«Outubro», por Hugo Pinto Santos

Hugo Pinto Santos publicou, no site Orgia Literária, uma resenha de Outubro, de Rui Bebiano, que vale a pena ler. Eis uma amostra:

Independentemente de partidarismos, ortodoxias ou posicionamentos ideológicos, parece inegável a importância da Revolução Russa para a História enquanto estudo, bem como para a compreensão de, ainda, muito do que forma a actualidade e ajuda a explicar tantos dos seus sinais – «um tempo e um lugar onde foi possível acreditar na materialização de uma das mais antigas intenções humanas: o advento de uma época afortunada» (p. 5). Se, ao serviço do seu estudo e conveniente divulgação, estiver uma voz esclarecida e desembaraçada – despida, para mais, da ganga ideológica (ou que consiga não sufocar sob ela) tantas vezes associada a tais empreendimentos –, estamos perante um livro digno do maior interesse e de particular relevância. Outubro é um desses livros; Rui Bebiano, pelo seu percurso, como pelo que, neste seu livro, nos deixa, é esse autor.

O resto pode ser lido aqui.

Advertisement

«Outubro», por Ricardo Noronha

No último número do Le Monde Diplomatique (Nº 39, II Série, Janeiro 2010), Ricardo Noronha publica uma recensão instigante de Outubro, de Rui Bebiano. Trata-se de um texto que discute criticamente as posições de Bebiano (sobretudo, o lugar da violência no pensamento comunista e na revolução bolchevique), reconhecendo embora a lógica e sustentação dessas posições. Um texto a ler. Extraímos um excerto da resenha de Ricardo Noronha:

Outubro é permanentemente atravessado por uma tensão problemática, entre a dimensão simbólica resultante do evento que lhe dá o nome – os ecos de Outubro, o imaginário da tomada do poder, a edificação de uma sociedade socialista – e a materialidade do evento propriamente dito – os acontecimentos que tiveram como palco Petrogrado, Moscovo, a guerra civil russa ou o «terror vermelho». Essa tensão não fica resolvida ao longo do ensaio (e é provável que tampouco fosse esse o objectivo do autor), resultando daí a sensação de que a primeira – «o mito de Outubro» – é um terreno mais confortável para Rui Bebiano do que a segunda. O capítulo 4, dedicado aos relatos de viagem elaborados por intelectuais simpatizantes com a revolução russa e amplamente difundidos por todo o mundo, é o mais conseguido do livro, traçando os contornos da simpatia de inúmeros companheiros de estrada para com a experiência soviética, bem como o seu papel na difusão de uma imagem altamente positiva das transformações em curso na URSS.

Agora que de novo se morre em Teerão pelos direitos humanos…

…convém lembrar uma máxima de sempre:

Os homens nascem e são livres e iguais em direitos.

«Outubro» na imprensa: Ana Cristina Leonardo, no «Expresso»

october_28

Ana Cristina Leonardo publicou ontem, 8 de Agosto, no suplemento Actual do Expresso, uma resenha de Outubro, de Rui Bebiano. Reproduzimo-la aqui, com a devida vénia:

 

A Revolução de Outubro, do mito à realidade desencantada.

