Maria Clara Murteira sobre «A Economia das Pensões»

Transcrevemos um texto que Maria Clara Murteira leu no lançamento do seu livro «A Economia das Pensões», na passada sexta-feira, 23, na Almedina Estádio, em Coimbra.

Nos anos quarenta, Titmuss, eminente académico com um contributo notável no domínio da política social, queixava-se daquilo que designava como a “obsessão dominante” do seu tempo, “de utilizar padrões de referência que elevam as coisas materiais acima das pessoas e tratam a dívida nacional como se esta tivesse maior importância do que (…) as pessoas” [1].   Para infortúnio dos nossos contemporâneos, creio, a obsessão com os défices e as dívidas encontra se hoje hiperbolizada. A preocupação com a escassez de recursos financeiros – os meios – conduz a generalidade dos analistas a negligenciar as finalidades das políticas, eclipsando totalmente o seu propósito humano.

Perspectiva que se revela hoje particularmente expressiva e perversa quando aplicada à esfera das políticas de segurança social. Analisados os sistemas de pensões sob a óptica exclusiva dos custos, o seu propósito último   a segurança de rendimento na reforma – não é sequer mencionado em grande parte dos inúmeros estudos e análises publicados sobre esta matéria. Em consequência, o sucesso das políticas passa a ser avaliado a partir dos seus efeitos sobre os equilíbrios financeiros, presentes e futuros. Assim se construiu a retórica da insustentabilidade das políticas sociais, apoiada numa fortíssima pressão política para a contenção da despesa e na omissão dos efeitos perversos do modelo de regulação macroeconómica seguido na UE sobre esses equilíbrios. O impacto das políticas nas vidas humanas foi ignorado – não integrou a equação – ficando completamente obscurecido pelos dogmas e pelo esquecimento.

Acredito que há razões ponderosas que nos impelem a mudar de perspectiva, na análise económica em geral, mas sobretudo no domínio das políticas sociais, área de relevância crítica pelo seu contributo para a qualidade de vida e a plena realização das potencialidades humanas.

Por pensar assim, este livro foi escrito contra a corrente. Nele, as políticas de pensões são examinadas tendo como ponto de partida os fins dos sistemas e não apenas os seus meios: o livro centra se na segurança de rendimento na reforma.

Este modo, claramente minoritário, de analisar e avaliar as políticas parece me poder ser legitimado por dois argumentos. Porque a consistência lógica a isso obriga, já que o desempenho de um qualquer sistema só pode ser aferido pelo grau de concretização da finalidade que se propõe alcançar. E porque os sistemas de pensões, como quaisquer outros sistemas, não devem ser avaliados independentemente das suas finalidades humanas. Este é um imperativo ético.

[1] Richard Titmuss, The Nation’s Wealth, Extract from Parents Revolt (1943), reprinted in Pete Alcock, Howard Glennerster, Ann Oakley and Adrian Sinfield (eds.), Welfare and Well‐being: Richard Titmuss’s Contribution to Social Policy, Bristol, Policy Press, 2001, p.17.

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Lançamento de «A Economia das Pensões»

Foi na passada sexta-feira, 23, na Almedina Estádio, em Coimbra. Perante um público numeroso e atento, Joaquim Feio, da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, apresentou a obra de Maria Clara Murteira integrando a questão das pensões na longa duração da modernidade social e económica, chamando a atenção para os perigos do pensamento único nesta matéria e saudando a contribuição do livro para a denúncia do senso comum que hoje vigora na abordagem das pensões.

«A Economia das Pensões», no Le Monde Diplomatique

Chama-se «Contra a economia do medo», assina João Rodrigues e é a primeira recensão do volume de Maria Clara Murteira A Economia das Pensões, na série de Economia da Biblioteca Mínima, obra que teve já o seu lançamento na Almedina Estádio, em Coimbra. Com a devida vénia, anexamos imagem do texto.

«O essencial sobre a Economia das Pensões»: lançamento na próxima sexta-feira

Margarida Chagas Lopes sobre economia da educação e formação

Margarida Chagas Lopes é docente do ISEG e autora de vasta bibliografia nas áreas de Economia do Trabalho e do Emprego, Estudos de Género, Economia das Organizações e Economia da Educação e da Formação. Na Angelus Novus publicou, na série de Economia da Biblioteca Mínima, um volume dedicado à Economia da Educação e Formação. Na sequências das entrevistas que vimos fazendo a autores de volumes da Biblioteca Mínima, ouvimos Margarida Chagas Lopes sobre as temáticas abordadas no seu livro, desde já uma obra de referência sobre a matéria em Portugal.

P. O seu livro dedica uma considerável energia teórica a uma crítica dos fundamentos das teorias do capital humano na educação e formação. Por um lado, essas teorias incorrem em funcionalismo, na medida em que atribuem à Escola «o papel central de preparação dos indivíduos para o mercado de trabalho» (p. 13), esquecendo que (i) «os contextos de trabalho sofrem nos dias de hoje processos de evolução de dinâmica rápida» (p. 14) e que (ii) «A preparação dos indivíduos para o mercado de trabalho é (…) uma das funções da escola» (p. 15) mas «a sua missão e vocação ultrapassam de longe esta visão funcionalista» (pp. 15-16). Por outro lado, e não obstante os ganhos cognitivos da noção de «investimento» trazida pelas teorias do capital humano, na medida em que «tiveram o enorme mérito de revelar e instituir a natureza também económica dos percursos educativos» (p. 25), essas teorias tendem a obliterar o facto de que a Educação exige «uma abordagem multidisciplinar» (id.). Contudo, uma das consequências mais visíveis da crise actual tem sido o redobrar do apelo a uma concepção funcionalista da Escola, como fornecedora de mão-de-obra qualificada às empresas. Num país com os nossos défices acumulados em educação e formação, acha que é possível evitar o recrudescimento de apelos deste tipo a um modelo já ultrapassado?

