Abel Barros Baptista ao «Globo»: «Os bons livros tornam-nos estrangeiros»

O último livro de Abel Barros Baptista na Angelus Novus foi o volume de ensaios De Espécie Complicada. O autor foi membro do júri que decidiu atribuir o Prémio Camões a Manuel António Pina e deu, na ocasião da reunião no Rio de Janeiro, uma entrevista ao jornal Globo, que acaba de ser publicada. Transcrevemos a entrevista, com a devida vénia.

Professor de literatura brasileira na Universidade Nova de Lisboa, o crítico português Abel Barros Baptista publicou estudos sobre autores como Graciliano Ramos e João Cabral de Melo Neto, mas é mais conhecido entre nós por dois livros que estão entre os mais importantes lançados nas últimas décadas sobre Machado de Assis. Em “Autobibliografias” e “A formação do nome”, ambos publicados aqui pela Editora da Unicamp, Baptista constrói interpretações originais da obra do escritor brasileiro, dispensando a vinculação estreita entre a ficção de Machado e a história brasileira que caracteriza boa parte da melhor crítica sobre o autor escrita no Brasil. Baptista esteve no Rio em maio para participar da reunião do júri do Prêmio Camões que laureou o poeta português Manuel António Pina. Nesta entrevista ao GLOBO, ele diz que sua condição de estrangeiro diante dos autores que estuda não deve ser pensada em termos de vinculação nacional, mas antes em relação à experiência de estranhamento que define a própria literatura.

Como crítico português que dá aulas de literatura brasileira, o senhor tem se dedicado particularmente a mostrar que o interesse da obra de Machado de Assis não precisa ser necessariamente vinculado ao estudo da sociedade brasileira da época em que ele escreveu. Essa orientação, divergente da corrente predominante na crítica brasileira, dá expressão literal a uma ideia já mencionada pelo senhor em textos e entrevistas: a de que, diante de uma obra literária, o leitor se torna sempre um estrangeiro. O que o senhor quer dizer com essa observação?

ABEL BARROS BAPTISTA: Minha ideia é que os únicos livros que vale a pena ler são aqueles que nos tornam estrangeiros. Estamos perante eles como uma pessoa está diante de uma língua que não domina. O trabalho que se tem que fazer, como leitor, é aprender a admirar aquela língua. Metaforicamente, mas não só. Os grandes autores escrevem livros que são escolas, que nos dão a impressão de que sabemos tanto quanto eles, e que precisamos saber o mesmo que eles sabem para entender aquilo. Mas para que isso aconteça tem que haver um momento do que os formalistas chamam de estranhamento. Tem que haver um momento em que o leitor sente que está fora daquilo, que aquilo não é dele. A pior coisa que pode acontecer na literatura, e que é um traço marcante da banalização, é o leitor sentir-se em casa. O que se chama literatura comercial é a que dá ao leitor uma apreciação do tipo “aqui não há nada de estranho, vais ter exatamente o que queres”. A literatura eu creio que se define, ao contrário, por essa posição de estrangeiro, mas ao mesmo tempo por haver, para essa posição, uma correspondente hospitalidade incondicional. O livro está à espera, é anfitrião. Não nos impõe condições. Aceita qualquer um, imbecil ou não. Aquilo que define a literatura é uma utopia, uma ideia generosa de partilha entre as diferentes pessoas do mundo que leem livros. A ideia de humanidades é a ideia de fazer amigos através dos livros. Foi o que me aconteceu no Brasil. Nunca pus os pés no Brasil antes de publicar os livros sobre Machado. Hoje tenho vários amigos que eu fiz através dos livros que publiquei. Talvez tenha contribuído para mostrar que muito do que se faz no Brasil sobre Machado de Assis está dominado por uma ideia liquidadora, a de que temos que primeiro conhecer o Brasil para depois conhecer Machado de Assis. Minha experiência de leitor prova exatamente o contrário.

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Pedro Mexia sobre «De Espécie Complicada», de ABB

No sábado passado, edição de 26 de Fevereiro, Pedro Mexia publicou no «Atual», do Expresso, uma substancial resenha sobre De Espécie Complicada, de Abel Barros Baptista, sob o título «Hospitalidade incondicional». Com a devida vénia, transcrevemos algumas passagens:

Este ‘De espécie complicada’ reúne nove ‘ensaios de crítica literária’, e o primeiro deles investiga precisamente o que é isso, o ‘ensaio’. A ‘teoria’, que dominou os estudos literários nas últimas décadas, tem prestado menos atenção ao ensaio do que aos outros géneros. Isso deve-se ao facto de o ensaio não ser exactamente um ‘género’, talvez só uma ‘atitude’? Ou tem a ver com uma certa competição entre a teoria e o ensaio? (…)

A ‘teoria’ desconfia do ensaio porque o vê como um competidor no modo de conhecimento da literatura; mas o ensaio leva de algum modo vantagem, pois representa a literatura enquanto conhecimento de si mesma. Daí que Barros Baptista proponha esta fórmula: o ensaio não é conhecimento disfarçado de literatura, mas literatura disfarçada de conhecimento. É esta concepção estimulante do ensaio que torna Abel Barros Baptista um ensaísta essencial. Isso e a maneira como desfia um argumento, em demonstrações luminosas ou em interpretações vertiginosas, e sempre num português impecável.