É UM LIVRO pequeno, sobriamente ilustrado, cabe no bolso e tem capa vermelha. Chama-se “Outubro” e debruça-se sobre a revolução bolchevique de 1917. O autor, Rui Bebiano (R.B.), professor de História Contemporânea na Faculdade de Letras de Coimbra, mantém um blogue, “A Terceira Noite”, e foi lá que estes textos, agora compilados e ligeiramente alterados, apareceram pela primeira vez. Quando comecei a ler “Outubro” lembrei-me de Arthur Koestler, o homem de “O Zero e o Infinito”, ex-comunista que desde logo percebeu que a utopia igualitária era, na verdade, uma realidade monstruosa. Koestler escreveria no 1º volume da sua autobiografia, “Arrow in the Blue”: “Nos anos 30, a conversão à fé comunista (…) foi a expressão sincera e espontânea de um optimismo nascido do desespero (…). Deixar-se atrair pela nova fé, penso-o ainda, foi um erro louvável. Estávamos enganados pelas boas razões; e continuo a acreditar que, apenas com algumas excepções (…), aqueles que, desde o início, denegriram a revolução russa o fizeram por motivos menos louváveis do que o nosso erro. Existe um mundo entre o amoroso desencantado e os seres incapazes de amar.” Entretanto muito tempo decorreu e muitos cadáveres passaram debaixo das pontes. Como questiona o próprio R.B., a quem interessará hoje hoje Outubro “fora do universo protegido dos prosélitos mais irredutíveis da revolução proletária?”. Dir-se-á que, desde logo, aos historiadores, mas porventura também, e concordando com R.B., a todos os “que se não conformam com o mundo tal qual ele é”. Abordando aspectos vários – do pragmatismo leninista, levado ao paroxismo por Estaline, aos compagnons de route, da invenção do “realismo socialista” ao Gulag – “Outubro”, reflexão sobre o potencial utópico, dimensão simbólica e crimes reais da revolução soviética, será, sobretudo, na sua versão de pequeno ensaio, uma tentativa honesta de pensar o desencantamento.

«Outubro» na blogosfera: um agradecimento

outubro_rb1

O livro merece, o autor idem, mas não podemos deixar de manifestar o nosso agradecimento a todos os que citaram, mencionaram, transcreveram, etc., o recente Outubro, de Rui Bebiano, nos seus blogues. Como foram muitos, alguns deles aproveitando para referir a colecção Jacto e o volume de Pádua Fernandes, Para que servem os direitos humanos?, fazemos questão de fazer aqui o seu elenco até ao momento (e até onde nos apercebemos):

Água Lisa (aqui e aqui e aqui)
A Origem das Espécies
Bibliotecário de Babel
Cadeirão Voltaire
Entre as Brumas da Memória
Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos
LER
Local & Blogal
Meditação na Pastelaria
Novo mundo
Pó dos Livros
Prosas Vadias
Segunda Língua
Womenage à trois

Eis o Wally!

Rui Bebiano detectado em Vilar de Mouros

Pois é, é chegado o grande momento!

Eis então a solução do enigma: o Wally-Bebiano é aquele teenager de pose um tanto desafiadora que o círculo e a seta a vermelho indicam. Não houve assim tanta gente a acertar, mas ainda foram uns 4 ou 5. Sucede que no post em que se lançou o concurso se dizia que o exemplar gratuito de Outubro iria para quem fosse «o primeiro a acertar» e, sendo assim, não há dúvidas: a primeira a acertar dá pelo nome de guerra Krupskaia e irá ser em breve contactada pela Angelus Novus no sentido de nos fornecer o endereço para onde enviaremos o exemplar do livro de Rui Bebiano.

Quanto aos que não acertaram, ou que o fizeram tarde, não desesperem! Haverá mais episódios do Wally, depois das férias; haverá um sensacional novo concurso em Setembro (garantimos que a concorrência se roerá de inveja); e há sempre a possibilidade de adquirir Outubro ou numa livraria perto de si (mas só nas boas!, pois só nessas se encontram os nossos livros) ou no nosso site.

Em todo o caso, já sabe: férias boas em Agosto, só com Outubro!