R. O recurso persistente a modelos que a realidade se vem encarregando de pôr em causa é uma constante em economia e não só em economia da educação. Isso sucede tanto mais quanto esses modelos e teorias – como as do capital humano – se inscrevem no pensamento dominante, ou na mainstream economics, como numa perspectiva crítica costumamos referir-nos. A história da educação mostra-nos que a abordagem pluridisciplinar, com preocupações epistemológicas mais amplas, visando a análise e a fundamentação de políticas socialmente pertinentes … é não só possível mas perfeitamente oportuna em situações de “défices acumulados em educação e formação”. Considere-se a 1ª República e a implementação de medidas no sentido de uma escola mais igualitária em Portugal; ou a Reforma Veiga Simão, em 1972, propulsora de um reganhar de terreno dos ensinos técnico e profissional… E isto para referir dois exemplos não inscritos ainda na sociedade democrática do após 1974. A perspectiva económica, e social, de preparação para o mercado de trabalho e de razoabilidade do investimento feito em educação é útil e organizadora. Não deve é tornar-se dominante e exclusiva sob pena de se operar um reducionismo irreversível no âmbito da educação enquanto bem/serviço público e/ou mecanismo de intervenção social.

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Elsa Lechner, em entrevista sobre «Migração e Conflito»

Elsa Lechner doutorou-se em Antropologia Social pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris, e é actualmente co-coordenadora do núcleo das Humanidades, Migrações e Estudos para a Paz, do Centro de Estudos Sociais. Na Angelus Novus publicou recentemente, na série de Antropologia da Biblioteca Mínima, dirigida por Luís Quintais, o volume Migração e Conflito.

Sobre as temáticas do livro, e na sequência da entrevista com outro autor da Biblioteca Mínima, Daniel Melo, ouvimos Elsa Lechner.

P. O tratado de Maastricht, de 1992, ao criar a «cidadania da União Europeia» instituiu, entre outras coisas, a livre circulação de pessoas nesse espaço. Ao fazê-lo, de certo modo recodificou, na UE, a noção de «migrante», que passou a ser aplicada àqueles que vêm de fora da UE. Ou seja, no mesmo momento em que «desdramatizou» a circulação de pessoas dentro do espaço europeu, deslocou a «dramatização» conatural ao acto de migrar para os que vêm de fora, como se este elemento dramático não pudesse deixar de estar presente quando falamos de migrações, mesmo se ele vai sendo objecto de recodificações como esta. Mas, em rigor, e fazendo um pouco o papel de advogado do diabo, podia ser de outra maneira? Um espaço desta dimensão no qual se advoga e pratica a «livre circulação de pessoas» não é por isso submetido a tensões para cuja gestão é necessária toda a energia e atenção? Pode a União Europeia gerir as migrações internas dos cidadãos dos seus 27 membros e ainda abrir-se aos fluxos migratórios do resto do mundo sem exceder a sua capacidade de assimilação e gestão de conflitos?

R. O Tratado de Maastricht de 1992 “acabou” (na letra da Lei) com os tempos dolorosos da «mala de cartão» ao criar a «Cidadania da União Europeia» que instituiu a livre circulação de pessoas oriundas dos países da União. Esses tempos de clandestinidade ficaram na memória de milhões de emigrantes que deram o salto em condições dramáticas nos anos sessenta quando apenas existia o Mercado Comum dos seis países signatários do Tratado de Roma. Hoje, nas fronteiras da União de 27 países europeus basta mostrar um documento de identificação para um português poder entrar. Se um português desempregado se vê obrigado a deslocar-se a Paris ou Hamburgo, por exemplo, para encontrar trabalho, ele ou ela não é legalmente considerado emigrante (embora estrangeiro) mas sim um cidadão europeu à procura de emprego num outro país da EU. Pelo contrário, os trabalhadores de países terceiros precisam de autorização específica para trabalharem e se instalarem no espaço da UE.

Ora, é preciso ter em conta que o acto de migrar e as múltiplas experiências migratórias de sujeitos em carne e osso do presente, do passado e do futuro, na UE como no resto do planeta, comportam dramas inegáveis que devem ser conhecidos e reconhecidos pelos Estados e pelos cidadãos, numa visão de conjunto. Tais dramas convocam a atenção não só de uma visão aproximada, concreta, pessoalizada e sensível dos fenómenos migratórios, mas também deveriam interessar as políticas dos diversos Estados e da comunidade internacional. É certo que a primeira visão pouco coincide com a segunda, mesmo quando existe boa vontade política e esforços militantes de associações e grupos humanitários que trabalham de perto com migrantes. Vejam-se os casos diários de controlo, retenção, e deportação de migrantes nas fronteiras da Europa Fortaleza: essas existências declaradas infames pelas normas de segurança das nações, são marcadas por uma precariedade limite que nos fazer questionar o que é uma vida em espera numa fronteira, entre muros, sem laços de pertença ou mesmo de solidariedade. A política europeia de controlo das migrações parece esquecer, todos os dias, como a circulação de pessoas sempre foi uma constante da história do continente Europeu. A questão das migrações vindas do exterior não se deve conceber pois nos termos meramente judiciais e de policiamento da “capacidade de gestão interna” da União, mas no horizonte de uma abordagem compreensiva que articule as diversas dimensões (histórica, social, política, cultural, de cidadania, ambiental, etc.) dos fenómenos migratórios.

