Maria Manuela Carvalho de Almeida (1959-2011)

Maria Manuela Carvalho de Almeida, sócia principal da Angelus Novus, faleceu ontem, na sequência de doença oncológica. Sócia da editora desde os inícios, publicou na Angelus Novus o livro A Literatura entre o Sacerdócio e o Mercado. Professora da Escola Superior de Educação de Coimbra, encontrava-se a preparar uma tese de doutoramento sobre o cinema documental de Agnès Varda.

A Angelus Novus encerra hoje. As cerimónias fúnebres terão lugar na Capela da Nossa Senhora da Boa Esperança, em Santa Clara. O velório terá lugar na capela, a partir das 14.30 h de hoje. Amanhã haverá missa, pelas 10 h, seguindo-se o funeral, para o cemitério de Santa Clara.

Em intenção de Maria Manuela Carvalho de Almeida transcrevemos, do volume O Bebedor Nocturno, de Herberto Helder (Assírio & Alvim, 2011, p. 9), o poema do Antigo Egipto «Ode do Desesperado»:

A morte está agora diante de mim
como a saúde diante do inválido,
como abandonar um quarto após a doença.

A morte está agora diante de mim
como o odor da mirra,
como sentar-se sob uma tenda num dia de vento.

A morte está agora diante de mim
como o perfume do lótus,
como sentar-se à beira da embriaguez.

A morte está agora diante de mim
como o fim da chuva,
como o regresso de um homem
que um dia partiu para além-mar.

A morte está agora diante de mim
como o instante em que o céu se torna puro,
como o desejo de um homem de rever a pátria
depois de longos, longos anos de cativeiro.

Advertisement

Em memória de Paulo Eduardo de Carvalho

Acabamos de saber uma péssima notícia: um dos melhores estudiosos do universo do teatro em Portugal, grande dinamizador da revista Sinais de Cena, Paulo Eduardo de Carvalho, distinto professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, morreu hoje afogado na Praia do Cabo do Mundo, em Matosinhos.

Paulo Eduardo de Carvalho colaborou brevemente com a Angelus Novus, apresentando, durante a Coimbra Capital da Cultura, em 2003, o livro de Fernando Matos Oliveira, Teatralidades. 12 Ensaios sobre o Território do Espectáculo. A sessão teve lugar no Teatro Académico de Gil Vicente e o apresentador não podia ter sido mais bem escolhido.

Para a família, para os amigos, para os colegas, a nossa sentida e silenciosa homenagem neste momento brutal.

UFRJorge40 Anos: agora sim

Como aqui informámos, deveria ter-se realizado nos dias 6 e 7 de Abril, na Faculdade de Letras da UFRJ, um colóquio de homenagem a Jorge Fernandes da Silveira, com o título «A Caminho do Mar. Mão na outra Mão». A tempestade que assolou o Rio de Janeiro, com o saldo trágico que se conhece, impediu porém a realização do colóquio, que foi adiado para amanhã e depois, dias 13 e 14, no mesmo local.

Resta-nos desejar que o colóquio se realize enfim, e que tenha lugar a justa homenagem ao grande estudioso e mestre da literatura portuguesa em terras do Brasil.

Jorge Fernandes da Silveira, 40 anos depois

De Jorge Fernandes da Silveira, emérito professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a Angelus Novus editou, em 2003, o livro Verso com Verso, no qual o autor reuniu parte substancial dos seus ensaios sobre poesia portuguesa, com especial demora no período contemporâneo e, neste, nos autores de Poesia 61. Agora, para assinalar os 40 anos de dedicação à causa da literatura portuguesa na sua universidade, realiza-se, nos próximos dias 6 e 7 de Abril, na Faculdade de Letras da UFRJ, um colóquio de homenagem ao Professor, com o título «A Caminho do Mar. Mão na outra Mão». Homenagem colocada, aliás, sob a emblemática rubrica, que faz confundir deliberadamente o Professor e a Escola, UFRJorge40 anos.

A Angelus Novus associa-se gostosamente à homenagem ao Mestre, a quem tanto devem os estudos portugueses, como se constata percorrendo a lista dos participantes, na qual é fácil reconhecer o vasto número dos seus discípulos. [clique na imagem para aumentar]

P.S. De Jorge Fernandes da Silveira, publicámos recentemente neste blogue um seu primeiro juízo sobre o Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo.

Todos à Guarda ver a festa do Pina!

Agora que de novo se morre em Teerão pelos direitos humanos…

…convém lembrar uma máxima de sempre:

Os homens nascem e são livres e iguais em direitos.

Marque na sua agenda!

 

No próximo sábado, 31 de Outubro, pelas 18h00, na Galeria Santa Clara, em Coimbra, Nina Guerra e Filipe Guerra conversam com os leitores sobre Nikolai Gógol, a propósito do bicentenário do nascimento do grande autor russo. Uma oportunidade rara para ver e ouvir aqueles que têm sido os principais divulgadores da grande literatura russa em Portugal, através da sua extensa obra de tradução.

