«Doutor Avalanche» a dar que falar

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Além de manter intacta a inventividade já anteriormente demonstrada, Rui Manuel Amaral aprofunda um conjunto de técnicas narrativas que confirmam o seu talento.

Influenciado por um naipe de venerandos autores como Mário Henrique-Leiria, Rabelais, Swift, Cervantes, Sterne, Fielding ou Gógol, Rui Manuel Amaral vale-se do absurdo para impor uma inventividade a todos os títulos notável que vai muito além da brevidade que pauta estas narrativas, nas quais sobressai uma escrita tão depurada quanto cortante.

Jornal de Notícias – Babel – Sérgio Costa

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+ comentários na blogosfera

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«Outubro», por Hugo Pinto Santos

Hugo Pinto Santos publicou, no site Orgia Literária, uma resenha de Outubro, de Rui Bebiano, que vale a pena ler. Eis uma amostra:

Independentemente de partidarismos, ortodoxias ou posicionamentos ideológicos, parece inegável a importância da Revolução Russa para a História enquanto estudo, bem como para a compreensão de, ainda, muito do que forma a actualidade e ajuda a explicar tantos dos seus sinais – «um tempo e um lugar onde foi possível acreditar na materialização de uma das mais antigas intenções humanas: o advento de uma época afortunada» (p. 5). Se, ao serviço do seu estudo e conveniente divulgação, estiver uma voz esclarecida e desembaraçada – despida, para mais, da ganga ideológica (ou que consiga não sufocar sob ela) tantas vezes associada a tais empreendimentos –, estamos perante um livro digno do maior interesse e de particular relevância. Outubro é um desses livros; Rui Bebiano, pelo seu percurso, como pelo que, neste seu livro, nos deixa, é esse autor.

O resto pode ser lido aqui.

Algumas reacções mais ao «Caderno de Memórias Coloniais»

O Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo, continua a suscitar reacções elogiosas. Eis as últimas. No blogue A Natureza do Mal, Luís Januário aborda o livro, em post intitulado Enfim Isabela. Um excerto:

O livro não tem similar na escrita em português contemporâneo. Uma mulher recorda o pai. E nós podemos ver esse homem, cheirá-lo, sentir-lhe a presença. O livro é sobre uma traição fundamental e sobre uma questão fundamental, que não revelarei aos possíveis leitores.

No site do JL, Luís Ricardo Duarte publica uma recensão do livro, sob o título Uma Infância Colonial, de que extraímos também um pedaço significativo:

Isabela Figueiredo não tem medo das palavras. De contar as coisas como elas eram e como as viu. De desenterrar comportamentos e limpá-los do discurso politicamente correcto. E ninguém escapa ao seu olhar conscientemente inocente, em particular a sua família. Sendo uma autobiografia, não foge às memórias fundadoras da sua personalidade. A descoberta da sexualidade, a sua e a dos seus pais, das discrepâncias sociais, da hipocrisia, das infidelidades, dos preconceitos, dos hábitos e costumes, dos passeios e das esplanadas, do Cinema e da Literatura, essa arma de destruição massiva de irrealidades

P.S. Sem prejuízo de informação mais detalhada nos próximos dias, informamos desde já que no próximo dia 6 de Março, sábado, na FNAC do NorteShopping, Porto, o livro de Isabela Figueiredo será apresentado por Ana Luísa Amaral.

O lançamento do «Caderno de Memórias Coloniais» nos blogues

Algumas das pessoas presentes no lançamento do Caderno de Memórias Coloniais em Lisboa, na livraria Pó dos Livros, deixaram nos seus blogues as impressões da sessão. Começamos por Afonso Ferreira, no blogue Um Homem na Cidade:

Para além de bem escrito – Isabela escreve de uma forma crua, inteligente, irónica, com um humor subtil que raramente encontro – o livro desvenda o que era a vida na colónia e como foi vivido o processo de descolonização.