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Daniel Melo, sobre a cultura popular no Estado Novo e hoje

Daniel Melo é historiador e investigador auxiliar no Centro de História da Cultura da Universidade Nova de Lisboa. Doutorado em História Contemporânea, tem obra vasta sobre o período, destacando-se os livros Salazarismo e Cultura Popular (1933-1958) e A Leitura Pública no Portugal Contemporâneo (1926-1987), ambos galardoados com o Prémio de História Contemporânea Victor de Sá. Co-organizou os livros A Globalização no Divã (2008) e Construção da Nação e Associativismo na Emigração Portuguesa (2009). O seu livro mais recente é A Leitura Pública na I República (2010).

Sobre o livro A Cultura Popular no Estado Novo, que integra a nossa colecção Biblioteca Mínima de História, dirigida por Rui Bebiano, ouvimos o autor. Esta entrevista abre uma série de entrevistas a autores de volumes publicados nas várias séries da Biblioteca Mínima.

P. A sua análise daquilo a que chama «a imposição à sociedade portuguesa de um modelo nacionalista, ruralista e tradicionalista de cultura popular» (p. 121) dá a ver, por um lado, a identificação do próprio Salazar com a matriz rural desse «popular» e, por outro, «o logro de sustentar a especificidade de uma cultura popular concebida autarcicamente e de modo pretensamente abstracto» (id.). O Estado Novo, como diz, centrou os seus esforços de produção de uma cultura popular no elemento rural, ao qual se deveriam as tradições que nos distinguem como Nação. Mas se, como nota, não há cultura popular realmente específica, uma vez que as características genéricas da sociabilidade humana e do processo civilizacional são comuns a todas as culturas, isso significa que não é possível fundar e legitimar a Nação sobre a «cultura popular». Mais latamente, isto significa que uma Nação não se legitima por uma forma qualquer de cultura, seja ela popular ou não?

R. Não necessariamente, basta constatar como os regimes nacionalistas o souberam fazer, incluindo o Estado Novo português. Essa cultura popular oficialmente estimulada, sustentada, foi, de facto, uma ‘almofada’ social, na medida em que funcionava como contraponto às alterações tecnológicas, económicas, sociais (e culturais) em curso (ainda que estas decorressem de modo mais lento do que nos países mais industrializados e/ou abertos). Um conforto existencial face aos receios que a mudança pode compreensivelmente despertar. Mas, de par, um pilar ideológico, guia da acção e inculcador de certos valores, práticas, vivências e comportamentos, fortemente unidimensionais.

Agora, se falarmos em países democráticos, parece-me que a própria concepção de democracia – assente no pluralismo, na cidadania, no desenvolvimento, etc. –, implica a saída do Estado do espaço de determinação ou imposição duma cultura oficial, ainda que desenvolva (e deva desenvolver) uma política cultural sólida. O que importa aqui é criar condições para a afirmação do pluralismo, para a autoformação e emancipação dos cidadãos e para a criação duma esfera pública diversificada, crítica, exigente.

Digamos que, a existir uma cultura nacional, ela resultará necessariamente das interacções entre Estado, mercado e sociedade civil, e advirá em boa medida da interdependência entre fontes mais localizadas, ‘comunitárias’ (à escala local, regional, nacional, das diásporas) e mais universais, cosmopolitas. Donde, uma cultura essencialmente cívica, assente nos valores da res publica e da democracia integral, a um tempo política, económica, social e cultural. Não sei se fui claro, mas o que atrás disse não invalida que existam especificidades culturais, singularidades próprias de cada país, para falarmos num território concreto. Contudo, isso não chega para definir a cultura de cada país. Seja hoje, seja num passado recente. Porque a globalização cultural, civilizacional, etc., ou seja, a interdependência de culturas, não começou hoje (ou recentemente), foi acontecendo ao longo de séculos.

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Semanário Registo, edição 136, página 21

Uma análise de A Cultura Popular no Estado Novo de Daniel Melo, na edição 136, do semanário Registo.

A Cultura Popular no Estado Novo n’os meus livros

O número 94, de Janeiro 2011, da revista os meus livros apresenta em quatro esclarecedoras secções a obra de Daniel Melo:

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«Assessoria de Imprensa : questões, contextos e práticas»

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Um guia para as relações entre a empresa e os Órgãos de Comunicação Social. Uma indispensável ferramenta de gestão.

Depois da turbulência da I República… o Estado Novo

Em Portugal, o Estado Novo materializou a superação da Ditadura Militar, que governara em precário equilíbrio (8 governos, várias intentonas militares e agitação social) desde que uma fronda nacionalista, autoritária e de direita derrubara a I República, no golpe militar de 28 de Maio de 1926. Representou o desejo de institucionalização dum regime de tipo novo, ecoando a vaga fascista que varria o mundo ocidental de então.

Esta vaga relacionava-se com um contexto particular, marcado pela crise das democracias liberais (re-flectindo as limitações dos seus processos modernizadores e eventos traumáticos como a I Guerra Mundial e a crise bolsista de 1929) e pela entrada das massas no sistema político e na participação cívica, cujas necessidades e expectativas punham as elites à prova.

