ‘que fez deter o dia a hora e o momento’) é dito em língua bífida. Carreia dois poemas, ou duas metades fendidas. Dizer próprio e impróprio – o da língua bífida (‘quando fora é domingo / dentro de nós é dia de semana’) – que é o do poeta exilado, desterrado, degredado, expatriado. Poeta instalado num ‘problema da habitação’, que não deixará de ser modulado por leituras, seja a consabida Bíblia, Engels, algum Heidegger ou algo ainda mais prosaico: “ter uma morada, na verdadeira acepção da palavra é, actualmente, impossível”. Realmente, é-se poeta no ‘Corte Inglês’, transita-se pelo desencanto, muito embora feliz. Sim, no ‘Corte Inglês’ pode-se ser feliz e desencantado, na condição de se ser poeta:

Que mundo é este mundo destes dias
que mais nos mata do que atenas nos matou?
El corte inglês em plena primavera
segundo o comunicam todos os anúncios
que vejo nas paredes hoje dois de março
Vou entrar para ver posso ter lá
o termos deste inverno que me invade
Talvez eu recupere o que perdi
e me veja de novo envolto em folhas
como qualquer árvore anónima que vi.

‘Poesia religiosa’, a de Ruy Belo? De facto, poesia entre a ‘fé’ e a ‘catástrofe’, mas ‘religiosa’ não tanto no sentido de re-ligare como no sentido de re-legere.

Veja de que modo isso ocorre no livro, de 2004, Um Nome Para Isto. Leituras da Poesia de Ruy Belo, de Pedro Serra, um livro para quem gosta da grande poesia e da grande leitura de poesia. Se gosta de Ruy Belo, está à espera de quê?

Américo António Lindeza Diogo (VIII)

Da série «Vaduz» [clique na imagem para aumentar].

Américo António Lindeza Diogo (VII)

Da série «Les visiteuses». [Clique para aumentar]

Jorge Fernandes da Silveira, 40 anos depois

De Jorge Fernandes da Silveira, emérito professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a Angelus Novus editou, em 2003, o livro Verso com Verso, no qual o autor reuniu parte substancial dos seus ensaios sobre poesia portuguesa, com especial demora no período contemporâneo e, neste, nos autores de Poesia 61. Agora, para assinalar os 40 anos de dedicação à causa da literatura portuguesa na sua universidade, realiza-se, nos próximos dias 6 e 7 de Abril, na Faculdade de Letras da UFRJ, um colóquio de homenagem ao Professor, com o título «A Caminho do Mar. Mão na outra Mão». Homenagem colocada, aliás, sob a emblemática rubrica, que faz confundir deliberadamente o Professor e a Escola, UFRJorge40 anos.

A Angelus Novus associa-se gostosamente à homenagem ao Mestre, a quem tanto devem os estudos portugueses, como se constata percorrendo a lista dos participantes, na qual é fácil reconhecer o vasto número dos seus discípulos. [clique na imagem para aumentar]

P.S. De Jorge Fernandes da Silveira, publicámos recentemente neste blogue um seu primeiro juízo sobre o Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo.

Ana Luísa Amaral sobre o «Caderno de Memórias Coloniais»

Como aqui informámos, o Caderno de Memórias Coloniais foi apresentado no Porto (mais propriamente, na FNAC do NorteShopping), no passado dia 6, por Ana Luísa Amaral. Do texto que a apresentadora leu na altura, publicamos um excerto significativo. Agradecemos a Ana Luísa Amaral a gentil cedência do texto.

Elogiado por muitos, atacado por quem continua a manter do período colonial uma visão paradisíaca, Caderno de Memórias Coloniais encontrou um extraordinário destaque junto da crítica, indo já na sua terceira edição e tendo sido inclusivamente, dizem-me, alvo de proposta para adaptação cinematográfica. “Um livro que faltava”, “um registo fundamental”, “um livro de amor, de desabafo e terapêutico”, “um livro resultante de um acto de coragem”, “um livro incómodo, merecedor (…) da nossa atenção” – depois de tão larga quantidade de leituras, que dizer deste livro que seja novo e lhe faça justiça?

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Prémio Nacional de Ensaio Literário Eduardo Prado Coelho para Vítor Aguiar e Silva

Com Jorge de Sena e Camões. Trinta Anos de Amor e Melancolia, Vítor Aguiar e Silva acaba de vencer, por unanimidade, o Prémio Nacional de Ensaio Literário Eduardo Prado Coelho. Na sua nova versão, o prémio da Associação Portuguesa de Escritores, que é agora patrocinado pela Câmara Municipal de Famalicão, passa a chamar-se «Eduardo Prado Coelho», em homenagem a uma figura relevante da crítica e ensaística portuguesa das últimas décadas. O júri, constituído por António Pedro Pita, José Cândido Oliveira Martins e Paula Cristina Costa, atribuiu o prémio por unanimidade.

Editado pela Angelus Novus no final de 2009, com o patrocínio da DST, o livro vai assim ganhando o lugar que certamente lhe caberá no panorama dos estudos camonianos.

Ao Autor, os nossos parabéns!

