Abel Barros Baptista ao «Globo»: «Os bons livros tornam-nos estrangeiros»

O último livro de Abel Barros Baptista na Angelus Novus foi o volume de ensaios De Espécie Complicada. O autor foi membro do júri que decidiu atribuir o Prémio Camões a Manuel António Pina e deu, na ocasião da reunião no Rio de Janeiro, uma entrevista ao jornal Globo, que acaba de ser publicada. Transcrevemos a entrevista, com a devida vénia.

Professor de literatura brasileira na Universidade Nova de Lisboa, o crítico português Abel Barros Baptista publicou estudos sobre autores como Graciliano Ramos e João Cabral de Melo Neto, mas é mais conhecido entre nós por dois livros que estão entre os mais importantes lançados nas últimas décadas sobre Machado de Assis. Em “Autobibliografias” e “A formação do nome”, ambos publicados aqui pela Editora da Unicamp, Baptista constrói interpretações originais da obra do escritor brasileiro, dispensando a vinculação estreita entre a ficção de Machado e a história brasileira que caracteriza boa parte da melhor crítica sobre o autor escrita no Brasil. Baptista esteve no Rio em maio para participar da reunião do júri do Prêmio Camões que laureou o poeta português Manuel António Pina. Nesta entrevista ao GLOBO, ele diz que sua condição de estrangeiro diante dos autores que estuda não deve ser pensada em termos de vinculação nacional, mas antes em relação à experiência de estranhamento que define a própria literatura.

Como crítico português que dá aulas de literatura brasileira, o senhor tem se dedicado particularmente a mostrar que o interesse da obra de Machado de Assis não precisa ser necessariamente vinculado ao estudo da sociedade brasileira da época em que ele escreveu. Essa orientação, divergente da corrente predominante na crítica brasileira, dá expressão literal a uma ideia já mencionada pelo senhor em textos e entrevistas: a de que, diante de uma obra literária, o leitor se torna sempre um estrangeiro. O que o senhor quer dizer com essa observação?

ABEL BARROS BAPTISTA: Minha ideia é que os únicos livros que vale a pena ler são aqueles que nos tornam estrangeiros. Estamos perante eles como uma pessoa está diante de uma língua que não domina. O trabalho que se tem que fazer, como leitor, é aprender a admirar aquela língua. Metaforicamente, mas não só. Os grandes autores escrevem livros que são escolas, que nos dão a impressão de que sabemos tanto quanto eles, e que precisamos saber o mesmo que eles sabem para entender aquilo. Mas para que isso aconteça tem que haver um momento do que os formalistas chamam de estranhamento. Tem que haver um momento em que o leitor sente que está fora daquilo, que aquilo não é dele. A pior coisa que pode acontecer na literatura, e que é um traço marcante da banalização, é o leitor sentir-se em casa. O que se chama literatura comercial é a que dá ao leitor uma apreciação do tipo “aqui não há nada de estranho, vais ter exatamente o que queres”. A literatura eu creio que se define, ao contrário, por essa posição de estrangeiro, mas ao mesmo tempo por haver, para essa posição, uma correspondente hospitalidade incondicional. O livro está à espera, é anfitrião. Não nos impõe condições. Aceita qualquer um, imbecil ou não. Aquilo que define a literatura é uma utopia, uma ideia generosa de partilha entre as diferentes pessoas do mundo que leem livros. A ideia de humanidades é a ideia de fazer amigos através dos livros. Foi o que me aconteceu no Brasil. Nunca pus os pés no Brasil antes de publicar os livros sobre Machado. Hoje tenho vários amigos que eu fiz através dos livros que publiquei. Talvez tenha contribuído para mostrar que muito do que se faz no Brasil sobre Machado de Assis está dominado por uma ideia liquidadora, a de que temos que primeiro conhecer o Brasil para depois conhecer Machado de Assis. Minha experiência de leitor prova exatamente o contrário.

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Margarida Chagas Lopes sobre economia da educação e formação

Margarida Chagas Lopes é docente do ISEG e autora de vasta bibliografia nas áreas de Economia do Trabalho e do Emprego, Estudos de Género, Economia das Organizações e Economia da Educação e da Formação. Na Angelus Novus publicou, na série de Economia da Biblioteca Mínima, um volume dedicado à Economia da Educação e Formação. Na sequências das entrevistas que vimos fazendo a autores de volumes da Biblioteca Mínima, ouvimos Margarida Chagas Lopes sobre as temáticas abordadas no seu livro, desde já uma obra de referência sobre a matéria em Portugal.

P. O seu livro dedica uma considerável energia teórica a uma crítica dos fundamentos das teorias do capital humano na educação e formação. Por um lado, essas teorias incorrem em funcionalismo, na medida em que atribuem à Escola «o papel central de preparação dos indivíduos para o mercado de trabalho» (p. 13), esquecendo que (i) «os contextos de trabalho sofrem nos dias de hoje processos de evolução de dinâmica rápida» (p. 14) e que (ii) «A preparação dos indivíduos para o mercado de trabalho é (…) uma das funções da escola» (p. 15) mas «a sua missão e vocação ultrapassam de longe esta visão funcionalista» (pp. 15-16). Por outro lado, e não obstante os ganhos cognitivos da noção de «investimento» trazida pelas teorias do capital humano, na medida em que «tiveram o enorme mérito de revelar e instituir a natureza também económica dos percursos educativos» (p. 25), essas teorias tendem a obliterar o facto de que a Educação exige «uma abordagem multidisciplinar» (id.). Contudo, uma das consequências mais visíveis da crise actual tem sido o redobrar do apelo a uma concepção funcionalista da Escola, como fornecedora de mão-de-obra qualificada às empresas. Num país com os nossos défices acumulados em educação e formação, acha que é possível evitar o recrudescimento de apelos deste tipo a um modelo já ultrapassado?

R. O recurso persistente a modelos que a realidade se vem encarregando de pôr em causa é uma constante em economia e não só em economia da educação. Isso sucede tanto mais quanto esses modelos e teorias – como as do capital humano – se inscrevem no pensamento dominante, ou na mainstream economics, como numa perspectiva crítica costumamos referir-nos. A história da educação mostra-nos que a abordagem pluridisciplinar, com preocupações epistemológicas mais amplas, visando a análise e a fundamentação de políticas socialmente pertinentes … é não só possível mas perfeitamente oportuna em situações de “défices acumulados em educação e formação”. Considere-se a 1ª República e a implementação de medidas no sentido de uma escola mais igualitária em Portugal; ou a Reforma Veiga Simão, em 1972, propulsora de um reganhar de terreno dos ensinos técnico e profissional… E isto para referir dois exemplos não inscritos ainda na sociedade democrática do após 1974. A perspectiva económica, e social, de preparação para o mercado de trabalho e de razoabilidade do investimento feito em educação é útil e organizadora. Não deve é tornar-se dominante e exclusiva sob pena de se operar um reducionismo irreversível no âmbito da educação enquanto bem/serviço público e/ou mecanismo de intervenção social.

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Elsa Lechner, em entrevista sobre «Migração e Conflito»

Elsa Lechner doutorou-se em Antropologia Social pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris, e é actualmente co-coordenadora do núcleo das Humanidades, Migrações e Estudos para a Paz, do Centro de Estudos Sociais. Na Angelus Novus publicou recentemente, na série de Antropologia da Biblioteca Mínima, dirigida por Luís Quintais, o volume Migração e Conflito.

Sobre as temáticas do livro, e na sequência da entrevista com outro autor da Biblioteca Mínima, Daniel Melo, ouvimos Elsa Lechner.

P. O tratado de Maastricht, de 1992, ao criar a «cidadania da União Europeia» instituiu, entre outras coisas, a livre circulação de pessoas nesse espaço. Ao fazê-lo, de certo modo recodificou, na UE, a noção de «migrante», que passou a ser aplicada àqueles que vêm de fora da UE. Ou seja, no mesmo momento em que «desdramatizou» a circulação de pessoas dentro do espaço europeu, deslocou a «dramatização» conatural ao acto de migrar para os que vêm de fora, como se este elemento dramático não pudesse deixar de estar presente quando falamos de migrações, mesmo se ele vai sendo objecto de recodificações como esta. Mas, em rigor, e fazendo um pouco o papel de advogado do diabo, podia ser de outra maneira? Um espaço desta dimensão no qual se advoga e pratica a «livre circulação de pessoas» não é por isso submetido a tensões para cuja gestão é necessária toda a energia e atenção? Pode a União Europeia gerir as migrações internas dos cidadãos dos seus 27 membros e ainda abrir-se aos fluxos migratórios do resto do mundo sem exceder a sua capacidade de assimilação e gestão de conflitos?

R. O Tratado de Maastricht de 1992 “acabou” (na letra da Lei) com os tempos dolorosos da «mala de cartão» ao criar a «Cidadania da União Europeia» que instituiu a livre circulação de pessoas oriundas dos países da União. Esses tempos de clandestinidade ficaram na memória de milhões de emigrantes que deram o salto em condições dramáticas nos anos sessenta quando apenas existia o Mercado Comum dos seis países signatários do Tratado de Roma. Hoje, nas fronteiras da União de 27 países europeus basta mostrar um documento de identificação para um português poder entrar. Se um português desempregado se vê obrigado a deslocar-se a Paris ou Hamburgo, por exemplo, para encontrar trabalho, ele ou ela não é legalmente considerado emigrante (embora estrangeiro) mas sim um cidadão europeu à procura de emprego num outro país da EU. Pelo contrário, os trabalhadores de países terceiros precisam de autorização específica para trabalharem e se instalarem no espaço da UE.

Ora, é preciso ter em conta que o acto de migrar e as múltiplas experiências migratórias de sujeitos em carne e osso do presente, do passado e do futuro, na UE como no resto do planeta, comportam dramas inegáveis que devem ser conhecidos e reconhecidos pelos Estados e pelos cidadãos, numa visão de conjunto. Tais dramas convocam a atenção não só de uma visão aproximada, concreta, pessoalizada e sensível dos fenómenos migratórios, mas também deveriam interessar as políticas dos diversos Estados e da comunidade internacional. É certo que a primeira visão pouco coincide com a segunda, mesmo quando existe boa vontade política e esforços militantes de associações e grupos humanitários que trabalham de perto com migrantes. Vejam-se os casos diários de controlo, retenção, e deportação de migrantes nas fronteiras da Europa Fortaleza: essas existências declaradas infames pelas normas de segurança das nações, são marcadas por uma precariedade limite que nos fazer questionar o que é uma vida em espera numa fronteira, entre muros, sem laços de pertença ou mesmo de solidariedade. A política europeia de controlo das migrações parece esquecer, todos os dias, como a circulação de pessoas sempre foi uma constante da história do continente Europeu. A questão das migrações vindas do exterior não se deve conceber pois nos termos meramente judiciais e de policiamento da “capacidade de gestão interna” da União, mas no horizonte de uma abordagem compreensiva que articule as diversas dimensões (histórica, social, política, cultural, de cidadania, ambiental, etc.) dos fenómenos migratórios.

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Daniel Melo, sobre a cultura popular no Estado Novo e hoje

Daniel Melo é historiador e investigador auxiliar no Centro de História da Cultura da Universidade Nova de Lisboa. Doutorado em História Contemporânea, tem obra vasta sobre o período, destacando-se os livros Salazarismo e Cultura Popular (1933-1958) e A Leitura Pública no Portugal Contemporâneo (1926-1987), ambos galardoados com o Prémio de História Contemporânea Victor de Sá. Co-organizou os livros A Globalização no Divã (2008) e Construção da Nação e Associativismo na Emigração Portuguesa (2009). O seu livro mais recente é A Leitura Pública na I República (2010).

Sobre o livro A Cultura Popular no Estado Novo, que integra a nossa colecção Biblioteca Mínima de História, dirigida por Rui Bebiano, ouvimos o autor. Esta entrevista abre uma série de entrevistas a autores de volumes publicados nas várias séries da Biblioteca Mínima.

P. A sua análise daquilo a que chama «a imposição à sociedade portuguesa de um modelo nacionalista, ruralista e tradicionalista de cultura popular» (p. 121) dá a ver, por um lado, a identificação do próprio Salazar com a matriz rural desse «popular» e, por outro, «o logro de sustentar a especificidade de uma cultura popular concebida autarcicamente e de modo pretensamente abstracto» (id.). O Estado Novo, como diz, centrou os seus esforços de produção de uma cultura popular no elemento rural, ao qual se deveriam as tradições que nos distinguem como Nação. Mas se, como nota, não há cultura popular realmente específica, uma vez que as características genéricas da sociabilidade humana e do processo civilizacional são comuns a todas as culturas, isso significa que não é possível fundar e legitimar a Nação sobre a «cultura popular». Mais latamente, isto significa que uma Nação não se legitima por uma forma qualquer de cultura, seja ela popular ou não?

R. Não necessariamente, basta constatar como os regimes nacionalistas o souberam fazer, incluindo o Estado Novo português. Essa cultura popular oficialmente estimulada, sustentada, foi, de facto, uma ‘almofada’ social, na medida em que funcionava como contraponto às alterações tecnológicas, económicas, sociais (e culturais) em curso (ainda que estas decorressem de modo mais lento do que nos países mais industrializados e/ou abertos). Um conforto existencial face aos receios que a mudança pode compreensivelmente despertar. Mas, de par, um pilar ideológico, guia da acção e inculcador de certos valores, práticas, vivências e comportamentos, fortemente unidimensionais.

Agora, se falarmos em países democráticos, parece-me que a própria concepção de democracia – assente no pluralismo, na cidadania, no desenvolvimento, etc. –, implica a saída do Estado do espaço de determinação ou imposição duma cultura oficial, ainda que desenvolva (e deva desenvolver) uma política cultural sólida. O que importa aqui é criar condições para a afirmação do pluralismo, para a autoformação e emancipação dos cidadãos e para a criação duma esfera pública diversificada, crítica, exigente.

Digamos que, a existir uma cultura nacional, ela resultará necessariamente das interacções entre Estado, mercado e sociedade civil, e advirá em boa medida da interdependência entre fontes mais localizadas, ‘comunitárias’ (à escala local, regional, nacional, das diásporas) e mais universais, cosmopolitas. Donde, uma cultura essencialmente cívica, assente nos valores da res publica e da democracia integral, a um tempo política, económica, social e cultural. Não sei se fui claro, mas o que atrás disse não invalida que existam especificidades culturais, singularidades próprias de cada país, para falarmos num território concreto. Contudo, isso não chega para definir a cultura de cada país. Seja hoje, seja num passado recente. Porque a globalização cultural, civilizacional, etc., ou seja, a interdependência de culturas, não começou hoje (ou recentemente), foi acontecendo ao longo de séculos.