A este contexto corresponderam distintas saídas políticas, sendo que uma das soluções de tipo novo que então surgiu se posicionava entre o capitalismo e o comunismo, ou seja, pretendia desbravar uma «terceira via» política, equidistante das restantes, impondo um Estado forte para defender o primado do ideal nacionalista e construir uma nova sociedade, assente no corporativismo, na recusa da luta de classes e na nacionalização das massas (Mosse, 1991: maxime 1-20). A esta solução, que era uma reacção moderna ao processo de modernização em curso no mundo ocidental, foram aderindo vários países, a ponto de se tornar uma corrente dominante no espaço europeu – são os casos da Itália fascista, da Alemanha nazi, da Espanha franquista e da França pétainista, só para falar dos mais próximos.

É neste quadro que se compreende o hibridismo ideológico do Estado Novo português. Na sua génese, articulou as seguintes fontes ideológicas: 1) o nacionalismo autoritário (dos segmentos republicano presidencialista e conservador radical); 2) o catolicismo conservador (incluindo o integrista e o democrata-cristão); 3) o integralismo lusitano, com uma grande afinidade ideológica à Action Française e tido, por vários autores, como uma variante nacional do fascismo; 4) a doutrina fascista; 5) um certo modelo desenvolvimentista (Martins, 1998: 19-46; Lucena, 1976: 16-48; Rosas, 1992 e 1994; Pinto, 1992; Torgal, 2009).

Disponível a partir de hoje

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Perante um discurso assim do vértice do regime, «filho do campo», não é de admirar que o discurso oficial tenha sido tão impregnado por uma exaltação ruralista, de teor bucólico e revivalista.

O corporativismo será apresentado como a fórmula política e institucional que melhor corresponde à secular identidade da sociedade portuguesa. Nele tem particular relevância a institucionalização corporativa rural, com as casas do povo, os grémios e os organismos específicos de coordenação económica, coadjuvados pela FNAT e o Instituto Nacional do Trabalho e Previdência (INTP), e, mais tarde, pela Junta Central das Casas do Povo (JCCP), Junta de Acção Social (JAS) e Corporação da Lavoura. Não é já só o campo que representa a expressão máxima duma identidade nacional, a estrutura corporativa é também ela apresentada como uma criação ideal. As casas do povo são erigidas no modelo perfeito desta simbiose entre o regime e o povo, personificando, ao nível microcósmico, uma relação umbilical que possibilita a vitalidade do corpo nacional. António Júlio de Castro Fernandes, um dos dirigentes e doutrinadores corporativistas mais influenciado pela lição fascista (sobre a sua missão de estudo em Itália editou o livro O corporativismo fascista, de 1938), afirmará que, na «organização corporativa», aquelas são «a concepção mais portuguesa e mais adequada à nossa vida tradicional». Por sua vez, seria na «vida rural» que cada povo realizaria o máximo do «particular, a mais alta proporção do nacional». Proporcionaria o modo de vida mais saudável, regrado e enriquecedor, em oposição aos vícios, desgaste e despersonalização do mundo urbano:

«O trabalho na cidade, na fábrica, no armazém ou no escritório, é caracterizado pela fealdade, pela monotonia, pela rotina, que cansam, deprimem e envilecem […] O trabalho rural, pelo contrário, inspira beleza, exige variedade e excita o engenho. Na agricultura, o trabalho, realizado num ambiente são, varia com o calendário. […] Se quisermos, numa síntese, distinguir o trabalhador rural do trabalhador urbano, poderemos dizer que o primeiro é o homem de carácter, com personalidade, e o segundo o homem vulgar, o homem comum, o homem de massa» (idem, p. 80).

Pré-lançamento: «A Cultura Popular no Estado Novo» – Daniel Melo

 

Eis a mais recente publicação da Angelus Novus Editora: A Cultura Popular no Estado Novo de Daniel Melo. O livro estará nas livrarias a 1 de Outubro de 2010. Até lá, pode realizar a sua encomenda no site da Angelus Novus (ou, alternativamente, comercial@angelus-novus.com ou 239 713 050) e receberá em sua casa o seu exemplar, no dia 1 de Outubro de 2010, com os habituais 10% de desconto e portes de envio gratuitos para Portugal.

A Cultura Popular no Estado Novo – pré-publicação

 

Começamos pelo vértice do regime. Nos seus discursos, Salazar referiu-se pontualmente ao problema do popular sob várias perspectivas: a da realização política prática, ao nível das infra-estruturas (as chamadas «obras públicas»: escolas, bairros sociais, fontanários, pontes, etc.) e de certas instituições oficiais; a da educação, como arma formativa dos portugueses e de garantia de oportunidades de promoção social para todos; a da ideologia, consagrando a família, a tradição, a pátria e o catolicismo como elementos identitários do povo português, que o Estado tinha o dever de exaltar e fortalecer; e a do recreio, como momento oportuno de afirmação positiva da vida.

Na concepção do ditador, o popular tem uma matriz rural, com a qual se identifica pessoalmente: «No espírito do rural que eu sou – de raiz, de sangue, de temperamento –, apegado à terra, fonte de alegria e do alimento dos homens» (1949). A cultura popular urbana é quase olvidada nos seus discursos e, quando se lhe refere, fá-lo de modo depreciativo, lamentando que a «gente de Lisboa passe as horas e dias de repouso acotovelando-se tristemente pelas ruas estreitas», e que aos domingos os jovens encham os cafés para discutir «os mistérios e problemas de baixa política», deixando o Tejo vazio de actividades náuticas e envergonhando este «País de marinheiros» (1933).