Não, João Tunes, a Angelus Novus não subornou Alberto João Jardim!

 october_37

João Tunes escreveu uma excelente recensão de Outubro, no seu blogue. Mas, antes de entrar em matéria, e para enfatizar o sentido de oportunidade da Angelus Novus (o que obviamente agradecemos), coloca uma hipótese que não podemos aceitar. Ei-la:

 

Embora por causa de algumas linhas tortas, valeu a pena o atraso na edição do livro de Rui Bebiano intitulado “Outubro” (*), agora finalmente disponível para leitura. Refiro-me à sua coincidência com a espécie de polémica causada pela direita madeirense de propor que a próxima revisão constitucional inclua a proibição do comunismo. E quem acredita em bruxas até pode convencer-se que a Editora subornou o bronco Alberto João para dar uma ajuda ao lançamento de “Outubro”, incrementando a sua oportunidade. No meio do chinfrim provocado pela insólita e provocatória proposta vinda do bunker reaccionário madeirense e do aproveitamento vitimizante dos provocados, a que se juntaram muitas almas escandalizadas com a hipótese de se perder a unicidade condenatória dos extremismos políticos e ideológicos sobre as costas do nazi-fascismo, a leitura deste livrinho pode ajudar a passar-se do barulho para o debate, da esgrima emocional para o entendimento das razões porque, ainda hoje, a ideia comunista construída à volta e em consequência do fragor da Revolução de Outubro (1917), mesmo com os milhões de esqueletos de vítimas no seu armário, é intocável em termos de julgamento e condenação. [sublinhado nosso]

 

Vem pois a Angelus Novus solenemente afirmar que se demarca das insinuações do conhecido bloguista, as quais colocam em causa a honorabilidade de duas pessoas de bem: a da Angelus Novus e, sobretudo, a do Presidente do Governo Regional da Madeira. Fora isso, ou desde que munidos dessa prévia cautela, os leitores de Outubro terão «um mundo a ganhar» lendo o post de João Tunes. Quanto aos ainda não-leitores de Outubro, terão um livro a ganhar…

P.S. Não é caso para autocrítica, João Tunes. Embora a palavra, com todas as suas pesadas conotações, até não destoe no contexto de Outubro.

Onde está o Wally?

ruibebianovilardemouros 

Isto, senhoras e senhores, é a juventude rebelde de 1971, em Vilar de Mouros, no «Woodstock português»! 30 000 cabeças, ao que consta, nem todas em sua perfeita razão…

Temos uma pergunta para quem tiver olho de lince, e treino nos puzzles visuais da série Wally: onde está o Rui Bebiano? Sim, sim, ele está lá e a fazer convictamente de jovem (clique na imagem para aumentar).

O primeiro que adivinhar, sem ambiguidades – não valem respostas do tipo: «está ali a meio do lado direito, um bocadinho para cima…» -, ganha um exemplar de Outubro entregue ao domicílio. Para efeitos de confrontação, podem usar o garboso retrato do autor hoje, disponível aqui.

Força, pessoal! O concurso dura uma semana (mais hora, menos hora), pelo que expira às 24 h do próximo dia 31. O nome do vencedor só será indicado após essa data.

As respostas devem ser enviadas para o nosso mail de contacto.

P.S. Para evitar acusações de «nepotismo», etc., o concurso exclui autores e colaboradores da Angelus Novus.

Rui Bebiano: entrevista (II)

 october_21

Voltamos à conversa com Rui Bebiano, a propósito do lançamento do seu livro Outubro. Aproveite, pois não há mais.

 

P. «A Revolução não é um convite para jantar», dizia um famoso revolucionário. Ou seja, e como dizia outro revolucionário, a revolução é como o rio que se liberta e tudo arrasta, sendo por isso quase que fatalmente violenta. Adaptando para aqui a teorização da «guerra justa», será que há uma violência revolucionária justa?

R. O antigo debate sobre a justeza da guerra remete, mais do que para princípios – desde Santo Agostinho que não existe uma solução para o problema que não seja arbitrária –, para condições objectivas de luta por metas e valores. A dicotomia paz-guerra é incompleta e perigosa quando implica a rejeição absoluta da luta de contrários. No caso da «guerra revolucionária», que implica uma revisão da ordem política e moral, a absolutização desses valores é objectivamente impossível. Mas a consideração da violência como «parteira da História», da qual falava Engels, incorpora tanto a sua dimensão regeneradora, enquanto instrumento de destruição de uma ordem injusta, quanto a sua disposição ao serviço do lançamento de uma nova ordem. A grande dificuldade esteve sempre em saber quando parar, ou até se se deveria parar. Os Estados do «socialismo real» nunca deram grande importância à segunda possibilidade. E a esquerda radical rejuvenescida nos anos sessenta colocou sempre no centro da sua intervenção a necessidade da violência. O imaginário de Outubro ajustou-se de forma óptima a estes objectivos. A proposta guevarista de «criar um, dois, três, muitos Vietname» não representava senão o retomar, como uma necessidade, do programa internacionalista do primitivo Outubro. 