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Abel Barros Baptista: a vocação cosmopolita da literatura

Abel Barros Baptista, professor de literatura brasileira na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, publicou na Angelus Novus um volume de crónicas, A Infelicidade pela Bibliografia (2001), organizou e posfaciou um volume do grande ensaísta brasileiro Antonio Candido, O Direito à Literatura e outros ensaios (2005), e organizou dois volumes da colecção Revisões, dedicada à releitura das grandes obras da literatura portuguesa: um sobre A Cidade e as Serras (2001), de Eça de Queirós, e um outro sobre o Amor de Perdição (2009), de Camilo Castelo Branco.

Acaba de sair o seu mais recente livro na Angelus Novus, intitulado De Espécie Complicada. Ensaios de Crítica Literária. Sobre o volume, que inclui alguns dos grandes ensaios sobre literatura escritos em português na última década, ouvimos o autor.

P. Este livro abre com um ensaio sobre o ensaio, no qual se defende que «o ensaio não é o conhecimento disfarçado de literatura – é a literatura disfarçada de reflexão, análise, conhecimento». E esse texto encena um conflito entre o ensaio e a teoria literária, que estaria patente desde logo no facto de a teoria não ter concedido ao ensaio a mesma atenção que concedeu aos géneros canónicos e maiores desde Aristóteles ou na modernidade. O ensaio seria por um lado objecto de estudo da teoria e competidor, pois ambiciona também descrever a literatura. Esta, por seu turno, incapaz de se autodescrever, deixar-se-ia encantar por quem exibisse «o melhor domínio sobre a forma de proceder com a inteligência». A retórica desta frase parece ao serviço de uma erótica do saber, mais do que de uma epistemologia: exibição, domínio da forma de proceder, não «com inteligência» mas «com a inteligência». O ensaio seria, nesta distribuição do trabalho, o erotismo e a dépense, enquanto a teoria seria a mais-valia e a razão instrumental?

R. Não estou certo de que haja uma «distribuição de trabalho». Seria mais o oposto disso… Esse ensaio foi escrito para um apresentação num colóquio sobre «Poéticas do Ensaio» (Ponta Delgada, 2009; as respectivas actas estão já disponíveis, em edição do Centro de Literatura Portuguesa/Universidade de Coimbra, 2010). O problema que me coloquei na partida era este: o que fez a teoria literária pelo ensaio? O tal conflito entre ensaio e teoria é encenado para tentar explicar que razões impediram a teoria de fazer pelo ensaio o que fez pela poesia ou pela narrativa. Aliás, quando os termos da pergunta incluem «encenar», conviria ler a palavra quase literalmente, porque a encenação coincide com a análise do conto «A Carta Roubada», de Edgar Poe, com alguma tradição no debate teórico recente, e que eu «enceno» como alegoria duma rivalidade entre o ensaio e a teoria. Graças a essa análise, creio que o meu ensaio é ao mesmo tempo um argumento e uma ilustração da respectiva fragilidade, ou seja, é um ensaio no próprio sentido em que ele mesmo designa a espécie. Porque o problema que o meu texto defronta é antes do mais o da sua espécie: como falar do ensaio num texto que seja (ou não seja) um ensaio? Daí a primeira opção, a que recusava organizar o texto como mera elaboração de um argumento, experimentando então uma forma de entender o termo «poética» mais etimológica mas não menos envolvida nos caminhos contemporâneos: a ideia era «fazer» (um ensaio) e reflectir sobre esse «fazer». Em  certo sentido esta opção organiza o texto em jeito que ilustra a rivalidade que encena: qual a melhor forma de falar da literatura? O ensaio torna-se frágil porque é uma forma ainda literária de falar da literatura, e forma que invade e mesmo se dissolve nos géneros literários com que a noção de literatura objecto da elaboração teórica se forma. O problema do ensaio diante da teoria é assim o problema da possibilidade de a literatura se conhecer a si mesma. O que digo nesse ensaio é que a teoria pressupõe essa capacidade na literatura e ao mesmo tempo, sendo teoria dela, pretende guiar e vigiar a literatura no processo de atingir o «bom» conhecimento de si mesma. Ora, entre todas as formas de desviar a literatura do «bom» conhecimento de si mesma, o ensaio constitui a melhor forma de proceder com a inteligência. Eis o cerne da rivalidade. Noutros termos, seria como reencenar, depois dos formalistas russos, a antiga rivalidade entre filosofia e poesia. Isto significa que nenhum ensaio pode ignorar a teoria e que a teoria não pode esquecer ou sequer negligenciar o ensaio sem deixar de ser teoria — ao menos teoria da literatura.

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Rui Manuel Amaral no Diário Câmara Clara

 

O Diário Câmara Clara, magazine cultural da RTP 2, emite, às 22h35 de hoje, uma peça dedicada ao livro Doutor Avalanche.

Entrevista com Rui Manuel Amaral

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Uma entrevista de médico

Depois de Caravana (livro inesperado e muito bem recebido pela crítica) Rui Manuel Amaral volta com Doutor Avalanche. Para celebrar este acontecimento, a Orgia Literária esteve à conversa com o autor.

 

Link para Orgia Literária

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Miguel Cardina: entrevista sobre «A Esquerda Radical»

Miguel Cardina é investigador do CES e publicou na Angelus Novus A Tradição da Contestação. Acaba de publicar, na série de História da Biblioteca Mínima, o volume O Essencial sobre A Esquerda Radical. Entrevistámos o autor sobre o seu livro mais recente, que depois de ter sido apresentado em Lisboa na passada quarta-feira, sê-lo-á hoje em Coimbra.

P. Porquê “esquerda radical” e não “extrema-esquerda”, como é mais habitual?

R. Uso ambos os termos ao longo do texto, mas optei pelo primeiro como título por remeter para um universo de contestação que é não só político como também cultural, em sentido lato. É certo que o livro trata sobretudo do radicalismo político, mas não se pode compreendê-lo se não tivermos em conta as mudanças ao nível das dos discursos, das sociabilidades, dos gostos e práticas culturais que emergem nos anos sessenta e setenta, que é o período no qual centro a atenção.

P. Não lhe parece que a esquerda radical em Portugal clona de certa maneira a francesa?

R. A França é sem dúvida fundamental para se compreender a esquerda radical portuguesa daqueles anos. Antes de mais porque muita da militância era desenvolvida a partir do exílio parisiense ou em articulação com ele. E também, é claro, porque vivíamos num Portugal cuja elite ainda era maioritariamente francófona, se bem que as coisas se começam a alterar nessa altura. Por outro lado, há elementos específicos associados à realidade portuguesa que estão muito presentes na esquerda radical do país, e que naturalmente não se podem encontrar da mesma forma em França: é o caso da guerra colonial e das práticas e discursos que contra ela são mobilizados.

P. A linha “reformista” do PCP foi ou não decisiva para o progresso dos radicais?

R. A primeira e mais nítida configuração esquerdista nos anos 60 – a ruptura de Francisco Martins Rodrigues com a sucessiva criação da FAP e do CMLP – é antes de mais uma ruptura com o “reformismo” do PCP. Noutras áreas, grupos como o MAR, a LUAR, etc., criticavam o “pacifismo” do PCP e as teses do “levantamento nacional” e da união de “todos os portugueses honrados”, vistas como conciliatórias e pouco arrojadas. Mas parece-me que o elemento central – não o único – que explica o progresso do radicalismo naqueles anos foi a posição do PCP de não estimular a deserção.

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Rui Bebiano em entrevista sobre a Biblioteca Mínima de História

Rui Bebiano é Professor Auxiliar da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e um dos autores de referência da Angelus Novus. Na nossa editora publicou já três livros – o volume de «crónicas digitais» Folhas Voláteis, o estudo inovador sobre a cultura jovem nos anos 60 em Portugal, O Poder da Imaginação, e o muito recente ensaio Outubro – e dirige a série de História Contemporânea da Biblioteca Mínima. No momento em que a colecção se inicia, com a publicação de A Esquerda Radical, de Miguel Cardina, ouvimos Rui Bebiano sobre o perfil e propósitos da colecção.

P. Quais são os objectivos da colecção de História da Biblioteca Mínima?

R. Pretende-se oferecer a um público o mais alargado possível – composto maioritariamente por professores, estudantes, jornalistas e amantes da História, mas também por historiadores e por profissionais de outras áreas do conhecimento – um conjunto de sínteses actualizadas sobre temas e problemas associados a um passado colectivo que possa ser integrado na experiência da contemporaneidade.

P. Trata-se de uma colecção centrada na História Contemporânea portuguesa. Qual a baliza cronológica mais antiga dos volumes da série?

R. Nesta fase de arranque da colecção, a cronologia deverá recuar sensivelmente até aos anos da Segunda Guerra Mundial, avançado depois até um tempo tão próximo de nós quanto uma abordagem histórica sustentada e rigorosa o permita.

P. A colecção abre com A Esquerda Radical, de Miguel Cardina. Que outros volumes se encontram prontos a editar e em preparação?

R. Os próximos volumes serão sobre a cultura popular em Portugal durante o Estado Novo, de Daniel Melo, e sobre a imprensa periódica em Portugal no pós-25 de Abril, de João Figueira. Depois destes deverá sair um sobre história do tempo presente.

P. Está prevista uma abordagem de temas numa perspectiva internacional, ou a colecção, nesta primeira fase pelo menos, ficar-se-á por Portugal?

R. Após esta etapa de lançamento da colecção, mais centrada na realidade portuguesa, iremos, de facto, procurar abordar temas que ultrapassarão o campo mais específico da História de Portugal. Pensamos mobilizar para o efeito investigadores nacionais, alguns deles jovens mas já com provas dadas.

P. Acha que a colecção tem um lugar no panorama da edição portuguesa sobre História?

R. Existe em Portugal uma ausência evidente de livros credíveis e de carácter não sensacionalista, escritos por portugueses, apoiados em investigações de natureza interdisciplinar e vocacionados para um público-leitor com interesses no domínio da História. A historiografia académica raramente contempla esta vertente. Esperamos que esta colecção possa ajudar a inverter a situação.

Abel Barros Baptista, tradutor de Adam Phillips, sobre o autor e sobre «Monogamia»

Abel

 

 

 

 

 

 

 

 

Abel Barros Baptista, Professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, ensaísta premiado e cronista, publicou já na Angelus Novus um magnífico livro de crónicas – A Infelicidade pela Bibliografia -, tendo ainda organizado o primeiro volume da colecção ReVisões, sobre A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós. Na mesma colecção, coordenou um volume sobre um dos grandes textos da literatura portuguesa, Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, autor cujos estudos fortemente renovou.

Ouvimo-lo sobre as questões levantadas pela tradução, a todos os títulos exemplar, que fez de Monogamia, de Adam Phillips, obra que editámos em 2008, inaugurando a edição das obras do famoso psicanalista e ensaísta inglês em Portugal.

P. O aforismo é um género definível pela brevidade, densidade e, ao mesmo tempo, ambiguidade de sentidos, uma vez que o texto deve produzir um certo impacto de teor interrogativo na mente do leitor. Mas isto torna-o de tradução difícil, ou não?

R. Imagino que haja uma dificuldade genérica semelhante à do epigrama, do epitáfio ou do soneto: as formas brevíssimas apresentam-se ocupando espaço exíguo, de modo que a própria materialidade da inscrição torna a falha conspícua. A suposta facilidade da prosa corrida é muito mais a facilidade de esconder o deslize num mar de palavras ou numa mancha demasiado grande para que um erro mínimo se note. No aforismo o erro pode tomar logo conta da percepção do leitor. Uma maçada.

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Filipe Verde em entrevista sobre «Explicação e Hermenêutica»

 

Filipe Verde é professor do Departamento de Antropologia do ISCTE. Na Angelus Novus publicou em 2008 O Homem Livre. Na Biblioteca Mínima de Antropologia acaba de publicar Explicação e Hermenêutica. Ouvimos Filipe Verde sobre o seu mais recente livro.

P. Na Antropologia, muita gente entende que «hermenêutica» significa «descrição densa», relativismo e pós-modernismo (e o culpado maior deste equívoco seria Clifford Geertz). Este livro parece ter, pois, um propósito correctivo, tal como ele se enuncia na p. 8: «a antropologia quis a um tempo ser ciência, para depois ser anti-ciência, mas não é, nem deve querer ser, sob pena de grosso equívoco, uma nem outra coisa. Ela é parte da tradição humanística, uma disciplina interpretativa que tem aliás um contributo único a dar a essa tradição». Podias dizer-nos em que consiste esse «contributo único» da antropologia para as Humanidades?

R. A antropologia é o resultado da curiosidade pelo que é culturalmente diferente, e constituiu-se num tempo em que ainda havia vestígios significativos dessa diferença. Perdidos nos cantos mais remotos do mundo ainda subsistiam mundos que resultaram de histórias milenares e totalmente independentes da nossa. Alguns deles eram, por razões muito diferentes e próprias a cada um deles, fascinantes o suficiente para que conhecê-los possa ser muito instrutivo. Afinal o que o conhecimento humanístico tem por horizonte é a edificação (a Bildung), e esta é uma forma de abertura ao universal, o resultado de experiências em que abraçamos o estranho para o tornar familiar, para depois regressar e apreender o nosso mundo de origem de uma outra e mais sofisticada e instrutiva perspectiva. A viagem, a história e a arte eram para os românticos os veículos de experiências dessa natureza e, portanto, da educação humanística, entendida como formação não apenas do conhecimento mas também do carácter. Parece-me inquestionável que a antropologia e a etnografia foram e são veículos possíveis de experiências desse tipo. Mas isso supõe, e isto é muito importante, que sejamos capazes de descobrir a inteligência e a relevância, a autoridade em suma, daquilo que esses mundos nos revelam. As suas obras e ideias, como as da história e da arte, contêm o gradiente de distância que permite espelhar o nosso mundo numa imagem que nenhum outro espelho produz e na qual nos podemos por vezes, e como, (re)conhecer.

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Hoje na TSF

Isabela Figueiredo, a autora de Caderno de Memórias Coloniais, será entrevistada hoje por Carlos Vaz Marques, no seu «Pessoal e Transmissível» da TSF, entre as 19h e as 20 h. Quem não puder ouvir a essa hora, pode fazê-lo na repetição, à 1 da manhã.

A não perder.

P.S. Oiça a gravação da conversa de Isabela com Carlos Vaz Marques aqui.