O combate que moverá contra os malefícios e a degenerescência civilizacionais da modernidade – que ameaçariam «a força criadora do génio sob o peso de importações alheias», a integridade social e a «potencialidade procriadora da raça» – traduz uma crítica implícita ao modelo urbano e da sociedade de massas e é um modo de enquadrar ideologicamente a questão do popular. A este contrapõe um modelo de moralização e protecção sociais a todos níveis (incluindo na educação), a centralidade social da família patriarcal, a higienização física (desporto ao ar livre, contacto com a natureza) e o «regresso sistemático ao campo e às suas virtudes». Repisaria o tema amiúde, como neste discurso de 1937:

 

 

«o ideal é fugir ao materialismo do tempo: levar a ser mais fecundo o campo, sem emudecer nele as alegres canções das raparigas; tecer o algodão ou a lã no mais moderno tear, sem entrelaçar no fio o ódio de classe nem expulsar da oficina ou da fábrica o nosso velho espírito patriarcal. […] queremos a todo o transe preservar da onda que cresce no mundo a simplicidade de vida, a pureza dos costumes, a doçura dos sentimentos, o equilíbrio das relações sociais, êsse ar familiar, modesto mas digno da vida portuguesa – e através dessas conquistas ou reconquistas das nossas tradições, a paz social».

 

Migração e Conflito

               

     

                    

«Migração e Conflito» de Elsa Lechner, disponível a partir de hoje

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É já no sábado

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A esquerda radical na praça Tian an Men e em Xangai

A sedução chinesa, via Paris. Sollers sorridente e militante (e disponível à pose heróica, com bandeira e tudo), Barthes, recuado e alheado (e de gravata). Um mundo de diferenças.

A esquerda radical e a imprensa

«Dinamite cerebral», como diz José Pacheco Pereira na TV.

«Vermelho Rouge»: Rui Bebiano sobre «A Esquerda Radical»

Rui Bebiano, autor da Angelus Novus e director da série de História da Biblioteca Mínima, acaba de publicar no seu A Terceira Noite um post obrigatório sobre O Essencial sobre A Esquerda Radical, o muito recente livro de Miguel Cardina.

Em 7 pontos, a melhor introdução possível à leitura de um volume apresentado por Bebiano como «uma eficaz síntese sobre a intervenção cívica, durante os derradeiros anos do Estado Novo, de um sector da oposição que até agora tem sido referido num registo meramente memorialista e autocomplacente, ou ao nível da boutade sobre o «tenebroso» passado político de Fulano, Sicrano ou Beltrano.»

Chama-se (e bem) Vermelho Rouge.

«Economia da Educação e Formação»: novidade

Dirigida por Margarida Antunes, Professora da faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, a série de Economia da Biblioteca Mínima estreia-se com uma obra de Margarida Chagas Lopes. Começando por uma crítica das teorias do «capital humano» na educação, a autora aborda depois os problemas fundamentais da Escola num contexto civilizacional marcado por mutações rápidas e imprevisíveis e num mercado de trabalho no qual os tempos de resposta da procura e oferta de mão-de-obra qualificada se revelam tendencialmente não coincidentes.

Num mundo em que a Educação e a Formação se tornaram bens críticos, este livro é fundamental também para se perceber as razões do bloqueio económico e social português.

«A Esquerda Radical», por Jean-Luc Godard (II)

Mao sobre Miguel Cardina (II)

«A crítica deve fazer-se a tempo; não há que se deixar levar pelo mau costume de criticar só depois de consumados os factos».

Mao sobre Miguel Cardina (I)

«Ler demasiados livros é perigoso».

Trotski sobre Miguel Cardina

«O livrinho parece-me um caso óbvio de revisionismo. Só assim se entende que os maoístas ocupem mais páginas do que os meus discípulos!»

Estaline sobre Miguel Cardina

Traduzindo por miúdos o discurso em cirílico ao fundo da imagem, é isto:

«Correi às livrarias, comprai e lede o livrinho do Cardina! Está lá tudo o que importa saber sobre a luta pela gloriosa Revolução Socialista em Portugal nos anos 60 e 70 e contra os desvios de direita!»

Miguel Cardina: entrevista sobre «A Esquerda Radical»

Miguel Cardina é investigador do CES e publicou na Angelus Novus A Tradição da Contestação. Acaba de publicar, na série de História da Biblioteca Mínima, o volume O Essencial sobre A Esquerda Radical. Entrevistámos o autor sobre o seu livro mais recente, que depois de ter sido apresentado em Lisboa na passada quarta-feira, sê-lo-á hoje em Coimbra.

P. Porquê “esquerda radical” e não “extrema-esquerda”, como é mais habitual?

R. Uso ambos os termos ao longo do texto, mas optei pelo primeiro como título por remeter para um universo de contestação que é não só político como também cultural, em sentido lato. É certo que o livro trata sobretudo do radicalismo político, mas não se pode compreendê-lo se não tivermos em conta as mudanças ao nível das dos discursos, das sociabilidades, dos gostos e práticas culturais que emergem nos anos sessenta e setenta, que é o período no qual centro a atenção.

P. Não lhe parece que a esquerda radical em Portugal clona de certa maneira a francesa?

R. A França é sem dúvida fundamental para se compreender a esquerda radical portuguesa daqueles anos. Antes de mais porque muita da militância era desenvolvida a partir do exílio parisiense ou em articulação com ele. E também, é claro, porque vivíamos num Portugal cuja elite ainda era maioritariamente francófona, se bem que as coisas se começam a alterar nessa altura. Por outro lado, há elementos específicos associados à realidade portuguesa que estão muito presentes na esquerda radical do país, e que naturalmente não se podem encontrar da mesma forma em França: é o caso da guerra colonial e das práticas e discursos que contra ela são mobilizados.