Continuar a ler

«Outubro»: segundo take

 

Agora em versão mais estalinista, eis o nosso segundo épico sobre Outubro.

Compre «Outubro» antes que Alberto João Jardim o proíba!

outubro_rb

Aberto João Jardim quer exterminar o comunismo por via constitucional, diz hoje o Público.

Não demore a comprar Outubro, pois quem sabe se já não é tarde demais… Ou se não está a comprar uma relíquia para arqueólogos da Revolução…

Pádua Fernandes: entrevista (II)

padua

Publicamos agora a conclusão da entrevista a Pádua Fernandes, por ocasião da edição do seu ensaio Para que servem os direitos humanos? A foto acima é de Duanne Ribeiro, para a revista Capitu.

 

P. A questão dos direitos humanos só faz sentido, em rigor, no quadro, muitíssimo problemático, do Direito Internacional, quadro no qual uma expressão como «comunidade internacional» é pouco mais do que um tropo caritativo, na medida em que não repousa sobre uma modalidade explícita de «contrato social». A pergunta é esta: na lógica dos direitos humanos, que é a da «comunidade internacional», tal como Kant e outros depois dele a pensaram, crimes como o de genocídio não deveriam activar, de imediato, um «direito de ingerência»? Pode haver, de facto, direitos humanos sem o correlato direito de ingerência?

R. Com efeito, contratualistas como Rousseau, lembro-o no livro, não souberam o que fazer com o Direito Internacional. O direito à ingerência é anterior ao Direito Internacional de hoje – na verdade, é mais antigo do que o princípio da não-intervenção, como explico no livro. No entanto, a ingerência era usada como instrumento do imperialismo; isso ainda pode acontecer, como foi o caso da invasão do Iraque pelos Estados Unidos. No livro, refiro às exceções ao princípio da não-intervenção nos casos de violação maciça dos direitos humanos (como os crimes contra a humanidade).

Continuar a ler

Rui Bebiano: entrevista (I)

rb_2004

Rui Bebiano edita, com Outubro, o seu terceiro livro na Angelus Novus, dirigindo neste momento na editora uma colecção cujos primeiros volumes serão publicados ainda no corrente ano.

Outubro, publicado inicialmente no seu blogue A Terceira Noite (situação que já ocorrera com a sua colectânea de cibercrónicas Folhas Voláteis), é mais um episódio da sua dedicação aos novos meios, mas também, ou sobretudo, a uma versão pessoal do papel do historiador como alguém preocupado com a difusão do seu trabalho e discurso no espaço público.

Como se impunha, fomos ouvir Rui Bebiano sobre esta sua mais recente obra. Publicamos aqui a primeira parte dessa conversa.

 

P. Sendo reconhecidamente necessário, e mesmo indispensável, superar as perspectivas acríticas da revolução de Outubro, será contudo possível superar a mitologia em torno do evento? A carga mitológica da data parece resistir a quase tudo, ou não?

R. Outubro permanece como instante simbólico, distante e próximo ao mesmo tempo, fundador de um tempo longo do qual ainda participamos. Dele não se emanciparam ainda os defensores da grande ilusão comunista, continuando a projectar a partir do seu exemplo a materialidade das suas expectativas, ou os que vêem na sobrevivência do modelo leninista uma ameaça à vida democrática. Mas permanece também como elemento activo, com o qual é impossível não dialogar na edificação dos imaginários emancipatórios. É ainda uma presença recorrente nas preocupações dos que procuram interpelar criticamente o mundo contemporâneo e os caminhos da memória colectiva.