Talvez por esta boa descrição do talento do autor, a pontuação que Pedro Mexia atribui ao livro de Abel Barros Baptista – 4 estrelas – só pode suscitar a nossa (total) discordância. Mais-a-mais em tempo de banalização das 5 estrelinhas a tanto pseudo-ensaio…

Abel Barros Baptista: a vocação cosmopolita da literatura

Abel Barros Baptista, professor de literatura brasileira na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, publicou na Angelus Novus um volume de crónicas, A Infelicidade pela Bibliografia (2001), organizou e posfaciou um volume do grande ensaísta brasileiro Antonio Candido, O Direito à Literatura e outros ensaios (2005), e organizou dois volumes da colecção Revisões, dedicada à releitura das grandes obras da literatura portuguesa: um sobre A Cidade e as Serras (2001), de Eça de Queirós, e um outro sobre o Amor de Perdição (2009), de Camilo Castelo Branco.

Acaba de sair o seu mais recente livro na Angelus Novus, intitulado De Espécie Complicada. Ensaios de Crítica Literária. Sobre o volume, que inclui alguns dos grandes ensaios sobre literatura escritos em português na última década, ouvimos o autor.

P. Este livro abre com um ensaio sobre o ensaio, no qual se defende que «o ensaio não é o conhecimento disfarçado de literatura – é a literatura disfarçada de reflexão, análise, conhecimento». E esse texto encena um conflito entre o ensaio e a teoria literária, que estaria patente desde logo no facto de a teoria não ter concedido ao ensaio a mesma atenção que concedeu aos géneros canónicos e maiores desde Aristóteles ou na modernidade. O ensaio seria por um lado objecto de estudo da teoria e competidor, pois ambiciona também descrever a literatura. Esta, por seu turno, incapaz de se autodescrever, deixar-se-ia encantar por quem exibisse «o melhor domínio sobre a forma de proceder com a inteligência». A retórica desta frase parece ao serviço de uma erótica do saber, mais do que de uma epistemologia: exibição, domínio da forma de proceder, não «com inteligência» mas «com a inteligência». O ensaio seria, nesta distribuição do trabalho, o erotismo e a dépense, enquanto a teoria seria a mais-valia e a razão instrumental?

R. Não estou certo de que haja uma «distribuição de trabalho». Seria mais o oposto disso… Esse ensaio foi escrito para um apresentação num colóquio sobre «Poéticas do Ensaio» (Ponta Delgada, 2009; as respectivas actas estão já disponíveis, em edição do Centro de Literatura Portuguesa/Universidade de Coimbra, 2010). O problema que me coloquei na partida era este: o que fez a teoria literária pelo ensaio? O tal conflito entre ensaio e teoria é encenado para tentar explicar que razões impediram a teoria de fazer pelo ensaio o que fez pela poesia ou pela narrativa. Aliás, quando os termos da pergunta incluem «encenar», conviria ler a palavra quase literalmente, porque a encenação coincide com a análise do conto «A Carta Roubada», de Edgar Poe, com alguma tradição no debate teórico recente, e que eu «enceno» como alegoria duma rivalidade entre o ensaio e a teoria. Graças a essa análise, creio que o meu ensaio é ao mesmo tempo um argumento e uma ilustração da respectiva fragilidade, ou seja, é um ensaio no próprio sentido em que ele mesmo designa a espécie. Porque o problema que o meu texto defronta é antes do mais o da sua espécie: como falar do ensaio num texto que seja (ou não seja) um ensaio? Daí a primeira opção, a que recusava organizar o texto como mera elaboração de um argumento, experimentando então uma forma de entender o termo «poética» mais etimológica mas não menos envolvida nos caminhos contemporâneos: a ideia era «fazer» (um ensaio) e reflectir sobre esse «fazer». Em  certo sentido esta opção organiza o texto em jeito que ilustra a rivalidade que encena: qual a melhor forma de falar da literatura? O ensaio torna-se frágil porque é uma forma ainda literária de falar da literatura, e forma que invade e mesmo se dissolve nos géneros literários com que a noção de literatura objecto da elaboração teórica se forma. O problema do ensaio diante da teoria é assim o problema da possibilidade de a literatura se conhecer a si mesma. O que digo nesse ensaio é que a teoria pressupõe essa capacidade na literatura e ao mesmo tempo, sendo teoria dela, pretende guiar e vigiar a literatura no processo de atingir o «bom» conhecimento de si mesma. Ora, entre todas as formas de desviar a literatura do «bom» conhecimento de si mesma, o ensaio constitui a melhor forma de proceder com a inteligência. Eis o cerne da rivalidade. Noutros termos, seria como reencenar, depois dos formalistas russos, a antiga rivalidade entre filosofia e poesia. Isto significa que nenhum ensaio pode ignorar a teoria e que a teoria não pode esquecer ou sequer negligenciar o ensaio sem deixar de ser teoria — ao menos teoria da literatura.

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Manuel Gusmão, Prémio PEN de Ensaio

Manuel Gusmão recebe hoje, na Sociedade Portuguesa de Autores, pelas 18 h, o Prémio PEN Clube de Ensaio (ex aequo com Fernando Guimarães) pelo seu livro Finisterra. O Trabalho do Fim: ReCitar a Origem. Sobre a obra, muito justamente premiada, recordamos as palavras muito elogiosas de Pedro Mexia e António Guerreiro.

Ao Autor apresentamos as nossas saudações, neste dia especial.

Sobre «O Formato Mulher»

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O Formato Mulher de Anna M. Klobucka continua a alimentar uma considerável produção crítica. Desta vez destacamos o analítico da autoria de Claire Williams, The woman’s format or women studying lusophone women representing women, publicado no Journal of Romance Studies, volume 10, número 2, Verão 2010, p. 107-115 e cuja autorização de reprodução agradecemos.