Ao vivo desapontou quem estava à espera de uma pessoa polémica ou com grandes “teorias”. Isabela fala com convicção mas aparenta uma serenidade no discurso e uma segurança face à polémica. Simplesmente diz não reconhecer as opiniões dadas por anónimos nos blogs e fala dos Cadernos como uma visão pessoal que tentou cingir às memórias que guardou – partiu de Moçambique quando tinha doze anos.

Para além de ser um registo fundamental, é de salientar a enorme coragem para publicar o livro, sendo o mesmo em parte baseado na figura paterna e as suas observações sobre o racismo latente na altura serem um assunto ainda hoje tabu.

Dos Cadernos resta dizer que sabe a pouco, lê-se de uma assentada, apetece mais palavras depois da última página. É imperativo um novo livro rapidamente.

Continuar a ler

O lançamento pelo «Irmão Lúcia»

Primeiro, foi assim, num comentário visual à frase emblemática do Caderno de Memórias Coloniais: «Manuel deixou o seu coração em África».

Depois, a reportagem da sessão, que foi «mais ou menos assim».

Com a nossa vénia ao Irmão Lúcia.

«Bichinho de África», por Rui Bebiano

Num post recente n’A Terceira Noite, Rui bebiano recorda como há uns doze anos era muito mais difícil ensaiar «um olhar sobre o passado colonial que parecia então tão improvável quanto impopular». As coisas mudaram, entretanto, e «para que tudo isso possa ser reconhecido, e possam sair dos escombros pedaços de existência injustamente esquecidos, são indispensáveis livros recém-editados como Caderno de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo». Para Bebiano, trata-se de

um magnífico, e ainda raro, exemplo de uma literatura autobiográfica saída do universo caseiro dos torna-viagem regressados do lado sul do Equador. Aqueles que respiram todos os dias connosco mas deixaram parte constitutiva das suas vidas num tempo que se perdeu mas se pressente ou se adivinha: «Ao domingo à tarde a rádio passava Nelson Ned cantando Domingo à Tarde. Ao domingo à tarde íamos ao cinema.»

Vale a pena ler todo o post, de um autor que há muito é um dos nomes de referência da nossa blogosfera.

25.000 visitas ao blogue da Angelus Novus

 

            Agora foi a vez do blogue da Angelus Novus completar as 25.000 visitas!

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Algumas curiosidades:

 

O nosso agradecimento!

Apanhados com a boca no café…

cafe-tortoni

O Changuito apanhou-nos…  A verdade é que temos estado o tempo todo no Café Tortoni, em Buenos Aires, a beber café, a fazer umas imagens giras no Photoshop sobre a rentrée e a mandá-las ao pessoal pela net.

Quanto aos livros, será um, serão dois, serão mais de três? Quantos de Paulo Coelho? Um ou dois de Danielle Steel? O primeiro tomo das Memórias de Jorge Jesus?

Não se aguenta esta tensão! «Mais um café, por favor!» «Outro!» «Para mim também!» «E eu? Mais um!»

«Do Cadillac ao Trabant»: «Fantasia Vermelha», por Rui Bebiano

cuba

Rui Bebiano publicou, no último nº da LER (Julho-Agosto), uma resenha de Fantasia Vermelha, de Iván de la Nuez, que entretanto editou também em A Terceira Noite. Reproduzimo-la agora, com a vénia necessária, e permitimo-nos chamar de novo a atenção para a qualidade (de escrita, desde logo) desta revisitação da relação dos intelectuais de esquerda com a revolução cubana, que Ana Bela Almeida tão bem traduziu.

 

Do Cadillac ao Trabant

Iván de la Nuez, ensaísta e crítico de arte cubano residente em Barcelona, percorre, na prosa singular desta Fantasia Vermelha, alguns dos ecos da Cuba revolucionária recolhidos por muitos daqueles para quem esta um dia constituiu um importante factor de atracção. Ao mesmo tempo, oferece uma reflexão estimulante sobre a sua própria condição do intelectual de esquerda na era pós-comunista. No centro do esforço, uma tentativa de rastrear a mitografia construída em redor da paixão e da esperança projectadas a longa distância pela insurreição dos barbudos caribenhos. No termo do exercício, o autor acabará por questionar a perda dessa expectativa e por procurar uma saída para o impasse.

