Próximo sábado, 10 de Março, no Gato Vadio

Imagem de Luís Nobre.

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Jorge Fernandes da Silveira sobre Isabela Figueiredo

Jorge Fernandes da Silveira é Professor Titular da Faculdade de Letras da UFRJ. Professor dos mais prestigiados da universidade brasileira na área dos Estudos Portugueses, tem obra vasta, dispersa por revistas de referência e editoras de Portugal e Brasil. Destaquem-se, além de obras que organizou e outras de cariz antológico (sobre Cesário Verde ou Luiza Neto Jorge), os livros Portugal Maio de Poesia 61 (Lisboa, 1986); O Beijo Partido – Uma Leitura de O Beijo Dado Mais Tarde: Introdução à Obra de Llansol (Rio de Janeiro, 2004); Lápide & Versão: O Texto Epigráfico de Fiama Hasse Pais Brandão (Rio de Janeiro, 2006); O Tejo é um Rio Controverso – António José Saraiva contra Luís Vaz de Camões (Rio de Janeiro, 2008). Na Angelus Novus publicou Verso com verso [Estudos de Poesia Portuguesa], em 2003. Publicamos em seguida um texto que configura uma primeira reacção do autor à leitura do Caderno de Memórias Coloniais.

Acabo de ler de um só fôlego o livro de Isabela Figueiredo. E não resisto a estes apontamentos apressados sobre este impressionante Caderno de Memórias Coloniais. O hábito de professor, bendito seja, se me agarra à mão da língua em determinadas leituras. O que se segue – passada a leva de obrigações em curso – será matéria de aulas e ensaios.

1. a língua geral como modo de expressão da vivência pessoal em Moçambique transformada em experiência de escrita. Por exemplo: o à vontade, como se fosse voz corrente na língua portuguesa, com que usa, por exemplo, “mainato”, (27) “milando” (39); Continuar a ler

A vez dos leitores: Luís Pedroso

Na colecção Microcosmos, da Angelus Novus, cada volume termina com um incitamento aos leitores para que produzam também microcontos. Para esse efeito existem 4 pp. com o espaço previamente delimitado para cada microconto, sendo que o número de linhas vai diminuindo de texto para texto. Um leitor de Caravana, Luís Pedroso, respondeu ao desafio. É esse exercício que publicamos em seguida, agradecendo ao novo microcontista a autorização para publicarmos os seus contos aqui.

 

Montanha Russa

Inácio de Loyola – curioso nome – tinha apenas um prazer na vida: viajar em comboios paralelos a margens, fossem estas de rios, mares ou páginas.
Certo dia sentou-se à sua frente a nuca linda de uma jovem, que lhe prendeu a atenção. Agora que tinha a atenção presa, restavam-lhe livres a vontade e as mãos. Foi então que olhou as mãos da moça, e reparou como eram bonitas – como as dele. Seriam irmãos?
Pousou a mão ao lado da mão do mesmo braço da inocente criatura e disse aos seus dedos esguios:
– À margem das margens, ou fomos feitos para estar juntos… ou não.

 

Bife como um tártaro
 
Apetece-me contar a história de um cozinheiro de literatura e ideias, mas sendo as ideias demasiado fixas, nunca passam de cruas, apenas apropriadas a leitores crudívoros. Curiosamente conheço um crudívoro com unhas feitas de ouro e um gosto voraz por poesia rija. É que a poesia rija não passa de crua. E até conheço outro crudívoro, que por acaso tem uma dentição azul.
Quando se encontrarem certamente se vão devorar e será ouro sobre azul, sem terem que passar pelas mãos recomendáveis de nenhum cozinheiro.

 

Subsídio de férias
 
O Barão de Monte Gordo passou toda a vida as férias no mesmo quarto do mesmo hotel. Certa noite acordou invadido pelo gemido do vento, pela luz da alba e por sonhos excessivamente salgados.
Sentiu-se muito triste e desejou ser um cão que consola o dono. Lamentou, até se cansar, o facto de muitos anos antes não ter escolhido um quarto num andar mais alto.

 

O Divino autocarro
 
Os néctares os laivos os vinhos as horas as crinas as pratas os séculos. Com todo o prazer, a, ante, após, até. O motorista cego leva-nos e diz, sorrindo:
O verbo morrer.