Rui Amaral lê conto

No mesmo dia e no mesmo local, mas às 22h00, Rui Manuel Amaral irá ler alguns contos breves de grandes clássicos russos que seleccionou para a ocasião.

Os livros da Angelus Novus, incluindo este, encontrar-se-ão para venda no espaço.

.

Henrique Perdigão: uma homenagem

 

 logotipodalivrarialatina

 

Chamava-se Henrique Perdigão e era o herdeiro de um nome de livraria que é uma garantia: a Livraria Latina, na Rua de Santa Catarina, no Porto, que renovara magnificamente não há muito.

A Angelus Novus deve-lhe muito: a atenção, o tratamento em pé de igualdade, a noção clara da relevância intrínseca dos livros editados, o respeito pelos prazos de pagamento. Tudo coisas que, dir-se-ia, deveriam ser dados básicos no mercado do livro, mas que infelizmente estão longe (cada vez mais longe) de o ser.

Os jornais informam hoje da morte, aos 51 anos, de Henrique Perdigão. É um dia triste para quem trabalha com livros em Portugal. A Angelus Novus curva-se perante a sua memória e apresenta à família as suas sentidas condolências.

Luís Oliveira, sobre os 30 anos da Antígona: «Não serei um aliado do capitalismo…» (II)

Caraça03

Publicamos agora as respostas de Luís Oliveira às perguntas de autores e colaboradores nossos. A todos, o nosso muito obrigado.

 

Manuel Portela é Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, tendo sido director do TAGV. Poeta experimental e performer, tem obra vasta sobre história do livro e «Digital Humanities». É autor da Antígona e tradutor de algumas das obras maiores do catálogo da editora. Traduziu e escreveu poemas para a Inimigo Rumor e colaborou de várias maneiras com a Angelus Novus. Dirigirá em breve uma colecção na nossa editora.

P: A qualidade das traduções tornou-se também uma referência da Antígona. Qual o lugar e a importância da tradução no projecto da editora?

LO: A qualidade das traduções é essencial numa editora como a Antígona, que vive de autores estrangeiros. Apesar dos nossos parcos recursos, pagamos aos nossos tradutores cerca de 20% mais do que geralmente se paga no mercado. Temos excelentes tradutores, alguns infelizmente mortos, como Luiza Neto Jorge, Manuel João Gomes, Ernesto Sampaio e Torcato Sepúlveda. Também pagamos aos tradutores uma percentagem determinada nas reedições de algumas obras. Concedemos ao tradutor a força de autor, colocando o seu nome na capa. Fomos, deste modo, os primeiros a reconhecer o real valor do tradutor, um exemplo que não tem sido seguido pela maioria das editoras, que desprezam estes grandes «carpinteiros» da escrita.

 

Continuar a ler

Luís Oliveira, sobre os 30 anos da Antígona: «Não serei um aliado do capitalismo…» (I)

Caraça01

A pedido nosso, Luís Oliveira, editor refractário responsável pela Antígona, respondeu a uma série de perguntas da Angelus Novus e de alguns autores e colaboradores seus. Publicamos neste post as suas respostas às perguntas da Angelus Novus. Deixamos para o próximo a respostas de Luís Oliveira às perguntas dos nossos autores.

 

Angelus Novus: A máscara sardónica que é o logo da Antígona vem acompanhada de uma descrição da casa editorial: «Editores Refractários». Refractários a quê, se nos permite a pergunta?

Luís Oliveira: Somos refractários às leis que regem todo o sistema de opressão em que vivemos. A Antígona resiste à acção do fogo, sem mudar de direcção.

 AN: O catálogo da Antígona sempre foi muito político, mesmo quando literário (pensamos por exemplo no significado da centralidade atribuída na ficção à obra de Jack London ou George Orwell). O facto de essa política não ser a consensual, mas sim claramente alternativa – radical, marginal, etc. – mostra que há um público para suportar uma editora com um projecto muito definido nessa área?

LO: É evidente que, se não tivéssemos leitores, não existiríamos estes trinta anos, pois não possuímos outros recursos para além das vendas dos nossos títulos. O facto de termos um projecto muito bem definido, nesta e noutras áreas, atraiu um certo público, que se tem mantido fiel às ideias que veiculamos.

AN: Como editor com um projecto muito coerente, sente que o seu público aumentou, diminuiu ou se manteve nestes 30 anos?

LO: O público da Antígona tem sempre vindo a crescer ao longo destes trinta anos. É um público maioritariamente jovem, apaixonado pela nossa linha editorial. A publicação da obra completa de Albert Cossery aumentou exponencialmente o número de leitores mais jovens.