P. A linha “reformista” do PCP foi ou não decisiva para o progresso dos radicais?

R. A primeira e mais nítida configuração esquerdista nos anos 60 – a ruptura de Francisco Martins Rodrigues com a sucessiva criação da FAP e do CMLP – é antes de mais uma ruptura com o “reformismo” do PCP. Noutras áreas, grupos como o MAR, a LUAR, etc., criticavam o “pacifismo” do PCP e as teses do “levantamento nacional” e da união de “todos os portugueses honrados”, vistas como conciliatórias e pouco arrojadas. Mas parece-me que o elemento central – não o único – que explica o progresso do radicalismo naqueles anos foi a posição do PCP de não estimular a deserção.

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Rui Bebiano em entrevista sobre a Biblioteca Mínima de História

Rui Bebiano é Professor Auxiliar da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e um dos autores de referência da Angelus Novus. Na nossa editora publicou já três livros – o volume de «crónicas digitais» Folhas Voláteis, o estudo inovador sobre a cultura jovem nos anos 60 em Portugal, O Poder da Imaginação, e o muito recente ensaio Outubro – e dirige a série de História Contemporânea da Biblioteca Mínima. No momento em que a colecção se inicia, com a publicação de A Esquerda Radical, de Miguel Cardina, ouvimos Rui Bebiano sobre o perfil e propósitos da colecção.

P. Quais são os objectivos da colecção de História da Biblioteca Mínima?

R. Pretende-se oferecer a um público o mais alargado possível – composto maioritariamente por professores, estudantes, jornalistas e amantes da História, mas também por historiadores e por profissionais de outras áreas do conhecimento – um conjunto de sínteses actualizadas sobre temas e problemas associados a um passado colectivo que possa ser integrado na experiência da contemporaneidade.

P. Trata-se de uma colecção centrada na História Contemporânea portuguesa. Qual a baliza cronológica mais antiga dos volumes da série?

R. Nesta fase de arranque da colecção, a cronologia deverá recuar sensivelmente até aos anos da Segunda Guerra Mundial, avançado depois até um tempo tão próximo de nós quanto uma abordagem histórica sustentada e rigorosa o permita.

P. A colecção abre com A Esquerda Radical, de Miguel Cardina. Que outros volumes se encontram prontos a editar e em preparação?

R. Os próximos volumes serão sobre a cultura popular em Portugal durante o Estado Novo, de Daniel Melo, e sobre a imprensa periódica em Portugal no pós-25 de Abril, de João Figueira. Depois destes deverá sair um sobre história do tempo presente.

P. Está prevista uma abordagem de temas numa perspectiva internacional, ou a colecção, nesta primeira fase pelo menos, ficar-se-á por Portugal?

R. Após esta etapa de lançamento da colecção, mais centrada na realidade portuguesa, iremos, de facto, procurar abordar temas que ultrapassarão o campo mais específico da História de Portugal. Pensamos mobilizar para o efeito investigadores nacionais, alguns deles jovens mas já com provas dadas.

P. Acha que a colecção tem um lugar no panorama da edição portuguesa sobre História?

R. Existe em Portugal uma ausência evidente de livros credíveis e de carácter não sensacionalista, escritos por portugueses, apoiados em investigações de natureza interdisciplinar e vocacionados para um público-leitor com interesses no domínio da História. A historiografia académica raramente contempla esta vertente. Esperamos que esta colecção possa ajudar a inverter a situação.

«A Esquerda Radical»: agora em Coimbra

A esquerda radical em Portugal (I)

Uma das personagens da curta-metragem de Miguel Cardina, A Esquerda Radical, agora num cinema perto de si.

Com as legendas, talvez por serem em inglês, entende-se melhor.

Até ao 25 de Abril, Cardina x 4

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   #4

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A afirmação da esquerda radical durante os anos sessenta e setenta fez-se de caminhos de renovação teórica e experimentação geracional fortemente apostados em transformar o existente. Apesar da sua configuração múltipla e por vezes conflitual, este cosmos rebelde teve características comuns, que foram da rejeição das hegemonias bipolares da guerra fria à crítica aos modos tradicionais de autoridade; da recusa do imperialismo à sedução por um novo imaginário de combate; da produção e consumo de formas artísticas de matriz contracultural à valorização do papel da juventude como motor da transformação social.
A fecundidade deste movimento não se revelou num momento preciso de ruptura, como sucedeu em 1789 ou em 1917, mas através de um processo continuado que foi modificando substancialmente o campo social e político e as aspirações culturais de sectores significativos da população. Na realidade, se a esquerda radical adjudicou a si mesma a tarefa prometeica de fazer o proletariado cumprir as predições do materialismo histórico, o certo é que foi também a partir desse húmus que se desenvolveram
novos tópicos contestatários que, matizando os conflitos de classe, acentuaram o enfoque em formas mais plurais de libertação.
Em Portugal, este pequeno universo em expansão definiu-se, de modo ambivalente, na recusa do Estado Novo e na busca de uma linha de demarcação relativamente ao PCP, ainda que por vezes, nomeadamente no campo maoísta, se tenham adoptado práticas e discursos implícita ou explicitamente oriundos da tradição comunista. Por outro lado, a demanda de traços anticapitalistas e internacionalistas e a sua particular radicação nos territórios juvenis ajuda a explicar o enfoque decisivo na questão colonial.
Na verdade, se o mostruário programático das organizações foi muitas vezes reticente na adopção explícita de práticas e discursos que fossem além do marxismo-leninismo mais estrito, não há dúvida que foi também no difuso território do radicalismo – não necessariamente militante mas nem por isso menos politizado – que se exprimiram alguns dos contornos da mudança cultural ocorrida nos designados «longos anos sessenta». Deste modo, o livro que se apresenta não pretende apenas fazer a história e a pré-história de alguns partidos de esquerda que marcaram em Portugal o último quartel do século XX, mas também deixar entrevista a maneira como esta constelação radical ajudou a construir uma cultura de conflito e um desejo de modernidade ao qual o presente não permanece alheio.