Vítor Aguiar e Silva em entrevista sobre «Jorge de Sena e Camões»

Vítor Aguiar e Silva estudou e ensinou na Universidade de Coimbra, onde foi professor catedrático da Faculdade de Letras. Em 1989 transferiu-se para a Universidade do Minho onde foi catedrático do Instituto de Letras e Ciências Humanas, fundou e dirigiu o Centro de Estudos Humanísticos e a revista Diacrítica e desempenhou as funções de vice-reitor. Tem-se dedicado especialmente ao estudo da Teoria da Literatura, domínio em que a relevância do seu ensino e da sua investigação é nacional e internacionalmente reconhecida, e da Literatura Portuguesa do Maneirismo, do Barroco e do Modernismo. Os estudos camonianos têm constituído objecto constante da sua actividade de investigador. Refiram-se os seus dois volumes de estudos camonianos: Camões: Labirintos e Fascínios (prémio de ensaio da Associação Portuguesa de Críticos Literários e da Associação Portuguesa de Escritores); A Lira Dourada e a Tuba Canora (Prémio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus). A Universidade de Évora atribuiu-lhe o Prémio Vergílio Ferreira de 2002. Em 2007 foi-lhe atribuído o Prémio Vida Literária, instituído pela Associação Portuguesa de Escritores e pela Caixa Geral de Depósitos, o mais alto galardão literário existente em Portugal. Ouvimos Vítor Aguiar e Silva sobre o seu recente Jorge de Sena e Camões. Trinta Anos de Amor e Melancolia, obra editada em parceria com a DST.

P. Por que motivos escolheu Jorge de Sena, de entre uma plêiade tão vasta de camonistas, para objecto de um estudo tão desenvolvido? Existem, no século XX, outros camonistas que lhe merecessem uma atenção tão empenhada como a que votou a Sena? Qual é, digamos, o «valor acrescentado» de Sena, na sua perspectiva?

R. As razões da escolha de Jorge de Sena «de entre uma plêiade tão vasta de camonistas» para objecto do meu estudo têm um fundamento racional e uma raiz afectiva e autobiográfica. Sena foi o camonista do século XX que mais ampla e aprofundadamente estudou Camões, desde o plano filológico, histórico-literário e comparatista até ao plano hermenêutico e filosófico–doutrinário, com uma preparação teórica e metodológica de rigoroso scholar. A raiz afectiva e autobiográfica tem a ver com a minha memória universitária: quando, na década de sessenta do século XX, elaborei a minha tese de doutoramento, foi com Sena que aprendi a «ler» Camões e a poesia portuguesa do seu tempo sob o signo do Maneirismo, rompendo com tradições e esquemas historiográfico-literários dominantes na Universidade portuguesa (Camões como símbolo maior do «Classicismo renascentista» é não só a expressão da visão histórica do Renascimento forjada por Burckhardt e por Michelet como também um dos grandes mitos do nacionalismo lusitano).

Um camonista do século XX que me desperta muito interesse, por diversas razões, é António José Saraiva.

O «valor acrescentado» de Sena consiste em ter sido um poeta profundamente moderno vindo do Unicórnio e dos Cadernos de Poesia, que soube magistralmente fazer a defesa e a ilustração da filologia e da «erudição» como conhecimentos vivos e imprescindíveis à racionalidade científica dos estudos literários. Tirou-lhes o «verdete»… Comparo-o, sob este ponto de vista, a Dámaso Alonso.

P. O seu Sena neste livro é o camonista, mas não inteiramente o «camoniano», já que esse teria de incluir o poeta – dos sonetos de As Evidências, de vários outros poemas onde o rastro camoniano é notório -, o contista, etc. Tratando-se de uma decisão de corpus e de método, foi-lhe ela evidente ou difícil?

R. O Sena que neste livro estudo é efectivamente o «camonista», o scholar camonista, e não o poeta ou o narrador cuja obra apresenta uma multiforme relação intertextual com a obra camoniana e para cujo conhecimento Jorge Fazenda Lourenço deu um valioso contributo na sua dissertação doutoral, A Poesia de Jorge de Sena. Mais recentemente, Margarida Braga Neves, num excelente ensaio publicado na revista Relâmpago (n.º 21), analisou também os sulcos e pegadas de Camões na obra literária de Sena. O subtítulo do meu livro assinala aquilo mesmo pela sua articulação peritextual com os dois volumes Trinta Anos de Camões. O corpus textual de Jorge de Sena camonista é tão vasto e tão rico que a opção não me originou dúvidas. Um dos meus objectivos, aliás, foi demonstrar a sólida, coerente e moderna formação de teoria e metodologia literárias do Sena camonista, que alguns têm pretendido circunscrever redutoramente aos cálculos estatísticos (nos quais há muita informação relevante). O capítulo IV do meu livro é uma contribuição para a história do pensamento literário em Portugal, domínio de investigação que, com raras excepções, tem sido votado ao abandono. A história das disciplinas científicas não é um supérfluo exercício de antiquário. É indispensável para se compreender a dinâmica dessas disciplinas e para se prospectivarem futuros desenvolvimentos.

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Anna Klobucka em entrevista sobre «O Formato Mulher»

Anna M. Klobucka é professora no Departamento de Português da Universidade de Massachusetts Dartmouth (EUA), onde ensina principalmente literatura portuguesa e literaturas africanas de língua portuguesa. É autora de Mariana Alcoforado: Formação de um Mito Cultural (IN-CM, 2006; ed. original Bucknell University Press, 2000) e coordenadora da primeira edição do manual Ponto de Encontro: Portuguese as a World Language (Prentice Hall, 2007). Co-organizou (com Helena Kaufman) After the Revolution: Twenty Years of Portuguese Literature 1974-1994 (Bucknell, 1997) e, com Mark Sabine, Embodying Pessoa: Corporeality, Gender, Sexuality (University of Toronto Press, 2007; edição portuguesa no prelo). Ouvimos a autora sobre o seu O Formato Mulher. A Emergência da Autoria Feminina na Poesia Portuguesa.

P. A partir da sua reflexão, podemos considerar Florbela Espanca, a “mulher antes de mais nada” (na citação de João Gaspar Simões), como um dos grandes mal-entendidos da literatura portuguesa do séc. XX? Até que ponto é que podemos falar de uma madrasta mal-amada das letras portuguesas?

R. É efectivamente muito complexo o processo de inscrição de Florbela Espanca na narrativa histórico-literária do século XX português e a breve arqueologia desta inscrição que faço na primeira secção do respectivo capítulo do livro certamente não esgota o assunto. Um dos argumentos que desenvolvo a propósito é que, sendo dificílimo abordar a poesia de Florbela criticamente sem levar em conta as articulações da diferença sexual que nela surgem – já que se trata de um aspecto tão central da sua obra – a crítica muitas vezes acaba por não a abordar seriamente de todo (salvo algumas notáveis e honrosas excepções), por razões que parecem ter a ver sobretudo com a fraca penetração da teoria e prática feministas e de estudos de género nas humanidades em Portugal e com a consequente escassez de ferramentas críticas especializadas. Mas há também outros factores importantes de marginalização, por exemplo, a conjugação da percepção de Florbela como “mulher antes de mais nada” com o preconceito que declara a incompatibilidade de tal identificação com valores ditos neutros e universais (sem que alguma vez se tenha negado pertinência neutra e universal a um hipotético autor de sexo masculino por este ser excessivamente macho; já com poetas homens conotados com uma identificação de género mais instável – como António Nobre – isso tem acontecido, mas é outra conversa…).

P. A passagem da “autoria” à “autoridade”, tal como a Anna Klobucka a apresenta, parece tratar-se de um processo assaz violento, um verdadeiro campo de batalha onde se dá, e citamos do seu livro, “o confronto agónico com o campo da escrita de autoria masculina” (p. 330). A leitura do seu ensaio mostra-nos um adversário que, essencialmente, veste as cores modernistas e pessoanas. Podemos concluir consigo que, mais do que já acontece em Portugal no caso de toda a produção literária pós-modernista, esta concepção do campo literário português especificamente no feminino terá que passar pela morte do Pai Pessoa?

R. A expressão que cita descreve, concretamente, uma das estratégias textuais que se podem discernir no volume Minha Senhora de Mim (1971) de Maria Teresa Horta – que consubstancia o momento revolucionário da reivindicação feminista na literatura portuguesa, até pela descendência que teve em Novas Cartas Portuguesas – mas na mesma frase justaponho esta estratégia com a de “dialogismo erotizado e condicionado pela herança da desigualdade que Luce Irigaray famosamente descreveria, em Ce sexe qui n’en est pas un, sob a legenda de ‘faire la noce avec les philosophes’” e que é igualmente legível em Minha Senhora de Mim, assim como, de uma ou outra forma, na obra de quase todas as autoras de quem O Formato Mulher trata. Não creio, realmente, que seja adequado descrever a emergência da autoria feminina na poesia portuguesa e a negociação da autoridade correspondente em termos de uma militância de género e menos ainda que estes processos passem por um assassinato ritual do “Pai Pessoa” (aliás, e penso que poetas atent@s a esta dimensão do texto pessoano o sabem muito bem, Pessoa foi tudo menos Pai: nos meandros da sua “intersexualidade” – para citar Maria Irene Ramalho – cabe muita coisa, mas dificilmente caberá uma reivindicação subjectiva da autoridade patriarcal).

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«Amor de Perdição. Uma Revisão»: uma entrevista com Abel Barros Baptista

Abel Barros Baptista organizou o volume inaugural da nossa colecção Revisões, dedicada à releitura das grandes obras da literatura portuguesa, volume que incidiu sobre A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós. E acaba de editar, na mesma colecção, o volume que coordenou sobre o Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, que conta com a colaboração de Ana Paiva Morais, Ângela Fernandes, Luís Prista, Roberto Mulinacci, Clara Rowland e Sérgio Guimarães de Sousa. Falámos com o coordenador da obra sobre o livro «revisionista», sobre a «novela» camiliana que o livro revisita, e, naturalmente, sobre Camilo, autor ao qual Abel Barros Baptista dedicou um já vasto conjunto de ensaios, em forma de livros ou de artigos.

P. A primeira e mais paradoxal conclusão que se extrai desta operação de releitura do Amor de Perdição é que o livro foi muito menos lido na Escola do que se pensa: entrou tarde nos programas e nunca de forma muito convincente. A que se deve, em seu entender, esta situação, estranha para uma obra cujo estatuto canónico permanece incontestado?

R. Não sei se será assim tão incontestado. Entre os conhecedores da obra camiliana, não existe unanimidade a respeito de qual seja a mais representativa das novelas de Camilo. Pode até dizer-se que o Amor de Perdição colhe pouco apoio nessa eleição; mas deve dar-se o caso de nisso os próprios admiradores se deixarem influenciar pelos lugares-comuns e pelos preconceitos que cercam o livro. Como quer que seja, o que essa conclusão sobretudo atesta é que o Amor de Perdição não é ou nunca foi visto como a novela convencional que se pretendeu que era durante muito tempo e que, por uma razão ou por outra, os programas escolares a foram considerando inconveniente, inadequada, imprópria para figurar na educação dos jovens estudantes. Não é uma situação estranha, em todo o caso. Não creio que o Estado Novo achasse aceitável a divulgação de uma novela em que o protagonista proclama que a «submissão é uma ignomínia quando o poder paternal é uma afronta»… Às vezes dá-se o caso de os poderes intransigentes serem mais lúcidos leitores do que os supostos leitores lúcidos porque amantes da literatura.

P. Quais lhe parecem ser os maiores contributos deste livro para uma efectiva revisão crítica desta famosa «novela» de Camilo?

R. O maior contributo do livro é precisamente destruir a imagem que tem persistido dele nos últimos tempos. Desde logo a imagem de livro convencional e escolar. Depois, mostrá-lo disponível para certos exercícios que o complicam, que o abrem a várias possibilidades novas e, em particular, que expõem o abismo entre a por vezes extrema simplicidade do que o texto materialmente diz e aquilo que nele se incrustou como verdete interpretativo mais ou menos anónimo. Outro contributo importante: desenhar uma pequena mas eficaz linha de leitura unindo alguns críticos, permitindo pensar numa tradição de leitura que responde a problemas do texto ainda quando não sabe que responde.

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Ana María García Martín em entrevista sobre «O Soldado Prático»

Ana María García Martín é Doutora em Filologia Hispânica pela Universidade de Salamanca, onde é professora na Área de Filologia Portuguesa. Como editora de textos clássicos, publicou previamente a Coronica Troiana em Limguoajem Purtugesa (Salamanca, 1998), tradução quinhentista portuguesa da “Crónica Troyana” impressa espanhola, e, mais recentemente, o poema herói-cómico setecentista O Hissope (Angelus Novus, 2006), neste caso em colaboração com Pedro Serra. Acaba de editar, na nossa colecção Biblioteca Lusitana, agora patrocinada pelo Centro de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, O Soldado Prático. Falámos com a responsável pela edição sobre a obra.

P. Que podem os leitores – parte deles terão ainda perfeito a educação sentimental do ‘ser português’ na bíblia lusíada –, nos dias de hoje, encontrar numa obra como O Soldado Prático, diálogo pouco dado ao ufanismo imperial?

R. O Soldado Prático é uma obra fundamental do corpus da literatura da expansão portuguesa. Rodrigues Lapa considerava o diálogo de Diogo do Couto uma das obras mais “honestas” da literatura portuguesa, motivo pelo qual deveria ser lida imediatamente a seguir a Os Lusíadas. Efectivamente, trata-se de um diálogo que nos permite conhecer o lado pragmático da expansão e a ideologia que lhe subjaz. Enfim, trata-se do texto que enceta a lenda negra do império português. Por todas estas razões, O Soldado Prático é um livro fundamental para os historiadores da expansão e do império português, sendo, como é, uma obra que faz uma análise atenta das misérias humanas numa sociedade de grande complexidade.

P. O Soldado Prático integra o elenco das «obras críticas» da expansão e, talvez por isso, é bem menos lido (e conhecido, embora as coisas não coincidam) do que as obras laudatórias, com Os Lusíadas naturalmente à cabeça. A escola, como se sabe, ratifica e incrementa esta situação. A situação destas obras em Portugal é idêntica à que ocorre em Espanha ou há diferenças? Qual ou quais seriam as obras espanholas críticas da expansão aproximáveis d’O Soldado Prático?