Continuar a ler

Pádua Fernandes: entrevista (I)

paduafernandes

Autor já editado em Portugal, e com um especial interesse na obra de Alberto Pimenta (editou no Brasil uma antologia da sua obra, A Encomenda do Silêncio, Odradek, 2004), Pádua Fernandes não deveria ser um inteiro desconhecido para o público português – que contudo desconhece, até ao momento, a sua produção na área do Direito. No momento em que a Angelus Novus edita o seu importante ensaio sobre os direitos humanos com que inaugura a colecção Jacto, pareceu-nos por isso importante ouvir extensamente o autor. Aqui fica o início dessa conversa.

 

P. Uma das teses fortes do seu ensaio é a ideia de que «A interpretação dos direitos humanos deve guiar-se pela busca da efectividade da acção humana» (p. 67). Logo, «Porque devem ligar-se à acção, os direitos humanos têm no direito de resistência o seu referencial» (id.). Podemos daqui inferir que na medida em que os direitos humanos pressupõem o direito de resistência, onde quer que este não possa funcionar – por exemplo, e ainda recentemente, nas ruas de Teerão – os direitos humanos são apenas letra de lei, isto é, letra morta. Logo, uma pré-condição dos direitos humanos é a democracia. É assim? E não é isso uma debilidade de base da sua defesa?

R. Ao contrário, em Teerão o direito à resistência pode funcionar, e o faz até por meio destas novas vias tecnológicas relacionadas à internet, que permitem a ação em escala global. Isso faz lembrar a observação que faço no final do livro sobre a tese de Virilio a respeito da tecnologia totalitária: a tecnologia não é necessariamente totalitária ou libertária, tudo depende da ação. A ideia de democracia como pré-condição dos direitos humanos parece-me simplificadora. Historicamente, a democracia nasceu na Grécia Antiga sem a noção de direitos humanos – e sim com as “liberdades dos antigos”. No século XVIII, por sua vez, concepções filosóficas de direito natural animaram os processos que acabariam por levar às democracias contemporâneas. No tocante ao problema do fundamento filosófico, interessa-me a tese de Habermas de que democracia e direitos humanos são cooriginários, a qual, segundo Ricardo Terra, já estaria presente em Kant. No entanto, não trato disso neste livro.

Continuar a ler

«Para que servem os direitos humanos?»: veja o filme mas compre o livro

 

Sem comentários.

Mas se quiser ler um comentário informado e esclarecido, consulte Pádua Fernandes.

Rui Bebiano: «Outubro»

 outubro_rb1

Rui Bebiano é actualmente professor de história contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Sociais. Foi pioneiro na revalorização do estudo da história política do período Barroco, com o seu livro D. João V. Poder e Espectáculo (Estante, 1987), tendo-se dedicado ainda ao estudo da teorização da guerra entre os séculos XVI e XVIII. Colaborador regular de diversas publicações periódicas, é também autor do blogue A Terceira Noite, onde o recém-editado Outubro foi inicialmente publicado. Foi aliás um dos primeiros exploradores das possibilidades comunicativas do ciberespaço, criando publicações como NON! – Cultura e Intervenção (1996-2003), além dos blogues Sous les pavés, la plage! ,  A Estrada e Passado/ Presente.

Outubro, cuja versão final reescreve com alguma extensão o texto originalmente publicado no blogue, procura contribuir para a superação de algumas das perspectivas acríticas da Revolução de Outubro e da sua pesada mitologia. O autor reporta-se, por isso, a factos mas integra também, recolocando-as sem qualquer dogmatismo, memórias e crenças que continuam a moldar algumas das preocupações contemporâneas. E isso porque afinal, para umas quantas pessoas – talvez não muitas, mas umas quantas que se não conformam com o mundo tal qual ele é –, haverá sempre um Palácio de Inverno a tomar.