Um velho Cadillac serve de metáfora e ponto de partida, indiciando um olhar projectado sobre a Cuba «de charme» que os guerrilheiros da Sierra Maestra combateram e depois herdaram. Muitos anos depois, reparado sabe Deus como com peças de fabrico soviético, e circulando com formidável estrépito do motor pelas ruas de Havana, o velho automóvel evoca os problemas reais que o regime inaugurado em 1959 jamais foi capaz de solucionar. Em redor, entretanto, uma fantasia imensa foi sendo construída. Esta é olhada por de la Nuez não como imagem enganosa, mas, na senda da proposta de Peter Sloterdijk, como «uma teoria da imaginação produtiva, (…) uma ficção operativa», capaz, a partir de fora, de transformar a ilha num espaço sobre o qual se projectaram sucessivas representações de um mundo que se cria único e admirável. Gente tão diversa quanto Jean-Paul Sartre, Régis Debray, Giangiacomo Feltrinelli, Oliver Stone, Sydney Pollack, Wim Wenders, Ry Cooder ou David Byrne – entre «centenas de atletas da esquerda ocidental» que viajaram até Cuba à procura da sua utopia pessoal – colaborou então, com apego e eficácia, nessa construção tão fictícia quanto poderosa. Prolongada hoje através de uma reinvenção – no trilho dos ambientes de O Nosso Homem em Havana, de Graham Greene – do mundo pré-revolucionário: «carros vintage, vestuário de época, sabor tropical, regresso de sonoridades típicas», que o organismo director do turismo cubano procura aproveitar ao máximo, associando-lhes frequentemente uma evocação voluntariosa do regime e a incondicional admiração por uma endeusada gerontocracia «portadora da verdade». Ficção não partilhada pela generalidade dos cubanos, que, insiste o autor, nela têm participado fundamentalmente como espectadores ou meros figurantes.

Qual o sentido tomado então neste livro pela segunda metáfora, aquela que evoca o ronceiro Trabant, «o pior carro do mundo»? Na actualidade, os velhos automóveis, outrora fabricados na Alemanha de Leste, circulam apenas como curiosidade, continuando a trabalhar graças a peças fabricadas agora por empresas capitalistas. No último capítulo, de la Nuez evoca então alguns dos contornos de um imaginário pós-comunista que identifica como cenário para a construção de uma esquerda domesticada, que já não passa pela utopia um dia reflectida pela revolução cubana. Real mas hoje fora do tempo, como um Trabant.

Um livro que faz falta: «Lírica Galego-Portuguesa»

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João Paulo Sousa publicou, no Da Literatura, um importante post sobre o ataque à literatura nos programas de Português do Ensino Secundário, no qual faz o elenco do desastre:

A dimensão utilitária sobrepôs­‑se ao uso estético da língua, afastando os alunos da possibilidade de conhecerem, durante o seu percurso escolar, um corpus alargado de textos que haveria de servir para que compreendessem, não apenas o processo de construção que originou a língua de que nos servimos na actualidade, mas também, de uma forma mais expressiva, as múltiplas possibilidades que a sua prática é capaz de oferecer hoje em dia.

E conclui, recordando a nossa edição da Lírica Galego-Portuguesa, da responsabilidade de Américo Lindeza Diogo:

Por essas razões, e não só, mais lamento que seja hoje quase completamente impossível encontrar nas estantes das livrarias um volume que a Angelus Novus lançou em 1998, no âmbito daquele projecto de boa memória (infelizmente interrompido), lançado pelo Ministério da Cultura de Manuel Maria Carrilho, que era a colecção Obras Clássicas da Literatura Portuguesa, patrocinada pelo então designado Instituto Português do Livro e das Bibliotecas. Lírica Galego­‑Portuguesa: Antologia é uma edição da responsabilidade de Américo António Lindeza Diogo, que assina um extenso e rigoroso texto introdutório, onde a erudição e o sentido de humor se conjugam a cada momento. Nesse ensaio quase exaustivo, acompanhado de uma bibliografia selectiva (mas, na verdade, bastante ampla), Lindeza Diogo discorre sobre tradição, influência, tipologias textuais e critérios utilizados, para, em seguida, apresentar um vasto florilégio dessa lírica que, na sua totalidade, é composta por mais de mil e seiscentos textos. Bastante proveito haveria de ter feito esta imprescindível edição aos autores dos actuais programas de Português do ensino secundário se eles tivessem sido capazes de a ler sem o seu desassombrado ódio à literatura.