R. As obras relativas à expansão não têm o mesmo peso nas literaturas portuguesa e espanhola. No Portugal renascentista os livros que narravam a experiência da expansão tiveram um grande acolhimento, que, aliás, não se limitou a Portugal, tendo muitas delas circulado por toda a Europa. Por outro lado, a temática da expansão produziu obras-primas em Portugal. As mais óbvias, claro, são Os Lusíadas e a Peregrinação, entre outros textos que justificam plenamente a atenção que a historiografia literária e cultural dispensou, e continua a dispensar, à bibliografia da expansão. Pelo contrário, é difícil considerar obras afins, em língua castelhana, com uma repercussão equivalente no campo literário espanhol. O caso que mais se aproxima a O Soldado Prático, por ser também um texto polémico que ajudou a configurar a lenda negra do império espanhol, é a Brevísima relación de la destrucción de las Indias, do Padre Bartolomé de las Casas. Uma obra escrita e ampliada reiteradamente pelo autor espanhol, como ocorreu igualmente com o diálogo coutiano. O texto de Bartolomé de las Casas, contudo, é escassamente lido ou estudado, circunscrevendo-se, no âmbito académico, a cursos de História da América ou de Literatura Hispano-americana. Outro texto semelhante a O Soldado Prático, por várias razões, é o que tem por título Diálogos de la vida del soldado, da responsabilidade do salmantino Diego Núñez Alba. Trata-se, neste caso, de um diálogo escrito em meados do século XVI, texto em que o autor, ex-soldado no exército de Carlos V na campanha da Alemanha, lamenta a vida miserável e as humilhações sofridas pelos soldados, os ‘operários do império’. Todavia, este diálogo é lido, fundamentalmente, por historiadores e estudiosos do género dialógico no Renascimento hispânico.

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Manuel Gusmão: entrevista sobre «Finisterra. O Trabalho do Fim: reCitar a Origem»

Professor universitário dos mais prestigiados da sua geração, ensaísta, crítico, e ainda, em regime tardio, poeta, dos mais consagrados de hoje: Manuel Gusmão acaba de editar na Angelus Novus um ensaio em que longamente percorre e interroga Finisterra. Paisagem e Povoamento, a obra tardia e maior de Carlos de Oliveira. O livro intitula-se Finisterra. O Trabalho do Fim: reCitar a Origem, e a propósito dela o autor concedeu-nos a entrevista que aqui publicamos (e que é muita pena não vir no final do livro..).

P. Antes de mais, como vê hoje o lugar de Finisterra. Paisagem e Povoamento na literatura portuguesa do século XX? O tempo «fez-lhe justiça» ou ratificou o seu estatuto de «coisa estranha»?

R. Eu creio que o tempo ratificou o seu estatuto de “coisa estranha” e nessa medida “fez-lhe justiça”. Entretanto, como há muita gente que se assusta ou não consegue conviver com “coisas estranhas”, o tempo não logrou vencer essa inércia e demasiada gente se separa desse “encontro inesperado”.

P. Que outros livros coloca a par de Finisterra, na genealogia das Grandes Singularidades da literatura portuguesa dos séculos XX e XXI?

R. O livro, de Cesário Verde; “O Guardador de Rebanhos” e “Poemas Inconjuntos” de Alberto Caeiro, Poemas de Álvaro de Campos e Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa; Metamorfoses, de Jorge de Sena; Sobre o lado esquerdo e Pastoral de Carlos de Oliveira; A colher na boca, Húmus e Ofício Cantante: poesia completa, de Herberto Helder; O livro das comunidades, Lisboaleipzig 2: O ensaio de música e O senhor de Herbais, de Maria Gabriela Llansol; Missa in Albis, Irene ou o Contrato Social e Myra, de Maria Velho da Costa; Cancioneiro policial da menina Alzira, de Luís Sousa Costa.

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«Isto é a sério»: uma conversa com Isabela Figueiredo (I)

Quem é Isabela Figueiredo, a autora de Caderno de Memórias Coloniais? Uma bloguista incansável, uma escritora, uma «retornada», uma mulher de meia-idade que se olha sem grandes contemplações, uma filha que amava o pai e desamava aquilo que ele era? Para começarmos a entender a pessoa e a persona, transcrevemos aqui a primeira parte de uma entrevista, que os leitores poderão encontrar no Suplemento ao seu livro.

P. Os seus dados biográficos, aliás sucintos, referem o nascimento em Lourenço Marques e a vinda para Portugal aos 13 anos de idade. A questão impõe-se: a Isabela é africana, mais precisamente, moçambicana? Considera ter uma dupla nacionalidade?

R. Cheguei a Portugal com 12 anos, a 5 semanas de fazer os 13. Já não era uma criança, mas ainda não era uma mulher. Já aprendera que tudo tem consequências.  Já desenvolvera a minha consciência e sensibilidade, contudo, mantinha a inocência própria de uma menina. Já recebera muitas influências, mas outras esperavam por mim.

Quando era pequena, havia uma grande ênfase dos meus pais e entourage no facto de eu ser um produto genuinamente moçambicano, ou coca-cola, como diziam. Contudo, isso não é verdade quanto ao genuinamente. Estive sempre rodeada de referências portuguesas: a minha mãe mascarava-me de nazarena, no Carnaval, e em minha casa comia-se bacalhau com batatas regado a azeite português. Aprendi a falar e escrever em Língua Portuguesa e nunca conheci outra bandeira ou outro hino que não os portugueses. Durante a escola primária, tal como em Portugal se estudava a geografia das colónias, também eu estudei a da Metrópole. Lia as revistas editadas em Portugal, todas as que lá chegavam. Lembro-me de uma publicidade à margarina Vaqueiro que me fazia desejar prová-la. Quando cheguei a Portugal, a primeira coisa que quis comer foi pão barrado com margarina Vaqueiro, para espanto de todos. Para mim era uma margarina legitimamente portuguesa, com a respectiva designação pastoril. Era essa ideia pastoril, rural, que tinha de Portugal, e que me foi transmitida pelos meus pais. Em Portugal, diziam eles,  o vinho era melhor, bem como a fruta e os legumes. Não havia maçãs como as portuguesas… Nem melancia… Nada se comparava. Nem os produtos da África do Sul. Os meus pais tinham uma atitude de duplicidade relativamente à Metrópole. Por um lado, era a sua terra, e enchiam-na de virtudes, como os emigrantes, por outro reclamavam para si a legitimidade da sua presença em Moçambique, território onde haviam conquistado um posição confortável,  considerando-o igualmente seu, e não desejando abandoná-lo. Não tinham qualquer intenção de regressar. Aquela já era a terra do seu coração. Qualquer retornado se reconhecerá nesta ideia.

Que nacionalidade tinha eu no meio disto tudo? Bem,  a nacionalidade não é apenas um conceito administrativo, mas aponta para a pertença a uma nação, logo, uma ideia de povo, e nesse caso eu sempre fui portuguesa. Aliás, a questão da língua, ou seja, a forma como se fala, pensa e escreve é muito determinante no meu caso. Sempre me senti portuguesa, embora uma portuguesa diferente, de  além-mar, porque há várias formas de se ser português. Ninguém me pode pedir que seja uma portuguesa típica. Posso ser uma portuguesa que recebeu outras influências, que conviveu com outra cultura, outra geografia, outro ambiente e que saiu um bocado misturada. Não me sinto moçambicana. Sinto-me uma portuguesa que nasceu em Moçambique. Sempre fui qualquer coisa em transição, mas uma coisa que precisa de ser portuguesa para poder reconhecer-se, encaixar-se e sossegar um bocado.

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Filipe Verde em entrevista ao Ipsilon

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Encontra-se já disponível online a entrevista feita a Filipe Verde por Gustavo Rubim e editada no suplemento cultural Ipsilon, do jornal Público. Com o título «Freud é o mais importante pensador moral do século XX», é uma peça fundamental para conhecer o autor de O Homem Livre, de quem a Angelus Novus tem já em mãos um novo original, a editar no final do ano.

«O Homem Livre» no Ipsilon: 5 estrelas

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Tardiamente, em relação à data de edição do livro, fez-se ontem justiça no Ipsilon no que toca a O Homem Livre, de Filipe Verde: longa e magnífica entrevista do autor a Gustavo Rubim e resenha deste, cujo teor valorativo (expresso nas 5 estrelas que atribui ao livro) se pode resumir nestas palavras:

O livro de Filipe Verde que a Angelus Novus agora editou, O Homem Livre: Mito, Moral e Carácter numa Sociedade Ameríndia, vai decerto ficar como obra maior da antropologia portuguesa.

Da entrevista, permitimo-nos destacar, com a devida vénia, este excerto:

— Chamas à filosofia de vida dos Bororo “naturalismo ético”. Quer dizer que para eles não há moral sem compreensão da natureza e do lugar dos humanos na natureza? Ou basta dizer que no pensamento Bororo aquilo a que chamamos “moral” não existe?

Bom, não quero, nem conseguiria, resumir aqui o que se condensa nessa ideia de “naturalismo ético”, nem é esse o propósito da pergunta, suponho. Há que ler o livro para ter uma visão da coisa. Mas no essencial dos essenciais trata-se do seguinte: ele designa um corpo de ideias sobre o homem e a acção pela qual o conformar dos comportamentos às necessidades da vida social (ou seja a renúncia à mera lei do desejo e da violência) é concebido não como o resultado de uma aprendizagem cultural ou da submissão a uma coerção social, mas como a expressão e manifestação de propriedades centrais da natureza e dos processos vitais (uma natureza que é a mesma para homens, jaguares e aranhas). Nesse sentido, a compreensão da natureza é o que perfaz o que entre nós chamamos “moral”. Uma moral que está presente, e como!, presente de uma forma que permite conciliar o que nós pensamos inconciliável, isto é, uma  liberdade individual enorme com uma ordem e paz social que roça o que nos vertemos na ideia de utopia, mas uma moral que nunca se chega portanto a formular como tal. É uma moral do mesmo tipo que encontramos na Grécia de Homero, antes de Sócrates e Platão a terem tornado um coisa, e uma palavra, que com o tempo se foi tornando prescritiva, se casou com a religião e com a filosofia que a ergueram contra a natureza e nos tornaram assim muito inautênticos, cada vez menos livres, ou quando livres sem meios para sequer sermos capaz de a viver de facto, e muito neuróticos.

Existe uma razão adicional para que nos orgulhemos da edição deste livro: o facto de a foto da capa (a famosa foto do bororo «Hugo»), e várias das que ilustram o livro, serem as fotos tiradas por Lévi-Strauss na expedição que mais tarde descreveu em Tristes Trópicos e que reuniu, ainda mais tardiamente, em Saudades do Brasil. O grande antropólogo francês, contactado pela Angelus Novus, e num gesto que o define, cedeu graciosamente as fotos em causa. Por isso também fizemos questão de referir, no próprio livro, que a edição de O Homem Livre ocorria no centenário de Claude Lévi-Strauss, que dessa forma assinalámos, com a inteira concordância de Filipe Verde.

Gonçalo Duarte: entrevista

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Gonçalo Duarte é actualmente leitor de Português na Bélgica, mais exactamente nas universidades Livre de Bruxelas e Católica de Lovaina. Publicou na Angelus Novus, no final do ano passado, o livro O Trágico em Graciliano Ramos e em Carlos de Oliveira. Uma Leitura apoiada nos Romances São Bernardo e Casa na Duna. Ouvimo-lo sobre o seu livro, em entrevista que aqui publicamos.

 

P. Pode descrever brevemente o seu propósito com este livro? 

R. O livro surge a partir da influência que o romance São Bernardo exerceu na composição (e na recomposição) de Casa na Duna, mas pretende também aproximar Graciliano Ramos e Carlos de Oliveira para lá desses dois romances, reflectindo sobre aspectos que implicam o conjunto das suas obras e estabelecendo nexos entre os percursos dos dois autores. O estudo da presença do elemento trágico nos dois romances serve esse propósito, porquanto é sintoma de uma crise comum dos ideais neo-realistas perfilhados por ambos os escritores e prenúncio da falência das grandes narrativas.

P. O que é que o atrai na obra de Graciliano Ramos e na de Carlos de Oliveira?

R. O meu primeiro contacto com Carlos de Oliveira deu-se no ensino secundário; interessou-me, então, no poeta como no romancista, uma linguagem exacta e depurada, alheia à retórica que caracteriza grande parte da literatura portuguesa do século XX. Quando li Graciliano Ramos, já na universidade, notei uma grande proximidade entre o seu estilo e o de Carlos de Oliveira. Surpreendeu-me, para além disso, o trabalho de construção de São Bernardo que, vim mais tarde a compreendê-lo, influenciou a obra romanesca do autor português – esse romance parece-me um bom exemplo da noção da escrita como labor, comum a ambos os autores. A essa afinidade estética e de concepção da essência do trabalho literário acresce o curioso facto de ambos se integrarem no movimento neo-realista, retórico por excelência, e de nas suas obras haver uma ultrapassagem não declarada mas evidente desse movimento (ainda que na obra de Carlos de Oliveira esse processo alcance um ponto superior e mesmo irreversível).

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António Machuco Rosa: entrevista (II)

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Concluímos aqui a nossa entrevista com António Machuco Rosa, autor de Os Direitos de Autor e os Novos Média e um dos coordenadores da série «Média e Comunicação» da Biblioteca Mínima.

 

P. A produção deliberada de escassez, pelas mega-empresas das tecnologias da informação, em bens cujas externalidades positivas são justamente definíveis, por oposição aos bens físicos, como não escassos – noutra linguagem, trata-se daquilo a que chama a «progressiva privatização dos bens constituídos exclusivamente por informação» -, não justifica, do ponto de vista político, o download e a atitude hacker como «desforra do explorado»? Como vê, a este propósito, a recente eleição de um deputado do Partido Pirata sueco ao Parlamento Europeu?

R. Não me parece que justifique, e sobretudo não justifica a ‘pirataria’. O que a explica é o facto de as pessoas terem começado a ter uma consciência mais ou menos confusa de que um bem de informação tem um custo marginal tendendo muito rapidamente para zero com o número de cópias produzidas. Ora, a informação são cópias, e as pessoas não pensam estar a fazer mal ao multiplicar cópias. Literalmente, não estão a ‘roubar’ nada. As pessoas não são parvas, sobretudo quando vêem os preços exorbitantes da música nas lojas. Ninguém, está a defender a ‘pirataria’, no sentido de fazer uma cópia e a ir vender numa feira.

Aliás, tão pouco tal é defendido pelo Partido Pirata. Esse Partido tem um discurso intelectualmente bastante elaborado. A isso junta-se o verdadeiro escândalo que são algumas recentes sentenças judiciais. As pessoas revoltam-se, e com razão. Considero muito importante o sucesso do Partido Pirata, pois, finalmente, poderão começar a existir vozes que defendam aquilo que supostamente a lei deve defender, o interesse público, acabando com uma situação em que o poder político fica preso de um conjunto de estrelas cheias de glamour irresistível e de interesses mais ou menos velados. No contexto de uma propaganda generalizada, o resultado é que o equilíbrio visado pela lei se perde, em benefício de um reduzido número de indivíduos.