Deixamos aqui o impressivo início do livro:

Quando dizemos «Outubro», soltamos evocações. Apesar de longínquo, o estrépito da fuzilaria imaginária disparada em São Petersburgo sobre o Palácio de Inverno – que Annenkov e depois Eisenstein encenaram, tornando-a «real» –, chega-nos ainda aos ouvidos, distribuindo posições de combate e rearmando certezas. Mas porque regressar aqui a acontecimentos que, fora do universo protegido dos prosélitos mais irredutíveis da revolução proletária, nos chegam sobretudo como um rumor épico que a ficção, o documentário e os compêndios de vez em quando libertam? Talvez valha a pena fazê-lo porque eles se referem a um tempo e a um lugar onde foi possível acreditar na materialização de uma das mais antigas intenções humanas: o advento de uma época afortunada, no qual a luta entre o bem e o mal tenha sido resolvida com a vitória irrevogável do primeiro. Instante de uma «luta final» rumo a uma era nova, o Outubro ideal do qual aqui se fala condensou, e a sua dimensão simbólica ainda hoje representa, uma parte daquilo que de melhor a humanidade tem sido capaz de conceber como destino.

Pádua Fernandes: «Para que Servem os Direitos Humanos?»

direitos_humanos_G

Com o volume Para que servem os direitos humanos?, de Pádua Fernandes, a Angelus Novus inaugura a colecção Jacto.

Pádua Fernandes nasceu no Rio de Janeiro em 1971. É doutor em Direito pela Universidade de São Paulo. Escritor e professor, publicou os livros O Palco e o Mundo (Lisboa, & etc, 2002) e Cinco Lugares da Fúria (São Paulo, Hedra, 2008), um dos dez livros de poesia brasileira finalistas do Prémio Portugal Telecom 2009. Colaborou com a revista electrónica portuguesa Ciberkiosk.

Em Para que servem os direitos humanos?, o autor interroga a noção de Direitos Humanos, em perspectiva histórica e filosófica, e o seu lugar problemático na ordem jurídica, uma vez que, como se insiste ao longo do texto, muitas vezes parecem desafiá-la e mesmo pô-la em causa.

Eis o emblemático início do ensaio:

Um advogado defende a sua própria condenação, à mais alta pena: esta confirmaria a iniquidade do sistema e a razão da resistência. Gandhi obteve tal condenação em 1923, numa das vezes em que foi preso pelas autoridades britânicas. Nessa ocasião, na derradeira intervenção perante o juiz, confessou um erro de juventude: quando descobriu que como homem indiano não possuía direitos no Império Britânico, julgou que a discriminação era simples excrescência dentro de um bom sistema. Mais tarde havia de perceber que através da conquista e da colonização os britânicos tinham cometido um “crime contra a humanidade talvez sem paralelo”.

Jacto: Mil imagens por segundo

 

Imagens fortes, ideias incisivas: em formato portátil e em viagem low cost, na Jacto.

Para todos os destinos.

Jacto: Mil ideias por segundo

JACTO

Com Para que Servem os Direitos Humanos?, de Pádua Fernandes, e Outubro, de Rui Bebiano, a Angelus Novus lança a sua nova colecção Jacto.

Em formato de bolso, esta colecção, que no catálogo da editora vem substituir a anterior colecção Marfim (descontinuada por razões essencialmente de ordem tipográfica e «material», uma vez que as plaquetes eram submetidas a demasiados maus tratos no circuito da distribuição), destina-se a publicar ensaios curtos (raramente acima das 100 pp.) e incisivos, sobre temas para cujo âmbito não haverá restrição prévia.

Seguir-se-ão, no programa editorial da colecção, os ensaios Emergindo da Censura, de J,M, Coetzee, e Locus eremus, de Fernando Rodríguez de la Flor.

Não fique para trás: apanhe o Jacto!