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De Espécie Complicada : ensaios de crítica literária, já disponível!

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Ruy Belo, por Pedro Serra: Vá, com o poeta, ao «Corte Inglês»

Ruy Belo é um emblema maior da ‘vida danificada’ em declinação portuguesa, na passagem do espaço-tempo ditatorial para o tempus democrático. O poema (correlato do instante ‘que fez deter o dia a hora e o momento’) é dito em língua bífida. Carreia dois poemas, ou duas metades fendidas. Dizer próprio e impróprio – o da língua bífida (‘quando fora é domingo / dentro de nós é dia de semana’) – que é o do poeta exilado, desterrado, degredado, expatriado. Poeta instalado num ‘problema da habitação’, que não deixará de ser modulado por leituras, seja a consabida Bíblia, Engels, algum Heidegger ou algo ainda mais prosaico: “ter uma morada, na verdadeira acepção da palavra é, actualmente, impossível”. Realmente, é-se poeta no ‘Corte Inglês’, transita-se pelo desencanto, muito embora feliz. Sim, no ‘Corte Inglês’ pode-se ser feliz e desencantado, na condição de se ser poeta:

Que mundo é este mundo destes dias
que mais nos mata do que atenas nos matou?
El corte inglês em plena primavera
segundo o comunicam todos os anúncios
que vejo nas paredes hoje dois de março
Vou entrar para ver posso ter lá
o termos deste inverno que me invade
Talvez eu recupere o que perdi
e me veja de novo envolto em folhas
como qualquer árvore anónima que vi.

‘Poesia religiosa’, a de Ruy Belo? De facto, poesia entre a ‘fé’ e a ‘catástrofe’, mas ‘religiosa’ não tanto no sentido de re-ligare como no sentido de re-legere.

Veja de que modo isso ocorre no livro, de 2004, Um Nome Para Isto. Leituras da Poesia de Ruy Belo, de Pedro Serra, um livro para quem gosta da grande poesia e da grande leitura de poesia. Se gosta de Ruy Belo, está à espera de quê?

Prémio Nacional de Ensaio Literário Eduardo Prado Coelho para Vítor Aguiar e Silva

Com Jorge de Sena e Camões. Trinta Anos de Amor e Melancolia, Vítor Aguiar e Silva acaba de vencer, por unanimidade, o Prémio Nacional de Ensaio Literário Eduardo Prado Coelho. Na sua nova versão, o prémio da Associação Portuguesa de Escritores, que é agora patrocinado pela Câmara Municipal de Famalicão, passa a chamar-se «Eduardo Prado Coelho», em homenagem a uma figura relevante da crítica e ensaística portuguesa das últimas décadas. O júri, constituído por António Pedro Pita, José Cândido Oliveira Martins e Paula Cristina Costa, atribuiu o prémio por unanimidade.

Editado pela Angelus Novus no final de 2009, com o patrocínio da DST, o livro vai assim ganhando o lugar que certamente lhe caberá no panorama dos estudos camonianos.

Ao Autor, os nossos parabéns!

[Na foto, Vítor Aguiar e Silva com José Carlos Seabra Pereira, na sessão de lançamento do livro em Coimbra]

António Carlos Cortez sobre «Jorge de Sena e Camões»

No último número do JL (10-23 de Março 2010), António Carlos Cortez publica uma longa recensão do livro de Vítor Aguiar e Silva, Jorge de Sena e Camões, que descreve como «um volume de leitura obrigatória». Transcrevemos, com a devida vénia, um excerto significativo do texto intitulado «Vítor Aguiar e Silva: Camões e Jorge de Sena»:

A monumentalidade das informações sobre Jorge de Sena (quanto ao pensamento crítico deste e seu inestimável valor no âmbito da camonologia) e Luís de Camões (…); a justeza e a justiça com que Vítor Manuel de Aguiar e Silva escreve, com o cabal conhecimento que toda a academia lhe reconhece, bem como leitores menos familiarizados com o âmbito da sua investigação ao longo de mais de 40 anos de exercício crítico e ensaístico, fazem deste Camões e Jorge de Sena, a mais recente compilação de estudos do autor de Camões. Labirintos e Fascínios, um volume de leitura obrigatória para todo aquele que almeje compreender o magistério de Jorge de Sena no campo dos estudos camonianos e a relevância dos seus inúmeros estudos, muitos deles heterodoxos e revolcuionários, quer no seu, quer ainda no nosso tempo.

Foi assim, no sábado, na Fundação Eugénio de Andrade

« – A casa, vista de fora, impressiona. Fortaleza resistindo aos impulsos da névoa. Fantástica, também: o halo, o contorno fosforescente. Halo, como você diz, porque eu prefiro chamar-lhe aviso luminoso (na tempestade). Paro diante dela, hesito em bater à porta». [Carlos de Oiveira, Finisterra. Paisagem e Povoamento, cap. XXV]

A casa foi a Fundação Eugénio de Andrade, na Rua do Passeio Alegre, no Porto. O halo, da poesia de Eugénio e da poesia tout court, foi especialmente visível. Lá fora o Douro ameaçava transbordar e, lá dentro, os heróis que desprezaram a inclemência dos elementos. Na foto, Arnaldo Saraiva, Presidente do Conselho Directivo da Fundação, apresenta Manuel Gusmão, autor de Finisterra. O Trabalho do Fim: reCitar a Origem, e Rosa Maria Martelo, que falou do livro.

Recordamos aqui alguns versos de Eugénio de Andrade em «Recado para Carlos de Oliveira», ditos a propósito por Arnaldo Saraiva:

Lá onde estás chegaste antes de mim.
O sítio deve ser mais asseado:
guarda-me um lugar perto de ti.