  Miguel CardinaA Esquerda Radical – p. 111-112

 

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No dia em que se celebra o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor

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a Angelus Novus sugere:

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Até ao 25 de Abril, Cardina x 4

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   #3

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Acontecimentos como as lutas estudantis, as «eleições» de 1969, as agitações em meio operário e até mesmo as acções de auxílio às cheias ocorridas em Novembro de 1967, foram sem dúvida importantes no alastrar das dinâmicas oposicionistas. No entanto, foi o prolongamento das guerras coloniais que mais dano causou ao regime. Iniciadas em Fevereiro de 1961, em Angola, e progressivamente estendidas a outros territórios – Guiné, em Janeiro de 1963 e Moçambique, em Agosto de 1964 – as guerras que o Estado português travou contra os movimentos independentistas africanos estiveram mesmo, como é sabido, no nascimento do movimento de capitães que haveria de derrubar o regime na madrugada de 25 de Abril de 1974.
A guerra colonial – como qualquer guerra, aliás – era uma questão que dizia respeito, em primeiro lugar, à juventude. Quase todos os rapazes tinham de cumprir um longo serviço militar de pelo menos três anos, em condições de risco físico e psicológico acentuado. Deste modo, o conflito nas colónias foi provocando lentamente um afastamento claro entre os interesses do Estado Novo e as aspirações juvenis. Entre 1961 e 1974, perto de 200.000 jovens faltaram à chamada para a tropa. O número de refractários situava-se, entre 1970 e 1972, já acima dos 20%, contabilizando-se mais de 50.000 faltosos nesses três anos. Tenha-se em conta que, à excepção de Israel, Portugal tinha percentualmente mais homens em armas do que qualquer país ocidental. A mobilização teria sido equivalente aos EUA colocarem 2.5 milhões de homens no Vietname, em lugar dos cerca de 500.000 que lá estiveram Contrastando com a atitude pactuante da generalidade da hierarquia católica, alguns sectores católicos desenvolveram então uma acção de timbre pacifista, essencialmente caracterizada pela tentativa de romper a censura e informar sobre a guerra. Inscrevem-se aqui as dissensões públicas de padres como Felicidade Alves e Mário de Oliveira, mas também publicações como o Direito à Informação, os cadernos GEDOC ou o Boletim Anti-Colonial, e vigílias pela paz como as realizadas nos últimos dias de 1968, em S. Domingos, e de 1972, na Capela do Rato. Muitos «católicos progressistas», aliás, distinguiram-se no auxílio às passagens «a salto» da fronteira luso-espanhola.
No entanto, até final dos anos sessenta a contestação ao conflito mantinha-se confinada a alguns círculos de reflexão crítica. Em Fevereiro de 1968, uma manifestação contra a guerra do Vietname frente à Embaixada dos EUA havia já indirectamente trazido o tema para a rua. Todavia, na importante crise estudantil ocorrida em Coimbra, em 1969, a guerra colonial ainda está ausente do catálogo explícito de reivindicações, se bem que logo a seguir se torne a questão primordial do activismo nas universidades.

  Miguel CardinaA Esquerda Radical – p. 85-87

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Até ao 25 de Abril, Cardina x 4

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   #2

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O alinhamento dos programas político-filosóficos de acordo com os classificativos de «esquerda» e «direita» remonta ao período da revolução francesa. Foi do lado esquerdo do rei que no final do século XVIII se sentaram aqueles que clamavam por mudanças, ocupando o pólo oposto os representantes do clero e da nobreza, defensores da monarquia e dos privilégios. É também por esta altura que surge uma «esquerda da esquerda», caracterizada por desejos explícitos de igualdade radical e de supressão da propriedade individual. Uma das suas primeiras manifestações foi a «Conspiração dos Iguais», chefiada por Graco Babeuf (1760-1797), que tentou promover uma insurreição social que visava a colectivização das terras e o prolongamento da revolução. Se é apenas no século XIX que se estruturam claramente as duas grandes linhas que irão alimentar a esquerda radical – o comunismo e o anarquismo – houve quem já tivesse celebrado acontecimentos anteriores à revolução francesa como matrizes ancestrais desta impaciência igualitária. Entre os exemplos evocados está a sublevação do escravo Spartacus (109 a.c – 71 a.c.) na Roma Antiga, algumas expressões do catolicismo primitivo ou a pulsão milenarista que guiou a revolta camponesa de Thomas Müntzer (1489-1525). Qualquer que seja a sua génese, a extrema-esquerda acabou por se definir historicamente em torno de atitudes políticas centradas na desconsideração do parlamentarismo e na defesa de lógicas de intervenção hostis à transigência e ao reformismo. Subjacente a estes posicionamentos, ecoava uma percepção optimista do género humano e da sua capacidade de accionar formas profundas de cooperação, estímulo que não só absolveu, como por vezes exigiu mesmo, o recurso redentor às armas.

  Miguel Cardina A Esquerda Radical – p. 11-12

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Até ao 25 de Abril, Cardina x 4

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Em contagem decrescente até ao 25 de Abril a Angelus Novus divulga 4 excertos (dois deles acompanhados por ficheiros áudio) do livro A Esquerda Radical de Miguel Cardina.