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António Machuco Rosa: entrevista (I)

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António Machuco Rosa é autor de uma vasta bibliografia na área das Ciências da Comunicação. Inaugurando a série «Média e Comunicação» da colecção Biblioteca Mínima, acaba de editar na Angelus Novus Os Direitos de Autor e os Novos Média, obra que se tornará seguramente, e no mais curto prazo, uma referência obrigatória no nosso panorama editorial.

Em entrevista que agora começamos a publicar, o autor pronuncia-se sobre as questões abordadas no seu livro.

 

P. O debate histórico sobre os direitos de autor oscila entre o seu entendimento à luz ou da noção de direitos patrimoniais ou da de direitos morais. O que trazem de novo os novos média a este conflito?

R. Os direitos patrimoniais têm constituído a parte nuclear do regime de copyright que se desenvolveu nos países anglo-saxões, enquanto os direitos morais sempre foram uma característica essencial dos códigos de direitos de autor dos países da Europa continental. Estes direitos estão bastante associados à emergência da noção moderna de autor autonomamente criativo, do autor como fonte absoluta de criação. Em todo o caso, mais do que assente na oposição (que não existe) entre direitos patrimoniais e morais, penso que, em primeiro lugar, a evolução do direito de autor é marcada pela oposição entre aqueles que defendem que o autor tem um direito absoluto sobre a sua obra e aqueles que sustentam que a informação é um bem público (tecnicamente, um bem público puro), e que portanto uma lei do direito de autor é a busca de um equilíbrio entre interesse social e incentivo à criação. Ora, curiosamente, é a segunda concepção que orienta filosoficamente a maior parte das legislações existentes. ‘Curiosamente’, porque, para o público em geral, é a primeira concepção que se julga estar na base do direito de autor. Naturalmente, que esta visão, falsa, repita-se, é de facto aquela que certos interesses velados tendem a propagandear….

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Rui Bebiano: entrevista (II)

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Voltamos à conversa com Rui Bebiano, a propósito do lançamento do seu livro Outubro. Aproveite, pois não há mais.

 

P. «A Revolução não é um convite para jantar», dizia um famoso revolucionário. Ou seja, e como dizia outro revolucionário, a revolução é como o rio que se liberta e tudo arrasta, sendo por isso quase que fatalmente violenta. Adaptando para aqui a teorização da «guerra justa», será que há uma violência revolucionária justa?

R. O antigo debate sobre a justeza da guerra remete, mais do que para princípios – desde Santo Agostinho que não existe uma solução para o problema que não seja arbitrária –, para condições objectivas de luta por metas e valores. A dicotomia paz-guerra é incompleta e perigosa quando implica a rejeição absoluta da luta de contrários. No caso da «guerra revolucionária», que implica uma revisão da ordem política e moral, a absolutização desses valores é objectivamente impossível. Mas a consideração da violência como «parteira da História», da qual falava Engels, incorpora tanto a sua dimensão regeneradora, enquanto instrumento de destruição de uma ordem injusta, quanto a sua disposição ao serviço do lançamento de uma nova ordem. A grande dificuldade esteve sempre em saber quando parar, ou até se se deveria parar. Os Estados do «socialismo real» nunca deram grande importância à segunda possibilidade. E a esquerda radical rejuvenescida nos anos sessenta colocou sempre no centro da sua intervenção a necessidade da violência. O imaginário de Outubro ajustou-se de forma óptima a estes objectivos. A proposta guevarista de «criar um, dois, três, muitos Vietname» não representava senão o retomar, como uma necessidade, do programa internacionalista do primitivo Outubro. 

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Pádua Fernandes: entrevista (II)

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Publicamos agora a conclusão da entrevista a Pádua Fernandes, por ocasião da edição do seu ensaio Para que servem os direitos humanos? A foto acima é de Duanne Ribeiro, para a revista Capitu.

 

P. A questão dos direitos humanos só faz sentido, em rigor, no quadro, muitíssimo problemático, do Direito Internacional, quadro no qual uma expressão como «comunidade internacional» é pouco mais do que um tropo caritativo, na medida em que não repousa sobre uma modalidade explícita de «contrato social». A pergunta é esta: na lógica dos direitos humanos, que é a da «comunidade internacional», tal como Kant e outros depois dele a pensaram, crimes como o de genocídio não deveriam activar, de imediato, um «direito de ingerência»? Pode haver, de facto, direitos humanos sem o correlato direito de ingerência?

R. Com efeito, contratualistas como Rousseau, lembro-o no livro, não souberam o que fazer com o Direito Internacional. O direito à ingerência é anterior ao Direito Internacional de hoje – na verdade, é mais antigo do que o princípio da não-intervenção, como explico no livro. No entanto, a ingerência era usada como instrumento do imperialismo; isso ainda pode acontecer, como foi o caso da invasão do Iraque pelos Estados Unidos. No livro, refiro às exceções ao princípio da não-intervenção nos casos de violação maciça dos direitos humanos (como os crimes contra a humanidade).

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Rui Bebiano: entrevista (I)

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Rui Bebiano edita, com Outubro, o seu terceiro livro na Angelus Novus, dirigindo neste momento na editora uma colecção cujos primeiros volumes serão publicados ainda no corrente ano.

Outubro, publicado inicialmente no seu blogue A Terceira Noite (situação que já ocorrera com a sua colectânea de cibercrónicas Folhas Voláteis), é mais um episódio da sua dedicação aos novos meios, mas também, ou sobretudo, a uma versão pessoal do papel do historiador como alguém preocupado com a difusão do seu trabalho e discurso no espaço público.

Como se impunha, fomos ouvir Rui Bebiano sobre esta sua mais recente obra. Publicamos aqui a primeira parte dessa conversa.

 

P. Sendo reconhecidamente necessário, e mesmo indispensável, superar as perspectivas acríticas da revolução de Outubro, será contudo possível superar a mitologia em torno do evento? A carga mitológica da data parece resistir a quase tudo, ou não?

R. Outubro permanece como instante simbólico, distante e próximo ao mesmo tempo, fundador de um tempo longo do qual ainda participamos. Dele não se emanciparam ainda os defensores da grande ilusão comunista, continuando a projectar a partir do seu exemplo a materialidade das suas expectativas, ou os que vêem na sobrevivência do modelo leninista uma ameaça à vida democrática. Mas permanece também como elemento activo, com o qual é impossível não dialogar na edificação dos imaginários emancipatórios. É ainda uma presença recorrente nas preocupações dos que procuram interpelar criticamente o mundo contemporâneo e os caminhos da memória colectiva.

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Pádua Fernandes: entrevista (I)

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Autor já editado em Portugal, e com um especial interesse na obra de Alberto Pimenta (editou no Brasil uma antologia da sua obra, A Encomenda do Silêncio, Odradek, 2004), Pádua Fernandes não deveria ser um inteiro desconhecido para o público português – que contudo desconhece, até ao momento, a sua produção na área do Direito. No momento em que a Angelus Novus edita o seu importante ensaio sobre os direitos humanos com que inaugura a colecção Jacto, pareceu-nos por isso importante ouvir extensamente o autor. Aqui fica o início dessa conversa.

 

P. Uma das teses fortes do seu ensaio é a ideia de que «A interpretação dos direitos humanos deve guiar-se pela busca da efectividade da acção humana» (p. 67). Logo, «Porque devem ligar-se à acção, os direitos humanos têm no direito de resistência o seu referencial» (id.). Podemos daqui inferir que na medida em que os direitos humanos pressupõem o direito de resistência, onde quer que este não possa funcionar – por exemplo, e ainda recentemente, nas ruas de Teerão – os direitos humanos são apenas letra de lei, isto é, letra morta. Logo, uma pré-condição dos direitos humanos é a democracia. É assim? E não é isso uma debilidade de base da sua defesa?

R. Ao contrário, em Teerão o direito à resistência pode funcionar, e o faz até por meio destas novas vias tecnológicas relacionadas à internet, que permitem a ação em escala global. Isso faz lembrar a observação que faço no final do livro sobre a tese de Virilio a respeito da tecnologia totalitária: a tecnologia não é necessariamente totalitária ou libertária, tudo depende da ação. A ideia de democracia como pré-condição dos direitos humanos parece-me simplificadora. Historicamente, a democracia nasceu na Grécia Antiga sem a noção de direitos humanos – e sim com as “liberdades dos antigos”. No século XVIII, por sua vez, concepções filosóficas de direito natural animaram os processos que acabariam por levar às democracias contemporâneas. No tocante ao problema do fundamento filosófico, interessa-me a tese de Habermas de que democracia e direitos humanos são cooriginários, a qual, segundo Ricardo Terra, já estaria presente em Kant. No entanto, não trato disso neste livro.

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Isabel Cristina Rodrigues: entrevista (III)

Qual é o livro de Vergílio Ferreira que prefere? E porquê?

Isso foi variando ao longo do tempo. Como já expliquei, começou por ser o Para Sempre, mas depois de tanto o ler e sem que saiba exactamente porquê gastou-se-me um pouco, para usar um termo caro ao próprio Vergílio Ferreira. Hoje em dia considero o Na Tua Face uma obra-prima completa: a verdade é que é um romance, mas é também um ensaio sobre a fotografia e a pintura e é tudo isso sem que o seja explicitamente. É um romance de uma verdade e de uma precisão inabaláveis e de uma beleza intemporal também. E depois porque contém a mais bela cena de amor de toda a sua ficção – aquela em que o pintor Daniel, depois de visitar a exposição de fotografias que a filha Luz realizou sobre o cadáver do irmão, inventa para a mulher, já cega na altura, uma exposição diferente daquela que ele próprio acabou de ver, para evitar que Ângela «visse» as imagens do filho morto. São (também) momentos assim que fazem um grande escritor.

Uma vez que é professora universitária, pode dizer-nos qual é a reacção dos jovens universitários à obre de Vergílio Ferreira?

Normalmente torcem um bocado o nariz quando percebem que vão ter que ler um escritor consensualmente difícil, mas depois, salvo um ou outro caso, acabam por gostar e alguns deles por gostar muito. É mais uma reacção ao esforço que sabem ser necessário do que ao escritor em si e não reagem de modo diferente a Saramago ou a Lobo Antunes, por exemplo.

Vai continuar a escrever sobre Vergílio Ferreira ou entretanto mudou a orientação do seu trabalho académico?

Deixar de escrever sobre Vergílio Ferreira é difícil, uma vez que há ainda muita coisa a fazer. Gostava um dia de fazer um dicionário sobra a obra do escritor, em colaboração com a Prof. Rosa Goulart, que é uma das maiores exegetas da obra do autor. Temos ambas esse vago projecto, mas outro mais urgente se antepôs a esse, uma vez que estamos a preparar a edição crítica do Onde tudo foi morrendo e esta tarefa, obedecendo à calendarização de toda uma equipa (a que estuda o espólio do escritor, doado à Biblioteca Nacional) acaba por ter prioridade sobre as outras. Mas tirando isto, penso de facto variar o trajecto do meu estudo. Gostaria de escrever um livro sobre a influência de Pessoa na narrativa portuguesa moderna e contemporânea, não na poesia, porque isso de um modo ou de outro já tem sido feito, mas na narrativa. Acho que há aí coisas interessantes a descobrir. Depois há um outro projecto, talvez mais difícil mas também mais aliciante, sobre a revitalização da alba medieval na poesia portuguesa contemporânea, em colaboração com o Prof. Paulo Alexandre Pereira, meu colega. E pelo menos em relação a este último projecto, Vergílio Ferreira não podia estar mais longe…

Isabel Cristina Rodrigues: entrevista (II)

A sua bibliografia é muito centrada na obra de Vergílio Ferreira. Porquê?

Quando o Para Sempre foi publicado, eu tinha 16 anos e nunca tinha ouvido falar de Vergílio Ferreira, ou pelo menos não me lembro, mas um dia, mais ou menos por essa altura, o meu pai (grande leitor, tal como a minha mãe) disse-me que havia um livro que tinha lá dentro tudo aquilo de que eu tanto gostava nas grandes tardes de Verão da Serra da Estrela, a que a minha família está ligada por vínculos muito próximos. Eu gostava muito de olhar a serra ao entardecer, daquele silêncio e daquele calor e foi quase como uma revelação o momento do meu encontro com aquele romance, assim mesmo dividido entre as páginas do livro e a paisagem em frente da janela. Entrei no universo do autor pela porta do Para Sempre e a verdade é que nunca mais me apeteceu sair, isto sem desprimor algum para outras portas e outras tantas janelas, longe já do horizonte vergiliano, que entretanto se me abriram. Muito mais tarde, quando se tratou de procurar um tema para a minha tese de mestrado, foi mais ou menos óbvio que iria trabalhar sobre Vergílio Ferreira. Assim foi e assim tem sido, inclusivé na minha tese de doutoramento, igualmente dedicada à análise da sua obra.

Como vê o lugar de Vergílio Ferreira na literatura portuguesa moderna? O tipo de romance que ele praticava, ensaístico, filosófico, questionador, não tem grande tradição entre nós, antes ou depois dele, pois não?

Pois não, creio que não, mas não me parece que isso tenha muita importância ou que possa ser olhado assim de forma tão simplista. É por demais conhecida a ligação de Vergílio Ferreira ao romance existencialista francês e, nesse registo, ele de facto nunca teve muita companhia entre nós, mas o tipo de romance que escreveu não se esgota aí: o Joyce, o Kafka e o Pessoa foram presenças importantes no seu romance e, por essa via, a família do Vergílio Ferreira ganha alguns outros irmãos e outros tantos primos – por exemplo o Lobo Antunes, de que ele infelizmente tão pouco gostava, o Abelaira, o Rui Nunes…

Vê, no nosso panorama actual, algum/a descendente do tipo de literatura que Vergílio Ferreira fazia?

Causa-me sempre algum incómodo este tipo de generalizações, normalmente injustas para os escritores que vêm depois e que legitimamente recusam para si próprios a designação de «epígonos de» ou de «o novo fulano de tal». Vergílio Ferreira não tem epígonos, ao contrário do que acontece com um ou outro escritor das últimas décadas, e creio que há várias razões para isso, mas dito isto, acho que o autor se sentiria bem acompanhado tanto pela Gabriela Llansol como pela Ana Teresa Pereira, o que é, aliás, mais ou menos consensual.