«O Formato Mulher», por Eduardo Pitta

No Ipsilon do passado dia 26 de Fevereiro, Eduardo Pitta recenseia O Formato Mulher, de Anna M. Klobucka, livro a que atribui 4 estrelas e que qualifica como «um longo e estimulante ensaio».

Um texto importante na recepção crítica da obra e que pode ler na íntegra aqui.

É já no próximo sábado, no Porto…

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É já na próxima quinta-feira

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Foi assim, na «Casa da Achada»

Foi na passada quinta-feira, 28, na Casa da Achada, em Lisboa. Gustavo Rubim, na foto de cima com Manuel Gusmão, apresentou o livro deste, Finisterra. O Trabalho do Fim: reCitar a Origem. Seguiu-se uma conversa animada sobre o livro e, necessariamente, sobre o livro de Carlos de Oliveira, obra a que, como Manuel Gusmão disse em entrevista a este blogue, o tempo «fez justiça», na medida em que «ratificou o seu estatuto de ‘coisa estranha’». Entre outras pessoas interessadas na obra de Carlos de Oliveira, ou estudiosas dela, encontrava-se presente na assistência Ângela de Oliveira, ou «Gelnaa», acrónimo afectuoso com o qual Carlos de Oliveira grafava o nome da sua mulher em vários dos seus textos.

Foi assim em Braga

No passado dia 22 teve lugar em Braga, no Museu Nogueira da Silva, o lançamento do livro de Vítor Aguiar e Silva, Jorge de Sena e Camões. Trinta Anos de Amor e Melancolia. Perante uma audiência numerosa, Rita Marnoto, Professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, apresentou a obra. Presente na sessão, o Eng. José Teixeira, da DST, empresa que apoiou a edição do livro, fez uma intervenção inicial sobre o papel das empresas na dinamização da vida cultural e, em especial, sobre a intervenção da sua empresa nesse domínio. Na foto, da esquerda para a direita, José Teixeira, Rita Marnoto, o Reitor da Universidade do Minho, Vítor Aguiar e Silva e o representante da Angelus Novus.

«Finisterra», de Manuel Gusmão, por António Guerreiro, no «Actual»

 

No suplemento Actual do Expresso deste fim-de-semana, António Guerreiro dedicou uma breve resenha ao livro de Manuel Gusmão, Finisterra. O Trabalho do Fim: reCitar a Origem, que pontuou com 4 estrelas (neste ponto, concordamos mais com Pedro Mexia…). Transcrevemos o texto, um momento importante da recepção crítica da obra, com a vénia devida:

A recepção crítica de Finisterra, o último romance de Carlos de Oliveira (publicado em 1978), não tem equivalente em nenhum outro romance português da segunda metade do século XX. Esta excepcional fortuna explica-se pela densidade da escrita desta obra e pelo alto teor dos desafios ideológicos e estético-literários que coloca. Aos quais devemos acrescentar ainda um outro, a que Manuel Gusmão não se furta: a irradiação deste romance sobre o conjunto da obra poética e narrativa do autor. Nos seus vários movimentos, a leitura de Manuel Gusmão é também um diálogo crítico com outras leituras que de Finisterra foram feitas, contemplando sobretudo três questões: 1) o trabalho de reescrita, tanto da poesia como de outros dois romances (Casa na Duna e Pequenos Burgueses), o que faz de Finisterra uma súmula e a estação última de um percurso que foi sendo sempre reelaborado; 2) a relação deste romance com o marxismo  a teoria da história que lhe corresponde (uma questão que determina o modo como se entende a situação ideológica da obra do autor e a sua relação com o neo-realismo); 3) a dimensão metaliterária e de poética autoral que Finisterra apresenta. E, para o desenvolvimento deste último ponto, Manuel Gusmão parte de uma pequena nota de Herberto Helder na antologia Edoi lelia doura (1985), onde se diz que Finisterra é «uma alegoria ficcionalmente articulada» e «a melhor introdução ou o melhor comentário à sua obra». Mas talvez o maior desafio a que o requintado crítico Manuel Gusmão tenta responder é o de interpretar o romance de Carlos de Oliveira em chave marxista, ainda que relaborando algumas categorias do marxismo. E, aqui, ele encontra em Walter Benjamin um intercessor altamente produtivo, tanto na sua teoria da aura como nas suas teses sobre um conceito de história que rompe com a linearidade e a continuidade do historicismo.

Anna M. Klobucka no «Ipsilon»

Intitula-se «O sexo que elas têm», e vem nas pp. 26-27 da última edição do Ipsilon (29/01), suplemento cultural do jornal Público. Referimo-nos ao texto que Raquel Ribeiro dedicou a O Formato Mulher, no qual, com a ajuda de depoimentos de Anna M. Klobucka, reconstitui a história, longa e complexa, do livro, e a própria evolução do pensamento da autora, por exemplo patente na admissão de que numa fase inicial do projecto, lançava

Luiza Neto Jorge versus Maria teresa Horta: esta era a primeira versão do ensaio, «good cop, bad cop», que Klobucka abandonou. Reconhece que Neto Jorge tem uma reputação literária que a torna na maior poeta do século XX: «Em Luiza não se pode tocar». Teresa Horta é uma poeta feminista assumida que usa as teóricas francesas nos seus textos, co-autora de Novas Cartas Portuguesas, deixando um legado no feminismo em Portugal. Ao lê-la a par de Neto Jorge, Klobucka está a re-analisar a condição histórica da mulher, não ingorando que na poesia de 61 estavam perguntas «sobre as relações entre a sexualidade marcada pela diferença e a temporalidade marcada pelo sexo».