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   #1

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As décadas de sessenta e setenta assistiram à chegada de uma nebulosa de militâncias inequivocamente colocadas à esquerda. Os novos andamentos contestatários recusavam as supremacias geopolíticas oriundas do pós-guerra ao mesmo tempo que estimulavam – e eram estimulados – pelas grandes mutações sociais, culturais e morais que atravessavam a época. Um notório jogo de semelhanças agrupava esse feixe plural, suportado na crítica aos partidos comunistas tradicionais, na activação de um internacionalismo de novas cores e na tentativa de alargamento do «político» a domínios considerados pouco antes como exclusivamente privados. Em suma, nunca Marx e Rimbaud haviam estado tão perto: «mudar o mundo» e «mudar a vida» faziam agora parte de um mesmo impulso.

  Miguel Cardina A Esquerda Radical – p. 7

 

  

A Esquerda Radical – Miguel Cardina

A Angelus Novus prepara-se para lançar um livro marcante sobre uma parte importante da história política do século XX. A Esquerda Radical lança um olhar sobre os grupos políticos e as opções ideológicas desta área política nas décadas de 1960 e 1970. Ao mesmo tempo aborda-se com detalhe a construção e desenvolvimento do radicalismo político em Portugal durante o Estado Novo. Conciliando síntese didáctica e rigor histórico, esta é uma obra essencial para quem pretende conhecer melhor o tema.

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Onde está o Wally?

Estamos de volta com o nosso concurso «Onde está o Wally?», na nova versão inaugurada com Filipe Verde. Como se vê pela foto (basta clicar nela para aumentar), a questão não é agora a de distinguir o nosso autor por entre a multidão, mas sim a de saber, literalmente, onde está ele.

O autor é o antropólogo e poeta (e viajante ocasional) Luís Quintais e a primeira pessoa a acertar na resposta ganhará um exemplar do seu mais recente livro, O Essencial sobre Cultura e Cognição, um dos dois volumes inaugurais da Biblioteca Mínima de Antropologia. Para isso, terão de enviar a vossa resposta para o nosso mail de contacto, acompanhada do endereço e do número de telemóvel (para eventuais problemas de comunicação). O concurso termina às 24 h do próximo dia 12. Não serão aceites respostas enviadas para a caixa de comentários deste post.

Antropólogos e poetas de todo o mundo, uni-vos e respondei!

Onde está o Wally?

Estamos de volta com o nosso concurso «Onde está o Wally?», agora em nova versão. Como se vê pela foto (basta clicar nela para aumentar), a questão não é agora a de distinguir o nosso autor por entre a multidão, mas sim a de saber, literalmente, onde está ele.

O autor é o antropólogo (e grande viajante) Filipe Verde e a primeira pessoa a acertar na resposta ganhará um exemplar do seu mais recente livro, O Essencial sobre Explicação e Hermenêutica, um dos dois volumes inaugurais da Biblioteca Mínima de Antropologia. Para isso, terão de enviar a vossa resposta para o nosso mail de contacto, acompanhada do endereço e do número de telemóvel (para eventuais problemas de comunicação), até às 24 h do próximo sábado, dia 27 de Fevereiro. Não serão aceites respostas enviadas para a caixa de comentários deste post.

Antropólogos e viajantes de todo o mundo, uni-vos e respondei!

Filipe Verde em entrevista sobre «Explicação e Hermenêutica»

 

Filipe Verde é professor do Departamento de Antropologia do ISCTE. Na Angelus Novus publicou em 2008 O Homem Livre. Na Biblioteca Mínima de Antropologia acaba de publicar Explicação e Hermenêutica. Ouvimos Filipe Verde sobre o seu mais recente livro.

P. Na Antropologia, muita gente entende que «hermenêutica» significa «descrição densa», relativismo e pós-modernismo (e o culpado maior deste equívoco seria Clifford Geertz). Este livro parece ter, pois, um propósito correctivo, tal como ele se enuncia na p. 8: «a antropologia quis a um tempo ser ciência, para depois ser anti-ciência, mas não é, nem deve querer ser, sob pena de grosso equívoco, uma nem outra coisa. Ela é parte da tradição humanística, uma disciplina interpretativa que tem aliás um contributo único a dar a essa tradição». Podias dizer-nos em que consiste esse «contributo único» da antropologia para as Humanidades?

R. A antropologia é o resultado da curiosidade pelo que é culturalmente diferente, e constituiu-se num tempo em que ainda havia vestígios significativos dessa diferença. Perdidos nos cantos mais remotos do mundo ainda subsistiam mundos que resultaram de histórias milenares e totalmente independentes da nossa. Alguns deles eram, por razões muito diferentes e próprias a cada um deles, fascinantes o suficiente para que conhecê-los possa ser muito instrutivo. Afinal o que o conhecimento humanístico tem por horizonte é a edificação (a Bildung), e esta é uma forma de abertura ao universal, o resultado de experiências em que abraçamos o estranho para o tornar familiar, para depois regressar e apreender o nosso mundo de origem de uma outra e mais sofisticada e instrutiva perspectiva. A viagem, a história e a arte eram para os românticos os veículos de experiências dessa natureza e, portanto, da educação humanística, entendida como formação não apenas do conhecimento mas também do carácter. Parece-me inquestionável que a antropologia e a etnografia foram e são veículos possíveis de experiências desse tipo. Mas isso supõe, e isto é muito importante, que sejamos capazes de descobrir a inteligência e a relevância, a autoridade em suma, daquilo que esses mundos nos revelam. As suas obras e ideias, como as da história e da arte, contêm o gradiente de distância que permite espelhar o nosso mundo numa imagem que nenhum outro espelho produz e na qual nos podemos por vezes, e como, (re)conhecer.

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