Luís Oliveira, sobre os 30 anos da Antígona: «Não serei um aliado do capitalismo…» (II)

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Publicamos agora as respostas de Luís Oliveira às perguntas de autores e colaboradores nossos. A todos, o nosso muito obrigado.

 

Manuel Portela é Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, tendo sido director do TAGV. Poeta experimental e performer, tem obra vasta sobre história do livro e «Digital Humanities». É autor da Antígona e tradutor de algumas das obras maiores do catálogo da editora. Traduziu e escreveu poemas para a Inimigo Rumor e colaborou de várias maneiras com a Angelus Novus. Dirigirá em breve uma colecção na nossa editora.

P: A qualidade das traduções tornou-se também uma referência da Antígona. Qual o lugar e a importância da tradução no projecto da editora?

LO: A qualidade das traduções é essencial numa editora como a Antígona, que vive de autores estrangeiros. Apesar dos nossos parcos recursos, pagamos aos nossos tradutores cerca de 20% mais do que geralmente se paga no mercado. Temos excelentes tradutores, alguns infelizmente mortos, como Luiza Neto Jorge, Manuel João Gomes, Ernesto Sampaio e Torcato Sepúlveda. Também pagamos aos tradutores uma percentagem determinada nas reedições de algumas obras. Concedemos ao tradutor a força de autor, colocando o seu nome na capa. Fomos, deste modo, os primeiros a reconhecer o real valor do tradutor, um exemplo que não tem sido seguido pela maioria das editoras, que desprezam estes grandes «carpinteiros» da escrita.

 

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Luís Oliveira, sobre os 30 anos da Antígona: «Não serei um aliado do capitalismo…» (I)

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A pedido nosso, Luís Oliveira, editor refractário responsável pela Antígona, respondeu a uma série de perguntas da Angelus Novus e de alguns autores e colaboradores seus. Publicamos neste post as suas respostas às perguntas da Angelus Novus. Deixamos para o próximo a respostas de Luís Oliveira às perguntas dos nossos autores.

 

Angelus Novus: A máscara sardónica que é o logo da Antígona vem acompanhada de uma descrição da casa editorial: «Editores Refractários». Refractários a quê, se nos permite a pergunta?

Luís Oliveira: Somos refractários às leis que regem todo o sistema de opressão em que vivemos. A Antígona resiste à acção do fogo, sem mudar de direcção.

 AN: O catálogo da Antígona sempre foi muito político, mesmo quando literário (pensamos por exemplo no significado da centralidade atribuída na ficção à obra de Jack London ou George Orwell). O facto de essa política não ser a consensual, mas sim claramente alternativa – radical, marginal, etc. – mostra que há um público para suportar uma editora com um projecto muito definido nessa área?

LO: É evidente que, se não tivéssemos leitores, não existiríamos estes trinta anos, pois não possuímos outros recursos para além das vendas dos nossos títulos. O facto de termos um projecto muito bem definido, nesta e noutras áreas, atraiu um certo público, que se tem mantido fiel às ideias que veiculamos.

AN: Como editor com um projecto muito coerente, sente que o seu público aumentou, diminuiu ou se manteve nestes 30 anos?

LO: O público da Antígona tem sempre vindo a crescer ao longo destes trinta anos. É um público maioritariamente jovem, apaixonado pela nossa linha editorial. A publicação da obra completa de Albert Cossery aumentou exponencialmente o número de leitores mais jovens.

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Isabel Cristina Rodrigues: entrevista (I)

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Isabel Cristina Rodrigues é professora na Universidade de Aveiro. Na sequência de uma já longa dedicação à obra de Vergílio Ferreira, acaba de editar, na Angelus Novus, o volume ensaístico A Vocação do Lume. Publicaremos, a partir deste post inicial, uma entrevista que a autora nos concedeu sobre o seu livro.

Pode apresentar este livro aos leitores? De que consta, de facto?

Este livro reúne uma série de textos que, ao longo de alguns anos (2000-2005), fui escrevendo sobre a obra de Vergílio Ferreira e que foram sendo apresentados numa série de colóquios, alguns dos quais sobre a obra do escritor. Apesar de todos os ensaios que aqui se encontram terem sido já publicados (em volumes de actas dos referidos colóquios ou em revistas de literatura), pareceu-me que eles apresentavam uma certa unidade e que poderiam, por isso, ganhar com o seu agrupamento num volume único. É claro que, se fosse a escrevê-los hoje, pelo menos em alguns casos a escrita seria já outra, diferente daquela que foi, mas ainda assim não me pareceu oportuno alterá-los em profundidade, pela simples razão de que cada um deles tem a idade que tem, o que significa que têm exactamente a idade que eu tinha ao escrevê-los e assim é que deve estar certo. Por outro lado, a relativa unidade que vim agora a encontrar nestes ensaios mostrou-me que, mesmo sem ter tido disso plena consciência, o trilho que eu persegui, desde o início, na abordagem da obra de Vergílio Ferreira (no fundo, o da manifestação literária do fogo como metáfora do limite e da sua ambivalência) se manteve sempre sem praticamente nenhum desvio de rota, o que não deixa de ser curioso. Apesar de eu não me considerar uma pessoa nada narcisista, este facto se calhar diz mais de mim do que da obra do escritor, mas provavelmente é sempre assim com tudo o que escrevemos. Eu costumo dizer aos meus alunos que, mais do que aquilo que sabemos, ensinamos sempre aquilo que somos e, obviamente, isso é também visível em algo tão pessoal como a escrita.

Pode explicar-nos o título do livro?

De certo modo acabei de o fazer. Como também escrevo na curta nota prefacial do livro, a obra de Vergílio Ferreira foi-se consolidando, praticamente desde o seu início, sob o signo do lume, essa matéria incandescente de que é feito o homem, com as suas inquietações e os seus sonhos, procurando sempre na ambivalente experiência do fogo (que destrói, mas que ilumina e purifica também) uma implícita via de acesso ao sentido. Por isso A Vocação do Lume. A decisão de manter no título a palavra lume em vez de fogo decorre de uma espécie de homenagem que me apeteceu fazer às raízes beirãs do autor, sobretudo às duras invernias da Beira-Alta onde sempre crepitava, por entre rudes panelas de ferro, o lume acolhedor da infância, tantas vezes referido em algumas das suas obras.  Embora as panelas de ferro estejam cada vez mais em desuso, ainda hoje nas franjas da Serra da Estrela ninguém diz «vou acender a lareira», mas «vou acender o lume». E ser beirão, pertencer simultaneamente à dureza e ao silêncio daquela terra foi também para Vergílio Ferreira uma vocação.

Sobre Cuba: uma entrevista com Iván de la Nuez (II)

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[Concluimos aqui a edição de excertos de uma entrevista de Iván de la Nuéz, autor de Fantasia Vermelha]

 

Ouvi-te uma vez dizer que o momento em que sentiste não teres lugar em Cuba, nem tu nem boa parte da tua geração, constitui a verdadeira tragédia do projecto revolucionário.

Mantenho essa posição. A ruptura com a geração intelectual nascida por volta de 1960 é a crise mais profunda que viveu o projecto socialista cubano. Todas as demais rupturas, anteriores ou posteriores, se realizaram com justificações mais ou menos bem forjadas. As dos anos 60 justificaram-se pelo facto de que se tratava da velha burguesia, adeptos do antigo regime, gente com resquícios capitalistas. A do Mariel*, por tratar-se da ‘escória’, algo como a excrescência da sociedade socialista. As das gerações mais recentes porque são filhos do dólar e das ‘perversões’ e perigos que traz o turismo. Nós, contudo, nem tínhamos nascido sob o regime de Batista, nem tínhamos conhecido o dólar e tínhamo-nos educado de cabo a rabo sob a ideia do futuro perfeito. De modo que só lhes restou esgrimir contra nós o argumento de um desvio clínico. Somos uns monstros sem contorno nem circunstância, subitamente desviados, casos individuais contagiados por uma gripe imprevista ou atacados por uma pontual epidemia de oportunismo.

Outra diferença é que, enquanto em épocas anteriores a ruptura se produziu a partir de um desafecto em relação ao regime, no nosso caso foi o Governo quem praticamente rompeu connosco. Seguramente, pelo facto de que tínhamos actuado com uma permissividade política e estética que outros não tiveram; daí que, mais do que uma proibição do que não se podia fazer, produziu-se uma censura tácita sobre o que já se tinha feito desde a segunda metade dos anos 80.

Era a época da perestroika, da chamada rectificação e da incerteza quanto ao sistema comunista. Hoje não há praticamente uma alta personagem da elite cultural, diplomática ou política cubana que não tenha um filho, ou mais, fora de Cuba. Li, da parte de alguns, muitos horrores sobre nós, mas até hoje não conheço a menor autocrítica, inclusivamente dentro dos preceitos revolucionários, que reconheça que eles falharam nalguma coisa.

No que me respeita, por volta de 1989 senti-me cada vez mais asfixiado. A partir desse ano tornou-se evidente que os propósitos do movimento artístico em que eu acreditava, de que participava, e sobre que escrevia, não encontrariam saída dentro de Cuba. Ou recuava, ou emigrava ou enfrentava medidas legais e políticas muito sérias (as três coisas ocorreram, aliás). De imediato, o que num ensaiozito tinha qualificado como «cultura dissonante» – Arte Calle, Proyecto Castillo de la Fuerza, Paideia; a nova arquitectura; Hacer; Teatro del Obstáculo; o trabalho dos artistas plásticos a partir de Volumen I; Ballet Teatro de la Habana; Estética Práctica, de Arturo Cuenca; o teatro de Carlos Díaz, etc. – passou a ser entendido, por uma zona muito importante do aparelho ideológico, como «cultura dissidente». A ponto de, durante um congresso da UPEC, o todo-poderoso ideólogo de então ter dito, mais ou menos, esta frase: «Há uma oposição muito localizada com a qual talvez possamos discutir, há exilados moderados com os quais podemos abrir canais de diálogo; mas há uma geração muito informada que pensa que há que escutá-la porque são os filhos da Revolução. Com esses… ni cojones!» Eis porque, com 27 anos, optei por ficar, na minha primeira viagem a um país capitalista, e converter-me em «desertor», segundo a nomenclatura migratória cubana. Foi no México, em 1991, aonde chegámos, de supetão, com toda a alegria e anuência oficial, diga-se, uma centena de criadores.

 

*Mariel: cidade cubana cujo porto é o mais próximo dos EUA. Em 1980, na sequência de grave crise económica, e com a conivência do governo castrista, 125 000 cubanos fugiram, em embarcações de segurança duvidosa, para os EUA, tendo alguns morrido na travessia.

Sobre Cuba: uma entrevista com Iván de la Nuez (I)

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Ainda a propósito de Fantasia Vermelha, passaremos a transcrever nalguns posts, com a devida vénia, excertos de uma entrevista do autor da obra, Iván de la Nuez, ao site Encuentro. Por extenso, Sitio Web de la Revista Encuentro de la Cultura Cubana. A entrevista é conduzida por Antonio José Ponte.

 

Em livros distintos, em ensaios distintos, referiste-te ao pós-modernismo, ao pós-comunismo, ao pós-capital… Intitulaste Cuba y el dia después uma compilação de ensaístas cubanos.  E deste o título de Paisajes después del muro a uma importante compilação que inclui ensaios de Sloterdijk, Agamben, Habermas, Jameson… Salta à vista, segundo creio, uma obsessão por considerar períodos ultrapassados e falar a partir de um depois. De vários depois, se percorrermos tudo o que escreveste. Obedece isso ao teu respeito pela exactidão descritiva? Ou poderia considerar-se um modo seguro de rotular épocas, a partir das passadas?

Nunca pensei a partir da comodidade nem entendi o ensaio como um território seguro. Embora, é verdade, tenha sido obsessivo. Sucede que para mim escrever, deixar Cuba, ou viver a mudança de milénio, tanto como pensar globalmente os efeitos da queda do comunismo – tudo isso que detectas como obsessões minhas – são acontecimentos simultâneos que não podem separar-se. Assuntos de reflexão intelectual são também processos viscerais. Detonadores que mudaram a minha vida, com a minúscula importância que ela possa ter, mas, ainda assim, deslocamentos descomunais, capazes de desmantelar toda uma época, e o seu pensamento, em apenas vinte anos. De repente, há algo que estala no teu mundo, te arranca da tua situação original, e te coloca abruptamente num futuro para o qual não estás preparado.

Do ponto de vista estritamente cubano, essa tão exaltada e traída transição, de que tanto se fala, pode datar-se de finais dos anos 80, quando os filhos da Revolução, que eram o seu futuro, segundo todos os slogans, não tiveram espaço para levar avante as mudanças que se propunham dentro dela. Mais para lá de Cuba, essa posteridade está determinada pela queda do sistema comunista; pelo momento em que a queda do PC (Partido Comunista) deu lugar à apoteose de outro PC (Personal Computer). Ambas, queda e apoteose, coincidem no mesmo ano de 1989, e instalam-nos por completo num futuro antes muito remoto ou, inclusivamente, só lido, chamado pós-modernidade, pós-comunismo, estado pós-nacional, era da imagem…

Adam Phillips (II)

A edição da revista brasileira Veja de 12 de Março de 2003 traz uma magnífica entrevista com Adam Phillips, por Eduardo Salgado, na qual o autor discorre sobre história da psicanálise, o que ela é – «uma prática de falar e escutar» que aborda a questão central «o que faz a vida valer a pena?» -, a luta pelo sucesso, a depressão, a obsessão com as cirurgias plásticas, etc. Seleccionamos, com a devida vénia, alguns trechos sobre filhos e infância:

Veja – Muitas crianças têm agenda lotada de compromissos. Há tempo para ser criança no mundo atual?

Phillips – Com certeza, não. As crianças entram na corrida pelo sucesso muito cedo e ficam sem tempo para sonhar. Há grande ansiedade da parte dos pais em relação ao futuro. Essa pressão está literalmente enlouquecendo muitas crianças. A decisão sobre a profissão está acontecendo cada vez mais cedo. No século XIV, se as pessoas fossem perguntadas sobre o que queriam da vida, diriam que buscavam a salvação divina. Hoje a resposta é: “ser rico e famoso”. Existe uma espécie de culto que faz com que as pessoas não consigam enxergar o que realmente querem da vida.

Veja – Do ponto de vista dos pais, não é legítimo o desejo de sucesso e riqueza para os filhos?