E ainda o caso de Sophia, na sua diferença de autora aparentemente «de-gendered», ou que se afirma como tal; e o par Adília Lopes-Ana Luísa Amaral, decisivo na economia da obra e na perspectiva adoptada:

Klobucka admite que foi o surgimento de escritoras como Adília Lopes e Ana Luísa Amaral que lhe mostrou que, nos anos 90, eram as poetas, e não os críticos, «que estavam a fazer coisas que se coadunavam» com a sua perspectiva. «O que não estava a ser feito era o discurso crítico correspondente», diz.

Um texto a ler, e um momento importante da recepção pública da obra de Anna M. Klobucka, que seguramente se tornará uma peça de referência na bibliografia sobre a poesia escrita por mulheres em Portugal – bem como sobre o impacto dessa poesia (e do seu trabalho sobre a noção de autoria) na poesia portuguesa em geral.

É já na quinta-feira, na «Casa da Achada»

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«O Formato Mulher» por Ana Luísa Amaral

Como amplamente informámos, o livro de Anna Klobucka foi apresentado ao público no Porto, por Rosa Maria Martelo, e em Lisboa, por Ana Luísa Amaral. Por gentil cedência desta última, transcrevemos em seguida o texto que escreveu para essa apresentação na Casa Pessoa, no passado dia 14.  

«Começo por sublinhar que o livro de Anna Klobucka O Formato Mulher: A Emergência da Autoria Feminina na Poesia Portuguesa, agora dado à estampa pela editora Angelus Novus, é um trabalho inédito em Portugal. Esse ineditismo prende-se com a sua vertente prática (o objecto) e a sua vertente teórica (a inflexão). Não só é nova a leitura aqui proposta, que trata, por via de estratégias de distanciamento e aproximação, a produção de seis mulheres poetas portuguesas, mas novo é ainda, no nosso contexto crítico-literário, o olhar da autora, que, para as re-visitar (e retenho a ideia de re-visitação, que retomarei no final), se empresta de lentes teóricas orientadas a partir dos estudos feministas.

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É já nesta sexta-feira, em Braga

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É já na quinta-feira, na Casa Pessoa

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«O Formato Mulher» no Clube Literário do Porto

Quem não teve a oportunidade de estar presente no Clube Literário do Porto, poderá ouvir a autora de O Formato Mulher dia 14 na Casa Fernando Pessoa. Na imagem do topo, Rosa Maria Martelo lê o texto que escreveu para a ocasião; na do meio, Anna M. Klobucka fala sobre o seu livro; na do fundo, a mesa completa, com o representante da editora.

É já na terça-feira, na Ribeira

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Vítor Aguiar e Silva em entrevista sobre «Jorge de Sena e Camões»

Vítor Aguiar e Silva estudou e ensinou na Universidade de Coimbra, onde foi professor catedrático da Faculdade de Letras. Em 1989 transferiu-se para a Universidade do Minho onde foi catedrático do Instituto de Letras e Ciências Humanas, fundou e dirigiu o Centro de Estudos Humanísticos e a revista Diacrítica e desempenhou as funções de vice-reitor. Tem-se dedicado especialmente ao estudo da Teoria da Literatura, domínio em que a relevância do seu ensino e da sua investigação é nacional e internacionalmente reconhecida, e da Literatura Portuguesa do Maneirismo, do Barroco e do Modernismo. Os estudos camonianos têm constituído objecto constante da sua actividade de investigador. Refiram-se os seus dois volumes de estudos camonianos: Camões: Labirintos e Fascínios (prémio de ensaio da Associação Portuguesa de Críticos Literários e da Associação Portuguesa de Escritores); A Lira Dourada e a Tuba Canora (Prémio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus). A Universidade de Évora atribuiu-lhe o Prémio Vergílio Ferreira de 2002. Em 2007 foi-lhe atribuído o Prémio Vida Literária, instituído pela Associação Portuguesa de Escritores e pela Caixa Geral de Depósitos, o mais alto galardão literário existente em Portugal. Ouvimos Vítor Aguiar e Silva sobre o seu recente Jorge de Sena e Camões. Trinta Anos de Amor e Melancolia, obra editada em parceria com a DST.

P. Por que motivos escolheu Jorge de Sena, de entre uma plêiade tão vasta de camonistas, para objecto de um estudo tão desenvolvido? Existem, no século XX, outros camonistas que lhe merecessem uma atenção tão empenhada como a que votou a Sena? Qual é, digamos, o «valor acrescentado» de Sena, na sua perspectiva?

R. As razões da escolha de Jorge de Sena «de entre uma plêiade tão vasta de camonistas» para objecto do meu estudo têm um fundamento racional e uma raiz afectiva e autobiográfica. Sena foi o camonista do século XX que mais ampla e aprofundadamente estudou Camões, desde o plano filológico, histórico-literário e comparatista até ao plano hermenêutico e filosófico–doutrinário, com uma preparação teórica e metodológica de rigoroso scholar. A raiz afectiva e autobiográfica tem a ver com a minha memória universitária: quando, na década de sessenta do século XX, elaborei a minha tese de doutoramento, foi com Sena que aprendi a «ler» Camões e a poesia portuguesa do seu tempo sob o signo do Maneirismo, rompendo com tradições e esquemas historiográfico-literários dominantes na Universidade portuguesa (Camões como símbolo maior do «Classicismo renascentista» é não só a expressão da visão histórica do Renascimento forjada por Burckhardt e por Michelet como também um dos grandes mitos do nacionalismo lusitano).