[Na foto, Vítor Aguiar e Silva com José Carlos Seabra Pereira, na sessão de lançamento do livro em Coimbra]

Gustavo Rubim e a «Arte de Sublinhar»

O que se segue é apenas um pedaço de uma entrevista – magnífica, brilhante, agudíssima: o leitor escolha – que Gustavo Rubim nos deu aquando da edição, em 2003, do – magnífico, brilhante, agudíssimo: escolhemos nós – volume chamado Arte de Sublinhar. O resto da entrevista pode ser lido aqui. Não há muita gente a pensar assim sobre literatura. Em qualquer lugar onde haja gente a pensar sobre isso. E nunca há assim tanta, a bem dizer. Em todo o caso, se nunca leu este livro não sabe mesmo o que perdeu. Mas, claro!, não é obrigado a perdê-lo para sempre.
Este livro vai dedicado a Cidalina Carvalheiro e não há motivos para envolver em segredo a dedicatória. Formada em Coimbra, Cidalina Carvalheiro era, há vinte e tal anos atrás, uma jovem e extraordinária professora de Português (de Latim e de Grego) de cujo ensino só um rematado idiota poderia sair intacto. Dos meus colegas, não conheci ninguém que lhe ficasse indiferente e, no meu caso, fiquei marcado, aos 14 ou 15 anos, para o resto da vida. Ponto crucial: ter ensinado que os livros eram para se sublinhar ― e, por competente corolário, ter ensinado como é que se sublinhavam. Fez isto com livros muito diversos. Quando chegou ao ponto de o fazer com Os Lusíadas, já não sobravam dúvidas de que acontecia ali qualquer coisa de irreversível. Era uma turma inteira debruçada sobre os versos, alguém a lê-los em voz alta, Cidalina corrigindo a leitura, a máxima concentração em exercício. Mas, depois, era preciso mexermo-nos: sublinhar, anotar, verificar, distinguir, reler, discutir, escrever. De longe, as aulas mais disciplinadas; de longe, as mais animadas (as únicas a que não se faltava).
 
A memória destes tempos recuados (e felizes, hélas!) ensina-me, ainda, duas lições: 1) só há sublinhado se, antes dele, houver uma linha já escrita que se possa sublinhar; 2) na poesia ou na prosa, «letra morta» é consequência de leitores inertes. Isto foi o que eu percebi na altura. Hoje, sem abandonar a simplicidade da história, digo: não sei se os textos «existem», sei que quando nós lá chegamos, os textos já lá estavam antes de nós. E ainda: se o leitor não fizer nada, o que já lá estava jamais fará espécie nenhuma de sentido. Ou o leitor está vivo ou nada feito. Com Cidalina Carvalheiro, aprendia-se que, quando de facto lê, o leitor é o mais vivo de todos os seres vivos.

O bispo, o deão, a falta de respeitinho e a Igreja em guerra

O Hissope, de António Dinis da Cruz e Silva: um clássico da literatura e do humor em Portugal.

Para rir sem parar.

António Carlos Cortez sobre «Jorge de Sena e Camões»

No último número do JL (10-23 de Março 2010), António Carlos Cortez publica uma longa recensão do livro de Vítor Aguiar e Silva, Jorge de Sena e Camões, que descreve como «um volume de leitura obrigatória». Transcrevemos, com a devida vénia, um excerto significativo do texto intitulado «Vítor Aguiar e Silva: Camões e Jorge de Sena»:

A monumentalidade das informações sobre Jorge de Sena (quanto ao pensamento crítico deste e seu inestimável valor no âmbito da camonologia) e Luís de Camões (…); a justeza e a justiça com que Vítor Manuel de Aguiar e Silva escreve, com o cabal conhecimento que toda a academia lhe reconhece, bem como leitores menos familiarizados com o âmbito da sua investigação ao longo de mais de 40 anos de exercício crítico e ensaístico, fazem deste Camões e Jorge de Sena, a mais recente compilação de estudos do autor de Camões. Labirintos e Fascínios, um volume de leitura obrigatória para todo aquele que almeje compreender o magistério de Jorge de Sena no campo dos estudos camonianos e a relevância dos seus inúmeros estudos, muitos deles heterodoxos e revolcuionários, quer no seu, quer ainda no nosso tempo.

Américo António Lindeza Diogo (VI)

Da série «Les visiteuses». [Clique para aumentar]

Américo António Lindeza Diogo (V)

 

Da série «Les visiteuses».

Américo António Lindeza Diogo (IV)

 

Da mesma série «The anti queer event». Clique na foto para aumentar.

Reportagem de uma ida ao Porto (III)

E finalmente, a apresentação em si. Na foto de cima, à esquerda, a apresentadora, Ana Luísa Amaral, que leu um texto expressamente produzido para a ocasião (e que confessou que se emocionou ao ler o Caderno); depois, a autora, com o representante da editora ao lado. Tudo muito bem disposto. Mais abaixo, um momento mais sério do debate, que foi participado e intenso. Ao fundo, Isabela com Rui Manuel Amaral. [Clique nas fotos para aumentar]

Segue-se Braga, em Abril. Apresentará o livro Ana Gabriela Macedo.