Phillips – Claro. Não acho que as crianças deveriam ser educadas para se tornar revolucionárias. Mas é possível melhorar o que temos. Os pais devem ter como objetivo garantir o futuro de seus filhos e, ao mesmo tempo, deixá-los mais à vontade, com mais tempo e espaço para ser menos focados, menos objetivos. Adiar as decisões sobre o futuro, dar tempo ao tempo.

Veja – O senhor consegue atingir esse equilíbrio com sua filha de 8 anos?

Phillips – Acho que sim. Não fico tentando entender tudo que minha filha faz e diz. Estou mais preocupado em que se divirta. Não acredito num planejamento milimétrico para o futuro de uma criança, como se tudo pudesse ser programado.

Veja – Há alguns anos se fala da necessidade de dar limites aos filhos. Por que os pais acham essa tarefa tão difícil?

Phillips – É assim porque os pais não acreditam nos limites. É preciso acreditar neles para que funcionem. A cultura em que vivemos não facilita esse trabalho. Os pais criam limites que a cultura não sanciona. Por exemplo: alguns pais tentam controlar a dieta dos filhos dizendo que é mais saudável comer verduras do que salgadinhos enquanto as propagandas dão a mensagem diametralmente oposta. O mesmo pode ser dito em relação ao comportamento sexual dos adolescentes. Muitos pais procuram argumentar que é necessário ter um comportamento responsável enquanto a mídia diz que não há limites.

A entrevista pode ser lida na íntegra aqui.

 

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Discurso directo: Manuel Resende (III)

 

“Se quereis evitar a revolução, fazei-a”: eis como termina a entrevista que Manuel Resende nos concedeu à data da edição de O Mundo Clamoroso, ainda. Mas se a entrevista acaba, os versos de Resende continuam, mesmo se no regime da toupeira: mais à frente, não se sabe bem onde nem quando, alguém pegará neste e nos outros livros do autor e sentirá aquilo que só a grande poesia pode fazer sentir. Resende preferiria chamar a esse encontro tão improvável, mas tão decisivo, «revolução» – ou talvez, quem sabe, estivesse na disposição de o trocar por ela. Seja feita a sua vontade.

 
AN. O seu livro inclui em desdobrável o poema «Arde Cura» que vem com a indicação «hiper poema». Podia explicar do que se trata? E como é que este «Arde Cura» se relaciona com O Mundo Clamoroso, ainda?

MR. Este “Arde Cura” é originalmente um poema em hipertexto (linguagem html) que fui construindo quando andava ocupado a fazer um sítio web sobre poesia (hoje defunto, por cansaço). É uma colagem de notícias de rádio, de emails, de reflexões pessoais, de versos soltos que se me propunham à circulação e que cerzi através de links em html. Tratava-se de uma tentativa de utilizar a linguagem html como instrumento de criação. Depois, fui compreendendo que a internet não trouxe nada de conceptualmente novo, apenas a aceleração electrónica da intertextualidade que é, também, toda a relação social. E pensei que, com os meios da tipografia, poderia fazer um hipertexto ainda mais hipertexto: enquanto o hipertexto html impõe o caminho ao leitor, através dos links (e aí está um pouco da fraude intelectual da internet quando se apresenta como libertária), a pura e simples justaposição dos diferentes elementos numa só folha de papel permite ao olhar reconstruir todas as combinações possíveis de todos os fragmentos (fugindo à mera leitura linear em que habitualmente se enquadra um poema, embora, claro, em qualquer poema os links virtuais estejam sempre lá), com a vantagem de se poder rasgar a coisa e deitar os pedaços fora.

Bem, e voltando atrás, àquele “apenas a aceleração electrónica da intertextualidade”, este exercício permite, creio, reflectir sobre outro aspecto. A referida aceleração trouxe de facto uma mudança qualitativa. Fornece, a quem a utiliza, uma quantidade de informações que não consegue controlar, porque a velocidade do nosso cérebro não é elástica: somos assaltados por uma vertigem de presentes desconexos. A redução do hipertexto a tipografia substitui a sucessão de imagens pela presença de textos que podem ser reconsultados, apela a um vagar que não existe no ecrã do computador. Acho que dá que meditar.

Relaciona-se com o resto do livro como todos os outros fragmentos: justapõe-se. Não há um plano, a não ser o que foi surgindo por si. Mas veja-se também a resposta à pergunta que se segue.

 

AN. Comente os seguintes versos de «Arde Cura», sff: «raios partam a vida e quem lá mande / a tal toupeira cega remexe a terra sem parar, / e nós indo por esses campos tão lavrados / como havemos de reconhecer os caminhos? /mas havemos de queimar a merda dos vossos bancos! / o vandalismo é arte e o melhor poema há-de ser / escrito em carros da polícia e prédios da cidade / se em carros da polícia e prédios da cidade / houver espaço para os nossos slogans».

MR. Nada mais claro. Fernando Pessoa em Seattle, com um livro de Marx no bolso. “We’ll burn your fucking banks”, slogan surgido em Seattle. “A arte é vandalismo”, slogan de Chuck0, anarquista americano. Se esses versos têm (terão?) algum interesse, será o de dizerem e negarem ao mesmo tempo (confio em que o leitor consiga encontrar pelo menos duas contradições neles), pois o sentido está, não simplesmente no que é dito, mas sobretudo no dizer.

Assim como o hiperpoema é, também, um comentário sobre o hipertexto (a Internet), visto que foi arrancado do seu habitat inicial, também o conjunto destes versos é um comentário sobre cada um deles. O livro todo mais não é do que esse jogo, que diz o que não diz e, se virem bem, diz que o faz e o que faz.

Ao mesmo tempo, pondo em confronto a necessidade da revolução com o seu carácter problemático, creio que me situo no momento físico mais instante da época. O melhor conselho que posso dar aos surfistas é este: “se quereis evitar a revolução, fazei-a”.

 

aviador

Discurso directo: Manuel Resende (II)

 

O que é a poesia portuguesa? E o que é poesia? O poeta é um tradutor? O tradutor é um poeta? Continuamos a ouvir Manuel Resende, a propósito do seu último livro em data, O Mundo Clamoroso, ainda.

 

AN. A sua poesia, que oscila entre a dicção larga, pós-vanguardista, que vai do verso livre ao poema em prosa (muitas vezes de alcance político), e uma tonalidade auto-jocosa que nos remete para certo legado dos finais do nosso século XVIII, é dificilmente situável no panorama actual da poesia portuguesa. Como vê esse panorama e como se vê nele?

MR. Não o vejo e não me vejo nele e ele não me vê.

Mas, antes de prosseguir, o que é a poesia portuguesa? É da mais elementar salubridade resistir a essa utilização da História que consiste em encontrar uma espécie de lei natural eterna no que foi uma construção histórica: o erguer de uma fronteira geográfica e a criação de uma língua nacional. Poesia portuguesa, sem surrealismo, sem realismo socialista, sem estruturalismo, sem romantismo, etc.? Pronto.

Direi, além disso, que, ao nascer, mal saído das fraldas pessoanas, caí no caldeirão do surrealismo. Depois disso, ainda não encontrei mapa melhor do que o que este movimento nos propôs e que continua a ser para mim o essencial: o divino não está nos céus, mas em nós, e só temos como armas a poesia, o amor e a liberdade, contra todas as esperanças.

Certo, o surrealismo, que nasceu da primeira guerra e contra ela, tinha que ser derrotado pela segunda guerra, pelo regresso da barbárie (creio que este factor tem sido menosprezado). Mas é razão para darmos razão à barbárie e esquecermos as contas que ele pediu à vida?

Sou, como se vê, ultrapassado. Sem excluir que posso estar enganado, e sem querer atribuir juízos de valor aos poetas meus contemporâneos (nem a mim, aliás, que sou, acho, bastante contemporâneo), afigura-se-me que o que está a dar (não me ocorre outra expressão que diga o que quero dizer) é a complacência com o lugar comum, um desejo secreto de valores seguros (um croissant, os vários deuses avulsos, a mentalidade simples da menina da caixa) talvez matizada com críticas epidérmicas ao lixo que não devia estar nas “nossas” ruas.

Não é coisa que me preocupe por aí além. Afinal o que é um panorama? É o que se oferece aos olhos, o que dá mais nas vistas. E quantos poetas não tem havido, mesmo recentemente, às margens desse espectáculo (Luís Miguel Nava, Manuel António Pina, Nuno Moura, para citar só três)? E que é que isso interessa?

 

AN. É também um tradutor de méritos reconhecidos, com uma especial inclinação pela poesia grega. Em que medida o poeta é, em Manuel Resende, um compagnon de route do tradutor? É-lhe aceitável um quiasmo do tipo «O poeta é um tradutor, o tradutor é um poeta?»

MR. No meu caso, e no de muitos poetas e tradutores, sim. O poeta e tradutor francês Henri Meschonnic, inclusive, baseia (pudera!) a sua teoria da tradução numa poética; estou muito próximo das suas concepções, embora ache que põe demasiada confiança numa noção de ritmo algo vaga, aliás.

Primeirissimamente, a tradução é uma forma de ler e conhecer a poesia dos outros, a que não se escreve na nossa língua (e, como Mallarmé sublinhava, as línguas são imperfeitas por diversas, pelo que conhecer a diversidade é a melhor forma de saltar da língua para a linguagem). O novo só se faz sobre o velho e, por isso, melhor ainda se o velho for novo para nós, nos extrair da nossa tradição pequena (inclusive a que está mais na moda) e nos levar a tomar ar.

Segundamente, como negar que a poesia é a forma mais intensa de trabalhar com a linguagem? A tradução permitiu-me, creio (espero que não seja demasiado presunçoso), encontrar os mecanismos da linguagem que trabalham a língua. Descobri que a textura é que faz o texto, de que forma o discurso constrói o mundo para os outros, quanto somos palavra (é isso que nos distingue dos outros animais). Trata-se de verdades elementares, mas habitualmente ninguém repara nisso.

 

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Discurso directo: Manuel Resende (I)

 

É pena que a sua voz não se oiça mais vezes, porque Manuel Resende é uma pessoa com coisas a dizer. Começamos hoje a dar-lhe a palavra, a propósito ainda da edição do seu livro O Mundo Clamoroso, ainda, no ano de 2004. Pensámos ir ouvir de novo o poeta, mas fomos reler a entrevista que nos concedeu à data da edição do livro, e concluímos que é tão notável que não se justifica acrescentar coisas novas. Claro que, para «entrevista breve», como à data se intitulavam na Angelus Novus estas entrevistas que acompanhavam os nossos press releases, a peça tende ao longo… Mas o privilégio de ouvir uma voz como a de Resende, que é a de alguém que faz pensar, num tempo de excessivo pensamento único, justifica a extensão do que propomos aos nossos leitores.

 

AN O Mundo Clamoroso, ainda é apenas o seu terceiro livro. A que se deve um ritmo de edição tão entrecortado e dilatado no tempo? Falta de inspiração? Horacianismo compositivo? Desamor à letra impressa? Descaso pela república das letras?


MR. Nunca procurei activamente publicar, pelo que tem sido pela simpatia de amigos e leitores atentos (abençoados sejam) que os meus versos chegaram à tipografia. Descaso pela república das letras? Talvez, mas a seguir se verá. Não há qualquer desamor pela letra impressa, pelo contrário, nem horacianismo compositivo consciente (acredite-se ou não, os meus poemas saem em geral praticamente tal qual dos dedos ou da cabeça para o papel; embora, embora não haja nenhum improvisador de jazz que não tenha uma longa prática no corpo).

É certo que a produção não é propriamente gigantesca. Falta de inspiração? Digamos antes que me paralisa o sentimento da precariedade da poesia na nossa sociedade e no nosso tempo, o que implica muitas hesitações e revisitas dos outros poetas, nomeadamente pela via da tradução.

Precariedade da poesia. Se hoje se falar de crise de poesia é muito provável que se apontem como causas fenómenos marginais, absolutamente secundários, ou melhor, derivados: os jovens não lêem, os editores não publicam.

Na relativa calma em que vivemos, estão já esquecidas, ou recalcadas, as dolorosas antinomias que marcaram o nascimento da poesia novecentista e que, ao invés do que se possa pensar, continuam a trabalhar subterraneamente. A manifestação mais imediata dessas antinomias é a convivência da busca de formas de expressão para os novos tempos (o verso livre, por exemplo, como libertação em relação às formas fixas centenárias que correspondiam a sociedades altamente ritualizadas) com a recusa apaixonada desses mesmos novos tempos.

Essa antinomia conjuga-se com outra: a oposição racionalismo/irracionalismo, que corresponde a uma cisão muito característica da idade contemporânea, quebrada que foi a linha directa que ligava o mundo “inferior” (a natureza) ao “superior” (deus) através do homem. Tivemos de tudo neste departamento: a razão razoável (princípio da incerteza, teoria da relatividade) e a razão louca (teorias “científicas” das raças, eugenismo), o irracionalismo saudavelmente louco (Antonin Artaud, por exemplo, salvo o sofrimento do próprio) e o irracionalismo raciocinante (Heiddegger), o que indica que não são os dois pólos que interessam, mas sim a sua interrelação. A primeira manifestação mais trágica desta trágica antinomia foi a primeira guerra mundial, pois a sua barbárie, a sua brutalidade, teve origem nas mais avançadas civilizações, depositárias das grandes conquistas do pensamento e da técnica e das mais requintadas tradições literárias (“infelicidade na civilização”). E, pior do que tudo, essa primeira guerra veio cronologicamente logo pegada a outra época que ousou chamar-se “belle époque”, época inebriada pela fada electricidade, época a que só pareciam opor-se os terroristas anarquistas e as classes perigosas depressa metralhadas pelas forças da ordem.

Vejo subtis paralelos entre esses tempos quase pré-históricos, se medidos pela bitola actual, e os nossos. E encontro a razão disso numa antinomia de base: pregoeira infatigável do indivíduo, a nossa sociedade tudo faz para o fagocitar e castrar nesse colectivo privado que é a empresa, a ponto de apontar, como nec plus ultra do sujeito actuante, o empresário (exactamente aquele que não pode sobreviver sem a sujeição voluntária de todos, e dele próprio, por consequência, pelo que soçobra na burocracia da sociedade anónima, nem mais). Arauta do universal como soma de todos os singulares, entrincheira, por outro lado, cada pessoa no seu círculo estreito de relações, num circo de comunidades (comunidade científica, comunidade techno, comunidade homossexual, comunidade internacional, que são alguns Estados privilegiados, comunidade porra).