Um camonista do século XX que me desperta muito interesse, por diversas razões, é António José Saraiva.

O «valor acrescentado» de Sena consiste em ter sido um poeta profundamente moderno vindo do Unicórnio e dos Cadernos de Poesia, que soube magistralmente fazer a defesa e a ilustração da filologia e da «erudição» como conhecimentos vivos e imprescindíveis à racionalidade científica dos estudos literários. Tirou-lhes o «verdete»… Comparo-o, sob este ponto de vista, a Dámaso Alonso.

P. O seu Sena neste livro é o camonista, mas não inteiramente o «camoniano», já que esse teria de incluir o poeta – dos sonetos de As Evidências, de vários outros poemas onde o rastro camoniano é notório -, o contista, etc. Tratando-se de uma decisão de corpus e de método, foi-lhe ela evidente ou difícil?

R. O Sena que neste livro estudo é efectivamente o «camonista», o scholar camonista, e não o poeta ou o narrador cuja obra apresenta uma multiforme relação intertextual com a obra camoniana e para cujo conhecimento Jorge Fazenda Lourenço deu um valioso contributo na sua dissertação doutoral, A Poesia de Jorge de Sena. Mais recentemente, Margarida Braga Neves, num excelente ensaio publicado na revista Relâmpago (n.º 21), analisou também os sulcos e pegadas de Camões na obra literária de Sena. O subtítulo do meu livro assinala aquilo mesmo pela sua articulação peritextual com os dois volumes Trinta Anos de Camões. O corpus textual de Jorge de Sena camonista é tão vasto e tão rico que a opção não me originou dúvidas. Um dos meus objectivos, aliás, foi demonstrar a sólida, coerente e moderna formação de teoria e metodologia literárias do Sena camonista, que alguns têm pretendido circunscrever redutoramente aos cálculos estatísticos (nos quais há muita informação relevante). O capítulo IV do meu livro é uma contribuição para a história do pensamento literário em Portugal, domínio de investigação que, com raras excepções, tem sido votado ao abandono. A história das disciplinas científicas não é um supérfluo exercício de antiquário. É indispensável para se compreender a dinâmica dessas disciplinas e para se prospectivarem futuros desenvolvimentos.

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Manuel Gusmão seleccionado por António Guerreiro no Balanço de 2009

Na edição do Expresso de 31 de Dezembro, no balanço promovido pelo Actual, na secção Livros, António Guerreiro inclui nos seus 10 destaques o ensaio de Manuel Gusmão, Finisterra. O Trabalho do Fim: reCitar a Origem. Re-Citamos da origem, com a devida vénia:

Ainda no plano dos livros que nos convidam a olhar para o nosso cânone literário, importa referir o ensaio de Manuel Gusmão sobre ‘Finisterra’, de Carlos de Oliveira, porque este romance continua a ser uma espécie de objecto não identificado no nosso planeta literário, um lugar de resistência como o são os livros de Maria Gabriela Llansol, cujo espólio comelou agora a ser editado.

Num texto prévio e de comentário «crítico» sobre a situação actual da ideia de «literatura nacional» face ao domínio da world fiction, António Guerreiro confronta polemicamente um autor representativo da actual literatura norte-americana, e «internacional», como Philip Roth, com o livro de Manuel Gusmão, nos seguintes termos:

O que pode, contra mais um Philip Roth, um ensaio como o de Manuel Gusmão sobre ‘Finisterra’, de Carlos de Oliveira, no ano em que esse grande romance da literatura portuguesa cumpriu o seu 20º aniversário? [De facto, Finisterra foi publicado em 1978]

Se calhar até pode: ratificar a estranheza, histórica e estética, de Finisterra. Paisagem e Povoamento. Não é pouco.

Mas claro que concordamos com António Guerreiro (e, antes, com Pedro Mexia): o livro de Manuel Gusmão é digno de todos os destaques.

Manuel Gusmão: um dia farto

Sexta-feira, no Ipsilon, Pedro Mexia assinou uma recensão de Finisterra. O Trabalho do Fim: reCitar a Origem, com o título «Descrições de Descrições». Mexia atribui 5 estrelas ao livro (o que nos parece muito justo) e termina assim o seu texto:

É uma leitura excelente porque se trata do romance português que talvez mais se decida nos modos de o ler. Manuel Gusmão tem regressado vezes sem conta a estes textos, que também ensinou como professor, e continua fascinado com o seu carácter resistente e interpelante. «O Trabalho do Fim» é um trabalho sem fim, que se faz de um aturado «close reading» e que retoma a estratégia do próprio romance: acumular descrições. E é impossível esquecer que um dos mais agudos marxistas italianos tem um livro de ensaios chamado «Descrições de Descrições».

No mesmo dia soube-se que Manuel Gusmão venceu o Prémio DST de Literatura de 2009 com o seu livro de poemas A Terceira Mão. Recordamos que o nosso livro mais recente, Jorge de Sena e Camões. Trinta Anos de Amor e Melancolia, de Vítor Aguiar e Silva, foi patrocinado pela mesma DST.

A Manuel Gusmão apresentamos naturalmente as nossas mais vivas felicitações.