Palavras justas, que sublinhamos. Quanto ao livro em causa, que Américo Lindeza Diogo não deseja reeditar, resta-nos informar que no âmbito da colecção Biblioteca Lusitana, lançada pela Angelus Novus com novas edições de Mensagem e Menina e Moça, será «substituído» no nosso catálogo por um novo volume antológico da lírica galego-portuguesa, a cargo de dois renomados especialistas galegos, em data próxima.

«Outubro» na blogosfera: um agradecimento

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O livro merece, o autor idem, mas não podemos deixar de manifestar o nosso agradecimento a todos os que citaram, mencionaram, transcreveram, etc., o recente Outubro, de Rui Bebiano, nos seus blogues. Como foram muitos, alguns deles aproveitando para referir a colecção Jacto e o volume de Pádua Fernandes, Para que servem os direitos humanos?, fazemos questão de fazer aqui o seu elenco até ao momento (e até onde nos apercebemos):

Água Lisa (aqui e aqui e aqui)
A Origem das Espécies
Bibliotecário de Babel
Cadeirão Voltaire
Entre as Brumas da Memória
Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos
LER
Local & Blogal
Meditação na Pastelaria
Novo mundo
Pó dos Livros
Prosas Vadias
Segunda Língua
Womenage à trois

Não, João Tunes, a Angelus Novus não subornou Alberto João Jardim!

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João Tunes escreveu uma excelente recensão de Outubro, no seu blogue. Mas, antes de entrar em matéria, e para enfatizar o sentido de oportunidade da Angelus Novus (o que obviamente agradecemos), coloca uma hipótese que não podemos aceitar. Ei-la:

 

Embora por causa de algumas linhas tortas, valeu a pena o atraso na edição do livro de Rui Bebiano intitulado “Outubro” (*), agora finalmente disponível para leitura. Refiro-me à sua coincidência com a espécie de polémica causada pela direita madeirense de propor que a próxima revisão constitucional inclua a proibição do comunismo. E quem acredita em bruxas até pode convencer-se que a Editora subornou o bronco Alberto João para dar uma ajuda ao lançamento de “Outubro”, incrementando a sua oportunidade. No meio do chinfrim provocado pela insólita e provocatória proposta vinda do bunker reaccionário madeirense e do aproveitamento vitimizante dos provocados, a que se juntaram muitas almas escandalizadas com a hipótese de se perder a unicidade condenatória dos extremismos políticos e ideológicos sobre as costas do nazi-fascismo, a leitura deste livrinho pode ajudar a passar-se do barulho para o debate, da esgrima emocional para o entendimento das razões porque, ainda hoje, a ideia comunista construída à volta e em consequência do fragor da Revolução de Outubro (1917), mesmo com os milhões de esqueletos de vítimas no seu armário, é intocável em termos de julgamento e condenação. [sublinhado nosso]

 

Vem pois a Angelus Novus solenemente afirmar que se demarca das insinuações do conhecido bloguista, as quais colocam em causa a honorabilidade de duas pessoas de bem: a da Angelus Novus e, sobretudo, a do Presidente do Governo Regional da Madeira. Fora isso, ou desde que munidos dessa prévia cautela, os leitores de Outubro terão «um mundo a ganhar» lendo o post de João Tunes. Quanto aos ainda não-leitores de Outubro, terão um livro a ganhar…

P.S. Não é caso para autocrítica, João Tunes. Embora a palavra, com todas as suas pesadas conotações, até não destoe no contexto de Outubro.