Embora não pareça, a poesia de hoje está precisamente no centro do furacão, e isto por uma razão muito simples: as condições de produção dos tempos modernos (bem, não fujamos às palavras: capitalistas) exigem a organização industrial privada, a qual é mais consentânea com formas de arte como o cinema, o vídeo, o disco, do que com esse artesanato que é a poesia, isto é, é mais consentânea com o copyright (propriedade intelectual das empresas) do que com o direito de autor (propriedade intelectual do Luiz Francisco Rebello). Os grandes poetas tardo oitocentistas não se enganavam ao ver no jornal e nos jornalistas os seus inimigos e ao contrapor-lhes o livro (ora aí está uma boa interpretação para Mallarmé, escusam de agradecer).

E contudo, ela move-se. Digo isto porque: apesar de toda a enorme concentração de abstracções materiais que se propõem ao nosso consumo, perdão, ao consumo de quem pode, todas as máquinas calculadas pela mecânica racional, todos os computadores calculados pela electrónica e pela lógica, todos os lasers, todos os robots, tudo o que quiserem, todas as multinacionais, apesar disso tudo, o ser humano não pode sobreviver mais do que o permite a rotação anual do sol. O seu ciclo de vida inscreve-se necessariamente no ciclo, digamos, natural, precisa, para viver, de que a mais ínfima das plantas tenha tempo de crescer e de morrer e de dar o seu podre às outras que vierem.

Está bem, está bem. E que tem isto a ver com a poesia? Tudo. Afirmação por excelência do indivíduo, isto é, do contacto mais nu e simples possível de cada um com o mundo (sim, através da palavra, artefacto por essência social, mas isso não esqueci, descansem, e trata-se, aliás, de um postulado de base), ela obriga-nos (se quisermos ser coerentes e quisermos sobreviver, simplesmente) a questionar esta corrida desenfreada de todos contra todos.

Tudo isto é telegráfico, reconheço-o, mas trata-se de uma “entrevista breve”. Como o que nós escrevemos é sempre apenas uma ponta do iceberg, permita-se que passe já para uma vinheta tirada da actualidade: o direito, que reivindica para si a glória de ter ultrapassado a lei da força pela força da lei, cada vez mais se impõe pela lei da força. Não se trata apenas das guerras americanas contra o chamado terrorismo (“might is right”, ora nem mais), trata-se também de querer à viva força, é o caso de o dizer, substituir a luta política pela luta judicial. Os advogados em vez dos profetas, ou dos oradores da ágora? Os estipendiados (esperemos que paguem o IRS), em vez dos simples militantes amadores? Razão tinha o Shakespeare: “morte aos advogados”. “Já”, acrescento eu, salvaguardando, claro, as pessoas singulares.
 
A isto tudo, oponho (em nome de quê ou quem? de mim, perdoem-me a insolência) a luta por revigorar a palavra, que para mim é igual à luta pela palavra de quem a não tem, é igual a procurar uma nova aliança com a natureza, é igual a andar mais devagar, a uma revolução que reivindique também o lugar do indivíduo, se fazem favor (e poderia citar Marx, mas o Pacheco Pereira não deixa e a um maoísta não se pode resistir). Poderia acrescentar imensos pontos a este caderno reivindicativo, mas prefiro deixar isso aos outros meus semelhantes, e sublinho “meus”.

 

 aviador

Discurso Directo: António Apolinário Lourenço

 

A colecção Biblioteca Lusitana, que visa editar os grandes clássicos da literatura portuguesa, é uma aposta forte da nova Angelus Novus. É certo que a editora sempre esteve empenhada no estudo e na divulgação das obras de referências da literatura portuguesa, ou por meio de edições de clássicos ou por meio de ensaios. Na nova Angelus, cujo perfil será bem mais generalista do que o anterior, é contudo intenção preservar a dedicação à leitura e estudo dos textos centrais do cânone literário português, investindo na Biblioteca Lusitana, de modo a fazer da colecção uma referência obrigatória para todos aqueles que apreciam ler a grande prosa ou a grande poesia portuguesas. Para isso a editora investiu na elaboração de critérios rigorosos de edição – fixação e anotação -, recorrendo aos mais conceituados especialistas. No fundo, trata-se de criar uma colecção que possa desempenhar para as próximas gerações o papel que no século XX coube por largas décadas aos Clássicos Sá da Costa. Com a vantagem, sobre estes, da uniformização de critérios editoriais e da exigência filológica que muitos dos volumes dessa colecção menosprezavam.

 

Falámos sobre a Biblioteca Lusitana com António Apolinário Lourenço, seu coordenador e desde já editor do volume inaugural: a Mensagem, de Fernando Pessoa.

 

AN: Quais são os propósitos e as ambições da colecção?

AAL: Esta colecção pretende publicar as principais obras-primas da literatura portuguesa, em edições rigorosamente fixadas e criteriosamente anotadas. É, em suma, uma colecção com características didácticas, cujos volumes conterão sempre também uma introdução crítica, uma cronologia e uma bibliografia actualizada.

 

AN: Tinham em mente alguma colecção portuguesa ou estrangeira análoga quando idealizaram este projecto?

AAL: Há muito tempo que não existe em Portugal qualquer colecção com estas características. A edição das Obras Clássicas da Literatura Portuguesa, patrocinada pelo Ministério da Cultura, foi uma excelente iniciativa, mas falta coerência interna à colecção. Cada editora adoptou as suas próprias regras, e muitas das obras editadas não são realmente anotadas, como supostamente deveria acontecer. É claro que noutros países existem excelentes colecções de textos clássicos anotados. Destacaria entre todas a colecção Letras Hispánicas, da Cátedra, com centenas de volumes já publicados e mantendo sempre uma qualidade extremamente elevada.

 

AN: Quais os públicos visados pela colecção?

AAL: Deveria talvez responder todos. Mas, tratando-se de uma colecção didáctica, o público-alvo imediato é o público escolar: professores e alunos dos anos terminais do Ensino Secundário e dos cursos de Línguas e Literaturas do Ensino Universitário. Se me perguntar se é possível que uma obra se dirija simultaneamente a alunos e professores, dir-lhe-ei claramente que sim. As obras clássicas, sobretudo as mais antigas, não são geralmente fáceis de ler. Além disso é sempre estimulante conhecer as leituras dos outros, de especialistas neste caso, o que claramente contrasta com os habituais autores de manuais didácticos para o mercado estudantil. É por isso que eu próprio sou um consumidor compulsivo das Letras Hispánicas, e é igualmente por este motivo que esperamos que o interesse pela colecção transcenda largamente o público escolar.

 

AN: Pode dizer-nos alguma coisa sobre os responsáveis editoriais pelos vários volumes?

AAL: Serão sempre especialistas, como já disse, na obra do autor e na época em que o livro se enquadra. Não haverá só portugueses (há também espanhóis e brasileiros), mas predominarão os professores universitários de literatura portuguesa, vários dos quais inevitavelmente associados às obras e autores de que se ocuparão. É o caso de Ofélia Paiva Monteiro (Garrett), Paulo Franchetti (Camilo Pessanha) ou Abel Barros Baptista (Camilo Castelo Branco).

 

AN: Por que começar com a Mensagem e a Menina e Moça?

AAL: E por que não? Mas posso garantir que não foi pela razão prosaica de terem sido concluídos mais cedo do que os outros. São duas obras-primas da literatura portuguesa, com lugar cativo em qualquer colecção de clássicos. É claro que havia outras possibilidades, mas tanto Bernardim Ribeiro como Fernando Pessoa foram escritores que revolucionaram a escrita literária em língua portuguesa, e tal como há na prosa portuguesa um antes e um depois de Menina e Moça, há visivelmente na poesia moderna (e não só na nacional) um antes e um depois de Fernando Pessoa. Além disso utilizou-se uma estratégia que vai ser recorrente: a publicação simultânea de uma obra literária mais antiga e de um clássico mais moderno.

 

AN: Quantos títulos estão previstos?

AAL: Não chegaremos seguramente aos mais de seiscentos da Cátedra. Conhecendo a dimensão do nosso mercado, creio que ficaremos entre os vinte e os trinta. Ou seja, pretendemos publicar a nata da nata.

 

AN: Qual o ritmo editorial que pensa manter na colecção?

R.: Dependerá um pouco da resposta do mercado. Sabemos que haverá pessoas que gostarão de os comprar todos os volumes e não pretendemos onerar demasiadamente o orçamento das famílias. E como as obras tendencialmente sairão aos pares, não deveremos exceder os quatro volumes anuais.

 

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Discurso Directo: Miguel Cardina (II)

 

Eis a segunda parte da nossa conversa com Miguel Cardina, a propósito do seu livro A Tradição da Contestação.

 

AN: A sua área de trabalho é a «história contemporânea». Como sabe, há ainda muito quem considere a expressão duvidosa, para não a dizer uma contradição nos termos. Como vê essas posições?

MC: A desconfiança coloca-se mais ao nível da chamada História do Tempo Presente, que se baseia numa relação de coetaneidade entre o historiador e o objecto de investigação. Tem-se a ideia de que essa proximidade é perniciosa. No meu caso, isso nem se põe: directamente, não vivi o Estado Novo, como não vivi a implantação da República ou a matança de judeus em Lisboa no início do século XVI.

O que na realidade se pretende sugerir é que nos casos em que o passado está demasiado presente, a objectividade fica deturpada. O que é uma noção ainda devedora do positivismo e algo ilusória do ofício. A escrita historiográfica é sempre feita por um sujeito situado no tempo e no espaço, com um conjunto nunca infinito de fontes, seleccionadas por um olhar pessoal e visando uma coerência interna. O produto desse trabalho apenas participa da Verdade na medida em que está aberto ao confronto crítico. É certo que se podem colocar alguns entraves ao nível do acesso aos arquivos, ou algum melindre por se estar a falar de pessoas que ainda podem estar vivas. Mas isso leva-nos, mais do que a um limite, a uma potencialidade associada à história (muito) contemporânea: a oportunidade de recurso à memória vivida. A História Oral é, aliás, um dos eixos da tese de doutoramento que estou agora a realizar.

 

AN: O seu trabalho actual, sobre a constituição da extrema-esquerda em Portugal, é uma sequência natural de A Tradição da Contestação? Ou seja, foi na universidade que nasceu a extrema-esquerda e foi esse o seu nicho ecológico preferencial?

MC: A primeira organização portuguesa de extrema-esquerda é a FAP/CMLP, que aparece em 1964, resultado de uma cisão no interior do PCP, no contexto do conflito sino-soviético. Estritamente, o grupo não nasceu no seio estudantil, ainda que tenha recolhido simpatias de sectores mais politizados, em regra jovens ligados ao PCP e que se vão afastando deste partido por não concordarem com a linha de integrar o exército e ir para a frente de combate fazer trabalho político.

Mas a FAP/CMLP sofreu uma forte repressão entre 1965 e 1966, o que fez com que a organização – e sobretudo os textos do seu ideólogo, Francisco Martins Rodrigues – permanecesse mais como inspiração do que como suporte organizacional dos múltiplos grupos de matriz maoísta que emergiram nos anos seguintes. Pequenos e por vezes inorgânicos grupos de matriz trotskista ou socialista radical também apareceram nessa curva da década de sessenta para a década de setenta. E foi efectivamente no meio estudantil que se deu esse florescimento. No final do Estado Novo, o PCP, que era tradicionalmente a força dominante nos meios estudantis até meados da década de sessenta, repartia e por vezes era suplantado por estruturas como os Núcleos Sindicais, ligados à OCMLP, no Porto e em Coimbra, o MRPP, em Lisboa, ou a UEC(m-l), em Lisboa e no Porto. Foi este fragmentado activismo de extrema-esquerda que colocou o anticolonialismo no topo da agenda estudantil.

 

AN: Hoje em dia, tem-se a sensação de que tanto os princípios que orientavam os estudantes nos seus protestos nos anos 60 (e passam 40 anos sobre o Maio parisiense) como a própria ideia de extrema-esquerda se tornaram obsoletos. Os estudantes de hoje lutam contra os princípios de Maio de 68 – na medida em que lutam por escolas «articuladas» com as empresas, cursos práticos e orientados para o emprego, etc. – e a extrema-esquerda só sobrevive em recodificações como as do Bloco de Esquerda, em que o político, lato sensu, se tornou o cultural: aborto, casamento homossexual, etc. Trabalhar sobre a extrema-esquerda é hoje fazer «arqueologia do presente», para falar à Foucault?

MC: Referiu a caducidade do Maio de 68, atestada pela ausência desses princípios no ideário reivindicativo estudantil de hoje, o que é inteiramente verdade. Mas também é verdade, a outro nível, a sua presença praticamente consensual em diversos domínios da sociedade. Algumas questões relacionadas com o direito das minorais, o feminismo, a ecologia, o recuo de uma moral conservadora, etc., devê-las a esse «espaço 68». Na semana passada, num artigo no Público, Pacheco Pereira dizia que era paradoxal a condenação do Maio de 68 efectuada por Nicolas Sarkozy na última campanha presidencial francesa, já que sem aquele momento nunca teria sido visto como admissível um presidente casar com uma cantora pop que se tinha mostrado nua em revistas. Queiramos ou não, hoje somos todos um pouco filhos desse passado.

Talvez seja importante também não amalgamar completamente aquele «espaço 68» à extrema-esquerda daqueles anos. Na verdade, alguns sectores mais ortodoxos viram a emergência daquelas temáticas que mencionei com desconfiança, por acharem que se estava a descentrar indevidamente a militância da questão fundamental da luta de classes. É, aliás, esse aspecto mais rigidamente marxista-leninista que hoje aparece como obsoleto, até porque desapareceu o mundo bipolarizado da Guerra-Fria, bem como a sedução pela China, por Cuba e pelos independentismos africanos e asiáticos e o próprio modelo de organização ferreamente disciplinada mostrou-se pouco operativo e asfixiante.

Mas o radicalismo daqueles anos teve uma outra dimensão, que em Portugal foi, aliás, minoritária. Ela consistiu naquilo que Julie Stephens, uma historiadora australiana dos anos sessenta, chamou de “protesto antidisciplinar”, isto é, a capacidade de invenção de uma nova linguagem de protesto. Ela consistia numa recusa da “disciplina do político” e das correlativas noções de organização, hierarquia e liderança. Esta nova dinâmica de contestação levou a transgredir distinções rígidas como a efectuada entre radicalismo político e radicalismo cultural. A acção dos Provos, na Holanda, dos situacionistas, em França, ou dos Diggers, nos EUA, foram exemplos mais visíveis disso. A cólera e a festa, o colectivo e o individual, a política e a cultura, eram dois lados da mesma moeda. Em certa medida, a esquerda radical pós-moderna inscreve-se na linha de continuidade deste filão.

 

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