Lançado hoje pela Angelus Novus:

"A Fidelidade ou o Amor em Carne Viva" de Michela Marzano         Michela Marzano   

um livro irresistível de Michela Marzano

 

Gonçalo Duarte: entrevista

goncbr

Gonçalo Duarte é actualmente leitor de Português na Bélgica, mais exactamente nas universidades Livre de Bruxelas e Católica de Lovaina. Publicou na Angelus Novus, no final do ano passado, o livro O Trágico em Graciliano Ramos e em Carlos de Oliveira. Uma Leitura apoiada nos Romances São Bernardo e Casa na Duna. Ouvimo-lo sobre o seu livro, em entrevista que aqui publicamos.

 

P. Pode descrever brevemente o seu propósito com este livro? 

R. O livro surge a partir da influência que o romance São Bernardo exerceu na composição (e na recomposição) de Casa na Duna, mas pretende também aproximar Graciliano Ramos e Carlos de Oliveira para lá desses dois romances, reflectindo sobre aspectos que implicam o conjunto das suas obras e estabelecendo nexos entre os percursos dos dois autores. O estudo da presença do elemento trágico nos dois romances serve esse propósito, porquanto é sintoma de uma crise comum dos ideais neo-realistas perfilhados por ambos os escritores e prenúncio da falência das grandes narrativas.

P. O que é que o atrai na obra de Graciliano Ramos e na de Carlos de Oliveira?

R. O meu primeiro contacto com Carlos de Oliveira deu-se no ensino secundário; interessou-me, então, no poeta como no romancista, uma linguagem exacta e depurada, alheia à retórica que caracteriza grande parte da literatura portuguesa do século XX. Quando li Graciliano Ramos, já na universidade, notei uma grande proximidade entre o seu estilo e o de Carlos de Oliveira. Surpreendeu-me, para além disso, o trabalho de construção de São Bernardo que, vim mais tarde a compreendê-lo, influenciou a obra romanesca do autor português – esse romance parece-me um bom exemplo da noção da escrita como labor, comum a ambos os autores. A essa afinidade estética e de concepção da essência do trabalho literário acresce o curioso facto de ambos se integrarem no movimento neo-realista, retórico por excelência, e de nas suas obras haver uma ultrapassagem não declarada mas evidente desse movimento (ainda que na obra de Carlos de Oliveira esse processo alcance um ponto superior e mesmo irreversível).

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Isabel Cristina Rodrigues: entrevista (III)

Qual é o livro de Vergílio Ferreira que prefere? E porquê?

Isso foi variando ao longo do tempo. Como já expliquei, começou por ser o Para Sempre, mas depois de tanto o ler e sem que saiba exactamente porquê gastou-se-me um pouco, para usar um termo caro ao próprio Vergílio Ferreira. Hoje em dia considero o Na Tua Face uma obra-prima completa: a verdade é que é um romance, mas é também um ensaio sobre a fotografia e a pintura e é tudo isso sem que o seja explicitamente. É um romance de uma verdade e de uma precisão inabaláveis e de uma beleza intemporal também. E depois porque contém a mais bela cena de amor de toda a sua ficção – aquela em que o pintor Daniel, depois de visitar a exposição de fotografias que a filha Luz realizou sobre o cadáver do irmão, inventa para a mulher, já cega na altura, uma exposição diferente daquela que ele próprio acabou de ver, para evitar que Ângela «visse» as imagens do filho morto. São (também) momentos assim que fazem um grande escritor.

Uma vez que é professora universitária, pode dizer-nos qual é a reacção dos jovens universitários à obre de Vergílio Ferreira?

Normalmente torcem um bocado o nariz quando percebem que vão ter que ler um escritor consensualmente difícil, mas depois, salvo um ou outro caso, acabam por gostar e alguns deles por gostar muito. É mais uma reacção ao esforço que sabem ser necessário do que ao escritor em si e não reagem de modo diferente a Saramago ou a Lobo Antunes, por exemplo.

Vai continuar a escrever sobre Vergílio Ferreira ou entretanto mudou a orientação do seu trabalho académico?

Deixar de escrever sobre Vergílio Ferreira é difícil, uma vez que há ainda muita coisa a fazer. Gostava um dia de fazer um dicionário sobra a obra do escritor, em colaboração com a Prof. Rosa Goulart, que é uma das maiores exegetas da obra do autor. Temos ambas esse vago projecto, mas outro mais urgente se antepôs a esse, uma vez que estamos a preparar a edição crítica do Onde tudo foi morrendo e esta tarefa, obedecendo à calendarização de toda uma equipa (a que estuda o espólio do escritor, doado à Biblioteca Nacional) acaba por ter prioridade sobre as outras. Mas tirando isto, penso de facto variar o trajecto do meu estudo. Gostaria de escrever um livro sobre a influência de Pessoa na narrativa portuguesa moderna e contemporânea, não na poesia, porque isso de um modo ou de outro já tem sido feito, mas na narrativa. Acho que há aí coisas interessantes a descobrir. Depois há um outro projecto, talvez mais difícil mas também mais aliciante, sobre a revitalização da alba medieval na poesia portuguesa contemporânea, em colaboração com o Prof. Paulo Alexandre Pereira, meu colega. E pelo menos em relação a este último projecto, Vergílio Ferreira não podia estar mais longe…

Isabel Cristina Rodrigues: entrevista (II)

A sua bibliografia é muito centrada na obra de Vergílio Ferreira. Porquê?