Continuar a ler

Manuel Portela: «Antígona: 30 Anos»

Caraça04

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

«com a língua de fora

Das muitas coisas que se podem fazer com a língua, passar vinte e cinco anos com a língua de fora é, sem dúvida, uma das menos aconselháveis. Não apenas por revelar obstinada contumácia em tão indecorosa postura, mas também por indiciar multi-resistência às agressões do ambiente sobre o órgão em causa. Resistência ao ar que seca a língua e aos micróbios que por ela transitam, e resistência ao olhar que quer ver a língua no seu lugar, isto é, dentro da boca. Definida pelo dicionário como “corpo carnudo, alongado, móvel, situado dentro da boca, que serve para a deglutição e a fala e que é o principal órgão do sentido do gosto”, a língua é uma das extensões do corpo humano para tocar a superfície do mundo e para partilhar esse toque na comunicação com outrem. Talvez por isso o linguado designe simultaneamente o toque das línguas e as línguas de papel que o tipógrafo compõe. É como se a página impressa beijasse o leitor com a membrana mucosa da escrita. Um cheiro a tinta que, se o não intoxica, o deixa a salivar. Os fluidos simbólicos sempre dependentes dos fluidos corporais e vice-versa.

A tactilidade da língua que o livro é ganha a partir daqui um segundo grau: pela lógica desta metáfora o livro seria então uma língua feita de língua, entendida neste caso através da acepção referida pelo dicionário como “idioma de uma nação”. Sendo assim, o que acontece quando os livros deitam a língua de fora? Duas coisas parecem acontecer. A primeira: o livro estar cansado da correria que o conduziu por mero acaso às mãos do leitor ou da leitora e, nesse respirar ofegante, lançar-lhe um último repto mostrando-lhe a lepidóptera extremidade como quem lhe piscasse o olho. Uma língua malcriada, mas em plena sedução. A segunda: o leitor ou a leitora perceberem que o livro traz na ponta da língua aquilo que neles parecia estar condenado a permanecer para sempre debaixo da língua. A sua língua muda perfurada pelo piercing da eloquência. É neste duplo acontecimento, neste circuito que liga a inquietação do leitor e a inquietação do texto, que o ex-libris da língua de fora completa a operação simbólica que consiste em ligar a caraça a um corpo de textos.» MP, 6 de Outubro de 2004

Continuar a ler

Antígona: «Ser Refractário», 30 anos depois

Caraça02

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No final do ano passado, celebraram-se os 20 anos dos Livros Cotovia, editora com a qual a Angelus Novus há muito mantém relações próximas. Agora, neste mês de Junho que acaba de expirar, celebraram-se os 30 anos de uma outra pequena-grande casa editorial portuguesa: a Antígona. A Angelus Novus associa-se à celebração desta data, que é para todos os efeitos uma efeméride no nosso mundo editorial: a da vida, longa de três décadas, de uma casa editorial única, pelo perfil muito marcado do seu catálogo, o mesmo é dizer, pelo seu valor de exemplo: de dedicação, de coerência, de aumento consistente dos critérios de exigência no que toca à realização material dos livros, enfim, de resistência a um meio que parece ter cada vez menos lugar para projectos como o da Antígona, casa auto-declarada de «editores refractários».

Propomos, pois, aos nossos estimados leitores, visitantes e clientes, um exercício que se nos afigura indispensável: em primeiro lugar, o que consiste em reconhecer os méritos da concorrência e em aprender com ela (por exemplo, aprender com a Antígona a intransigência no que toca à «caça à gralha», que faz dos seus livros, nessa matéria, os melhores do país), o que passa por elogiar sem reservas quem o merece, na sequência de uma prática que aqui lançámos há tempos e à qual regressaremos periodicamente; depois, o que implica dar a voz às pessoas que trabalham neste ramo, dialogando com elas sem outra barreira que não a da exigência com que definimos «a nossa família electiva» ou aqueles que, apesar de divergências de programa, nos merecem todo o respeito profissional. 

A homenagem da Angelus Novus à Antígona concretizar-se-á, nos posts que se seguem, (i) num texto de Manuel Portela, nosso amigo e colaborador e autor muito presente no catálogo da Antígona, quer com um grande livro seu, quer com as suas memoráveis traduções de Sterne ou Blake; (ii) numa entrevista a Luís Oliveira, desdobrada em dois momentos: no primeiro, o editor da Antígona responderá a perguntas da Angelus Novus; no segundo, a editora solicitou a um certo número de autores e colaboradores seus que fizessem cada um uma pergunta a Luís Oliveira.  Agradecemos, naturalmente, aos nossos autores e a Luís Oliveira por se terem prestado ao jogo proposto na entrevista.

E agora, sentemo-nos e aguardemos, com bons livros na mão, pelos próximos 30 anos da Antígona.