O canibalismo segundo Rui Manuel Amaral

Perguntaram, há uns dias, a Rui Manuel Amaral se somos o que lemos. Ele respondeu dizendo que somos o que comemos. E apresentou cardápios:

Dostoiévski comeu Gógol e foi comido por Bulgakov. E também Borges, com a sua proverbial fome impossível de satisfazer, comeu Macedonio Fernández e achou-o delicioso.

Não sabemos em que fontes o autor se apoia para estas afirmações temerárias, tanto mais que o livro de Helmut Schwanzkopf citado não aparece nas boas bibliotecas. Mas temos de lamentar três coisas: (i) que o autor não refira o seu cardápio pessoal (limita-se a um dedo mindinho de Manuel António Pina, o que, convenhamos, não é coisa que mate a fome); (ii) que os cardápios indicados não incluam uma única mulher…; (iii) que termine um texto sobre comidinha com refutações taxativas de chefs franceses.

Em todo o caso, e para que o nosso distinto público possa constatar por si («ver para crer» – ou «comer para crer»?), eis o texto do autor de Doutor Avalanche. Sirvam-se.

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Sobre «O Formato Mulher»

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O Formato Mulher de Anna M. Klobucka continua a alimentar uma considerável produção crítica. Desta vez destacamos o analítico da autoria de Claire Williams, The woman’s format or women studying lusophone women representing women, publicado no Journal of Romance Studies, volume 10, número 2, Verão 2010, p. 107-115 e cuja autorização de reprodução agradecemos.

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Gustavo Rubim e a «Arte de Sublinhar»

O que se segue é apenas um pedaço de uma entrevista – magnífica, brilhante, agudíssima: o leitor escolha – que Gustavo Rubim nos deu aquando da edição, em 2003, do – magnífico, brilhante, agudíssimo: escolhemos nós – volume chamado Arte de Sublinhar. O resto da entrevista pode ser lido aqui. Não há muita gente a pensar assim sobre literatura. Em qualquer lugar onde haja gente a pensar sobre isso. E nunca há assim tanta, a bem dizer. Em todo o caso, se nunca leu este livro não sabe mesmo o que perdeu. Mas, claro!, não é obrigado a perdê-lo para sempre.
Este livro vai dedicado a Cidalina Carvalheiro e não há motivos para envolver em segredo a dedicatória. Formada em Coimbra, Cidalina Carvalheiro era, há vinte e tal anos atrás, uma jovem e extraordinária professora de Português (de Latim e de Grego) de cujo ensino só um rematado idiota poderia sair intacto. Dos meus colegas, não conheci ninguém que lhe ficasse indiferente e, no meu caso, fiquei marcado, aos 14 ou 15 anos, para o resto da vida. Ponto crucial: ter ensinado que os livros eram para se sublinhar ― e, por competente corolário, ter ensinado como é que se sublinhavam. Fez isto com livros muito diversos. Quando chegou ao ponto de o fazer com Os Lusíadas, já não sobravam dúvidas de que acontecia ali qualquer coisa de irreversível. Era uma turma inteira debruçada sobre os versos, alguém a lê-los em voz alta, Cidalina corrigindo a leitura, a máxima concentração em exercício. Mas, depois, era preciso mexermo-nos: sublinhar, anotar, verificar, distinguir, reler, discutir, escrever. De longe, as aulas mais disciplinadas; de longe, as mais animadas (as únicas a que não se faltava).
 
A memória destes tempos recuados (e felizes, hélas!) ensina-me, ainda, duas lições: 1) só há sublinhado se, antes dele, houver uma linha já escrita que se possa sublinhar; 2) na poesia ou na prosa, «letra morta» é consequência de leitores inertes. Isto foi o que eu percebi na altura. Hoje, sem abandonar a simplicidade da história, digo: não sei se os textos «existem», sei que quando nós lá chegamos, os textos já lá estavam antes de nós. E ainda: se o leitor não fizer nada, o que já lá estava jamais fará espécie nenhuma de sentido. Ou o leitor está vivo ou nada feito. Com Cidalina Carvalheiro, aprendia-se que, quando de facto lê, o leitor é o mais vivo de todos os seres vivos.

Margarida Calafate Ribeiro sobre «Caderno de Memórias Coloniais»

 

Como aqui amplamente noticiámos, no dia 30 de Janeiro passado Margarida Calafate Ribeiro, investigadora do Centro de Estudos Sociais com obra vasta e relevante sobre estudos pós-coloniais, literatura portuguesa e de países de língua portuguesa, guerra colonial e mulheres na guerra, apresentou, na livraria Almedina Estádio em Coimbra, o livro de Isabela Figueiredo. Desse ensaio, publicamos aqui um excerto significativo. Agradecemos à autora a gentil cedência do texto.

O livro de Isabela Figueiredo, Caderno de Memórias Coloniais de que aqui vos venho falar, tem uma forte dimensão pessoal, mas enquadra-se nas análises profundas – que Portugal tem pretendido ignorar – sobre o “nosso colonialismo inocente”(1), pensado por Eduardo Lourenço, ficcionalmente trabalhado por Helder Macedo no romance Partes de África, 1991, e por António Lobo Antunes, em O Esplendor de Portugal, de 1997. Em 1991, Partes de África constituía um livro pioneiro neste aspecto, “inclassificável” na ficção portuguesa de então e, à semelhança, de Caderno, de Isabela Figueiredo era fundado sobre um diálogo póstumo com a figura do pai, transfigurada ora na nação portuguesa, ora na própria imagem do colonialismo português em África. Mais tarde, O Esplendor de Portugal trazia a discussão sobre a questão identitária do colonizador e do ex-colonizador, não tanto a partir da análise das relações desiguais de poder, como em Caderno de Isabela Figueiredo, mas a partir da fracturada relação de pertença/ posse dos sujeitos brancos à terra de Angola outrora colonizada, deixando-os a todos sem lugar. Resumindo todos estes livros mostram, a partir de diferentes posicionamentos, o quanto a descolonização não tinha sido apenas um movimento a sul, que emancipou os países colonizados, mas também um movimento que atingiu radicalmente o continente colonizador que foi a Europa e, no caso sob análise, Portugal. Nesse sentido, esta literatura acusa uma viragem essencial na tomada de consciência pós-colonial do espaço antigamente colonial e das vivências aí havidas como essenciais à nossa identidade de portugueses, de europeus e às nossas identidades individuais. Por isso, a viagem de retorno pós-colonial que estes livros assinalam – de Portugal para África – inverte a história de regressos (2), sobre a qual se foram construíndo os impérios. Nessa medida esta viagem constitui um reconhecimento de que grande parte da história de Portugal se passou fora de Portugal e da Europa, e que para perceber a “fractura colonial” (3), sob a qual todos vivemos, tem de se contar a história das pertenças e vinculações de muitos sujeitos aquelas outras terras outrora parte do império, sob pena de ficarem todos como uma espécie de “refugiados da história” (Marcus, 1997: 17), como as personagens de Esplendor de Portugal e a própria narradora de Caderno, quando se auto-classifica de “desterrada”, ou seja, sem terra e apaixonadamente segue um homem cuja farda indica Moçambique para hipoteticamente lhe dizer que também é de lá, apesar de tudo, contendo neste apesar de tudo, a coincidência impossível de resolver, para narradora, ao longo dos Caderno: é que a sua história individual de pertença àquela terra  – “Na terra onde nasci seria sempre a filha do colono” (p. 133) – coincide com a história pública do colonialismo português em África.

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