Quando o Para Sempre foi publicado, eu tinha 16 anos e nunca tinha ouvido falar de Vergílio Ferreira, ou pelo menos não me lembro, mas um dia, mais ou menos por essa altura, o meu pai (grande leitor, tal como a minha mãe) disse-me que havia um livro que tinha lá dentro tudo aquilo de que eu tanto gostava nas grandes tardes de Verão da Serra da Estrela, a que a minha família está ligada por vínculos muito próximos. Eu gostava muito de olhar a serra ao entardecer, daquele silêncio e daquele calor e foi quase como uma revelação o momento do meu encontro com aquele romance, assim mesmo dividido entre as páginas do livro e a paisagem em frente da janela. Entrei no universo do autor pela porta do Para Sempre e a verdade é que nunca mais me apeteceu sair, isto sem desprimor algum para outras portas e outras tantas janelas, longe já do horizonte vergiliano, que entretanto se me abriram. Muito mais tarde, quando se tratou de procurar um tema para a minha tese de mestrado, foi mais ou menos óbvio que iria trabalhar sobre Vergílio Ferreira. Assim foi e assim tem sido, inclusivé na minha tese de doutoramento, igualmente dedicada à análise da sua obra.

Como vê o lugar de Vergílio Ferreira na literatura portuguesa moderna? O tipo de romance que ele praticava, ensaístico, filosófico, questionador, não tem grande tradição entre nós, antes ou depois dele, pois não?

Pois não, creio que não, mas não me parece que isso tenha muita importância ou que possa ser olhado assim de forma tão simplista. É por demais conhecida a ligação de Vergílio Ferreira ao romance existencialista francês e, nesse registo, ele de facto nunca teve muita companhia entre nós, mas o tipo de romance que escreveu não se esgota aí: o Joyce, o Kafka e o Pessoa foram presenças importantes no seu romance e, por essa via, a família do Vergílio Ferreira ganha alguns outros irmãos e outros tantos primos – por exemplo o Lobo Antunes, de que ele infelizmente tão pouco gostava, o Abelaira, o Rui Nunes…

Vê, no nosso panorama actual, algum/a descendente do tipo de literatura que Vergílio Ferreira fazia?

Causa-me sempre algum incómodo este tipo de generalizações, normalmente injustas para os escritores que vêm depois e que legitimamente recusam para si próprios a designação de «epígonos de» ou de «o novo fulano de tal». Vergílio Ferreira não tem epígonos, ao contrário do que acontece com um ou outro escritor das últimas décadas, e creio que há várias razões para isso, mas dito isto, acho que o autor se sentiria bem acompanhado tanto pela Gabriela Llansol como pela Ana Teresa Pereira, o que é, aliás, mais ou menos consensual.

Isabel Cristina Rodrigues: entrevista (I)

ICR

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Isabel Cristina Rodrigues é professora na Universidade de Aveiro. Na sequência de uma já longa dedicação à obra de Vergílio Ferreira, acaba de editar, na Angelus Novus, o volume ensaístico A Vocação do Lume. Publicaremos, a partir deste post inicial, uma entrevista que a autora nos concedeu sobre o seu livro.

Pode apresentar este livro aos leitores? De que consta, de facto?

Este livro reúne uma série de textos que, ao longo de alguns anos (2000-2005), fui escrevendo sobre a obra de Vergílio Ferreira e que foram sendo apresentados numa série de colóquios, alguns dos quais sobre a obra do escritor. Apesar de todos os ensaios que aqui se encontram terem sido já publicados (em volumes de actas dos referidos colóquios ou em revistas de literatura), pareceu-me que eles apresentavam uma certa unidade e que poderiam, por isso, ganhar com o seu agrupamento num volume único. É claro que, se fosse a escrevê-los hoje, pelo menos em alguns casos a escrita seria já outra, diferente daquela que foi, mas ainda assim não me pareceu oportuno alterá-los em profundidade, pela simples razão de que cada um deles tem a idade que tem, o que significa que têm exactamente a idade que eu tinha ao escrevê-los e assim é que deve estar certo. Por outro lado, a relativa unidade que vim agora a encontrar nestes ensaios mostrou-me que, mesmo sem ter tido disso plena consciência, o trilho que eu persegui, desde o início, na abordagem da obra de Vergílio Ferreira (no fundo, o da manifestação literária do fogo como metáfora do limite e da sua ambivalência) se manteve sempre sem praticamente nenhum desvio de rota, o que não deixa de ser curioso. Apesar de eu não me considerar uma pessoa nada narcisista, este facto se calhar diz mais de mim do que da obra do escritor, mas provavelmente é sempre assim com tudo o que escrevemos. Eu costumo dizer aos meus alunos que, mais do que aquilo que sabemos, ensinamos sempre aquilo que somos e, obviamente, isso é também visível em algo tão pessoal como a escrita.

Pode explicar-nos o título do livro?

De certo modo acabei de o fazer. Como também escrevo na curta nota prefacial do livro, a obra de Vergílio Ferreira foi-se consolidando, praticamente desde o seu início, sob o signo do lume, essa matéria incandescente de que é feito o homem, com as suas inquietações e os seus sonhos, procurando sempre na ambivalente experiência do fogo (que destrói, mas que ilumina e purifica também) uma implícita via de acesso ao sentido. Por isso A Vocação do Lume. A decisão de manter no título a palavra lume em vez de fogo decorre de uma espécie de homenagem que me apeteceu fazer às raízes beirãs do autor, sobretudo às duras invernias da Beira-Alta onde sempre crepitava, por entre rudes panelas de ferro, o lume acolhedor da infância, tantas vezes referido em algumas das suas obras.  Embora as panelas de ferro estejam cada vez mais em desuso, ainda hoje nas franjas da Serra da Estrela ninguém diz «vou acender a lareira», mas «vou acender o lume». E ser beirão, pertencer simultaneamente à dureza e ao silêncio daquela terra foi também para Vergílio Ferreira uma vocação.